Resenha

A Desordem Dos Templários

Álbum de Guilherme Arantes

2021

CD/LP

Por: João Pedro Feza

Usuário

19/10/2021



O homem que não copia borda mais um disco precioso

É realmente possível ser original no pop? Tentei desmascarar Guilherme Arantes. Passei carão. Ele está com disco novo na praça... Falo disso daqui a pouco.

Sou vidrado em semelhanças musicais. Não de forma aborrecida ou arrogante. Tanto que chamo as coincidências de “músicas primas”. Forma carinhosa de tratar. Tentei encontrar coisas do tipo na obra de Guilherme. Quem sabe um plagiozinho... Missão impossível.

Ele já disse que queria compor um sucesso ao estilo de “My Sweet Lord”, de George Harrison. Fez um hit e tanto: “Cheia de Charme”. Com muito empenho pode-se notar alguma similitude melódica no refrão. “My sweet Lord. Hmm, my Lord...”. “Uh, cheia de charme. Um desejo enorme...”. Mas só percebemos porque o próprio Guilherme contou. 

A verdade é que a linda canção de George, esta sim, é muito muito e muito similar a “He’s So Fine”, do grupo feminino The Chiffons. Deu rolo. Nem por isso perdeu sua beleza sagrada. Nem o charme.

Guilherme também já andou revelando que pegou alguma coisinha de “Push”, canção do Cure que ele adora, pra elaborar sua maravilhosa “O Que Se Leva (Temor ao Tempo)", do disco “Condição Humana”. Ocorre que “O Que Se Leva” não levou nada que não fosse dela mesmo. Está inocentada.

Arrá! Achei uma! “Ride Like The Wind”, de Christopher Cross, veio primeiro que “Deixa Chover”. E daí? Ambas seguem caminhos próprios após a introdução com algum parentesco.

Então chegamos ao novo álbum, “A Desordem dos Templários”, que se parece muito com... “A Desordem dos Templários”. 

Há várias críticas positivas por aí sobre as faixas. Pretendia eu aqui descobrir alguma similaridade com trabalhos anteriores. Uma vez mais, Guilherme se parece... com o Arantes mesmo. 

Parênteses: até mesmo a antiga fama de ser o Elton John brasileiro não cola muito porque, além do jeito totalmente diferente de tocar piano, o brasileiro escreve suas próprias letras. Elton, quase sempre incrível, conta com um letrista esplendoroso: Bernie Taupin. Que se chama Bernard John Taupin. Sim, tem John no nome. Nisso se parecem ainda mais.

Guilherme fez um disco parecido com algo lá dos tempos de Moto Perpétuo, seu grupo de rock mais ou menos progressivo que, entre 1973 e 75, gerou um único e interessante disco. 

Mas a maior proeza de “A Desordem dos Templários” talvez esteja mesmo nas letras, que remetem a um passado europeu longínquo, mas parecem falar para o homem de hoje. O brasileiro de hoje. 

Como em trecho da faixa-título: “Nas crianças, um receio de crescer / Contaminar o céu / Da cápsula de um tempo sem rancor / Cada dia é uma batalha desigual / Em nome de uma paz / E tudo que se entende por normal / É a bandeira incandescente da exclusão...”.

Toda a inspiração brotou em Ávila, na Espanha, onde o artista passou a morar na pandemia. Uma visão quase diária que deve ter tido: as muralhas da cidade, preservadas desde os tempos medievais. 

Aliás, no “Conversa com Bial”, Guilherme assim definiu Ávila – se eu ouvi direito: “Uma mistura de Ouro Preto com Ibitinga”. Não por acaso, Ibitinga é a capital do bordado no interior paulista. E Ouro Preto é a preciosidade colonial do Brasil. 

A música de Guilherme é bordada e preciosa. Artesanato valioso – e acessível. E, sim, quase tudo o que ele toca vira ouro. Ouro pop. Parece que conseguiu mais uma vez. Foi realmente possível ser epicamente original.  


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Sobre o álbum

A Desordem Dos Templários

Álbum disponível na discografia de: Guilherme Arantes

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,75 - 2 votos

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