Resenha

The Art Of Bleeding

Álbum de The Watch

2021

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

20/10/2021



Encontrando o próprio caminho

Eis que os milaneses aparecem em 2021 com o seu oitavo álbum de estúdio, The Art Of Bleeding, primeira obra conceitual da banda, após um hiato de quase 4 anos desde “Seven” (2017). Estava bastante ansioso por mais este lançamento do quinteto italiano, que, não obstante ainda carregar a nítida influência do Genesis, vem gradativamente mostrando a sua própria identidade e abandonando a pecha de “covers dos britânicos”. 
  
Neste novel trabalho, o fã de prog sinfônico encontrará cordas chamejantes, linhas de baixo charmosas, teclados vintage, passagens dinâmicas e performances vocais preciosas, além de pitadas de rock progressivo moderno decorado por sintetizadores e guitarras audazes. O The Watch, mais uma vez, dá matizes contemporâneos ao clássico, tudo na medida certa e de forma equilibrada. Se por um lado os concertos não se tornam excessivamente intrincados, por outro jamais caem no simplório. 

Aqui eles se permitem algumas aventuras, quase sempre nascidas da costura de paisagens inventivas/não triviais que conseguem fazê-los transcender o velho e bom Genesis setentista, que detratores da banda adoram reafirmar como sendo seus fantasmas preferidos. Por falar na ex-banda de Peter Gabriel, é a primeira vez desde “Planet Earth?” (2010) que a banda não inclui uma cover do Genesis. 

O vocalista, flautista e líder Simone Rossetti parece cada mais à vontade e, em que pese ser quase impossível não pensar em Peter Gabriel toda vez que ele destila sua voz, fica nítido que consegue manter-se numa zona distante da simples caricatura gabrieliana. A competência do restante da trupe também é inquestionável: o guitarrista Giorgio Gabriel transita com maestria entre as seções acústicas e elétricas; o baterista Marco Fabbri tem uma pegada perfeita para o som do grupo, conseguindo mesclar força e suavidade; o baixista Mattia Rossetti, por sua vez, dá segurança à cozinha e aparece ocasionalmente com linhas certeiras, já o tecladista Valerio De Vittorio se sobressai despejando suas camadas impressionantes de mellotron, teclados e sintetizadores, cuja tapeçaria não fica devendo nada a absolutamente ninguém.     

As feições dramáticas deste disco aparecem desde a primeira faixa, “An Intro”, uma abertura emblemática sob clima de suspense onde os sintetizadores comandam as coisas até aparecer “Red”, que, embora aumente um pouco a temperatura, permanece variando em explosões e passagens mais introspectivas, com direito a Hammond e mellotron chafurdando instantes perturbadores.   

“Abendlicht” traz como tema as mudanças climáticas, pintando um cenário nebuloso e um tanto catastrófico. É uma canção que lembra muito os trabalhos anteriores, até mesmo algo do genial “Vacuum”, de 2014. Destaque para os solos de guitarra de Giorgio Gabriel na segunda parte. Um dos melhores momentos do disco vem nas asas de “The Fisherman”, uma faixa regravada da antiga banda do vocalista Rossetti, The Night Watch, tirada do álbum “Twilight” de 1997. Impossível não lembrar do Genesis, notadamente por conta das sensacionais cordas dedilhadas e melodia campesina.  

Em “Hatred Of Wisdom” as chuvas de mellotron e os riffs metalizados constroem um roteiro eventualmente mais abrasivo e sombrio em meio a seções otimistas. Eles mostram nesta música um pouco da própria cara e, devo dizer, é muito bom. “Howl The Stars Down” foi composta por Nicolas Magnus (que trabalhou com Hackett) e Richards Foster, e trata-se, a bem da verdade, de uma cancioneta linda e triste. Nasceu baseada no piano, mas aqui segue calcada nas cordas de um violão soturno. Uma ótima escolha para cover! Caiu como uma luva e trouxe sinergia à proposta do álbum. 

“Black Is Deep” mostra o tecladista De Vittorio emulando Tony Banks no início até que a carga de eletricidade das guitarras ergue um instrumental altivo, acompanhado de sintetizadores meio ruidosos, havendo espaço ainda para segmentos suaves. Seu único pecado é a brevidade. A melodia de entrada do álbum é retomada na última faixa, “Red Is Deep”, que se apresenta como um exemplar da melhor tradição de rock progressivo contemporâneo, com um certo swing às vezes e pausas melódicas desdobradas e elegantes, cadenciada principalmente pelos teclados. A linha de baixo na segunda metade é a cereja no bolo desse excelente fechamento.   

A bela arte de capa de Andrei Nicolescu não pode passar em branco, revelando-se compatível, como era de se esperar, com a proposição temática de “The Art Of Bleeding”. Quanto ao saldo final, para não correr o risco de se tornar enfadonho, o álbum é uma inequívoca prova da envergadura desses italianos, não restando dúvidas de que já encontraram o próprio caminho. 


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

The Art Of Bleeding

Álbum disponível na discografia de: The Watch

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3 - 1 voto

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