Resenha

The Quest

Álbum de Yes

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

24/09/2021



Quest é um disco que soa moderno, mas ao mesmo tempo, consegue deixar que o ouvinte sinta o Yes que parecia estar desaparecido

Quando falamos de rock progressivo, o seu nome de maior peso pode ser considerado uma palavrinha de apenas três letra, Yes. Não importa que a banda já tenha lançado alguns discos que eu particularmente finjo que nem existam, pois em contraponto a isso, o grupo também possui simplesmente bíblias sagradas do gênero na sua discografia, sendo esse o motivo de eu jamais deixar de conferir qualquer material que leve o nome da banda. E também pelo simples fato dela estar no pódio das minhas três bandas preferidas.  

Quest é um disco que soa moderno, mas ao mesmo tempo, consegue deixar que o ouvinte sinta o Yes que parecia estar desaparecido. O que eu gosto desse tipo de lançamento, é que ao escolher não esperar nada demais, também tenho a possibilidade de me surpreender muito com o que a banda venha a me entregar, sendo exatamente isso o que aconteceu nesse caso. Sendo uma surpresa muito boa por sinal – mesmo que muito pouco impactante 

Não tem como deixar de mencionar também que estamos diante do primeiro disco da banda sem Chris Squire – o baixista, falecido em 2015, era o único a marcar presença em todos os trabalhos anteriores da banda. A formação do disco é a mesma de Heaven and Earth – algo nada animador, pois o considero, ao lado de Open Your Eyes, os dois piores discos da banda -, mas obviamente, sem Squire, tendo em seu lugar, Billy Sherwood.  

“The Ice Bridge” é a peça que inicia o disco, fazendo com que Quest comece com um dos seus melhores momentos. Trata-se de um uma música muito interessante, de ótima interação entre os músicos - principalmente entre Howe e Downes. Em seus mais de 52 anos de história, a marca registrada da banda não é encontrada apenas nos seus clássicos 70’s, o Yes também tem uma identidade mais moderna que aqui está bastante nítida. Ainda há uma pequena história envolvendo “The Ice Bridge”. Décadas atrás, Downes havia arquivado em uma fita várias composições suas, sendo essa uma das músicas encontradas na fita, porém, nesse caso em específico, a autoria era de Francis Monkman. Como fazia muito tempo, Downes presumiu que a ideia original era sua e levou fãs investigativos para descobrir a verdadeira história da fita. Tudo acabou sendo resolvido amigavelmente, colocando os créditos da música como Davisos / Monkman / Downes. 

“Dare To Know” tem com um dos destaques os trabalhos orquestrais, fazendo lembrar um pouco os encontrados em Magnification – disco onde a banda usou orquestra no lugar de um tecladista. A seção rítmica é bastante firme, principalmente o baixo, algo que deve ser louvado, pois estamos falando de um substituto para Chris Squire. A música ainda nos entrega um excelente trabalho de guitarra melódica. “Minus The Man” inicia por meio de algumas notas de guitarra sobre um baixo bastante acentuado e algumas notas extensas de teclado. Novamente as linhas de baixo de Billy Sherwood divagam brilhantemente enquanto a bateria soa muito boa. O suporte orquestral da peça a deixa mais edificante, além de possuir algumas linhas de guitarra com o selo Howe de qualidade. No fim, uma balada muito bem construída.  

“Leave Well Alone”, ao ouvirmos pela primeira vez e de forma meio despretensiosa, parece um som tirado de algum disco do Steve Howe, misturado com um sabor dos anos oitenta. O território musical trilhado aqui é na linha acústica sinfônica típica da banda. Se nos primeiros versos é possível trazer em mente até algo como Simon & Garfunkel – embora seja algo que não dure muito. Na segunda metade a sonoridade muda de direção e tem como destaque um solo muito bom de Steve Howe.  

“The Western Edge” é uma boa música, onde ao mesmo tempo em que podemos ligá-la muito mais a algum trabalho solo de Sherwood, também é possível perceber alguns temas que evocam a banda em seu som mais classudo e distinto. Os pontos em que os vocais de Sherwood se destacam é muito bom, mostrando mais uma vez que Squire pode estar feliz em ver alguém como Sherwood em seu lugar. “Future Memories”, novamente Sherwood faz alguns vocais de apoio incríveis. A guitarra de Howe parece estar sendo feita por Steve Hackett. O problema dessa música é que ela parece está levando o ouvinte para um momento de explosão instrumental, porém, esse momento nunca chega. Soaria muito bem se fosse a introdução de uma peça, mas na forma que é colocada no álbum não convence muito.  

“Music To My Ears”, se alguém só me falasse que Howe divide os vocais com Davison nessa música, isso já seria um bom motivo para que eu atirasse alguns comentários pejorativos em direção dela, pois Howe nunca teve uma voz que me agradasse, porém, sua voz parece ter melhorado muito – mas mesmo assim eu nunca vi a necessidade de ele cantar, porém, se é algo que ele gosta, podia ficar apenas em seus discos solo. A peça também possui uma ótima variação entre timbres acústicos e elétricos, além de excelentes teclas como sintetizadores e mellotron. 

“A Living Island” é uma peça muito bonita. Traz Downes a apoiando de maneira muito legal por meio de teclas em camada. O mix de pinceladas elétricas e acústicas de Howe como sempre são um belo atrativo. O convidado Jay Schellen faz um ótimo trabalho de percussão, sendo ao lado da bateria firme de White uma peça importante na faixa. As harmonias vocais também são ótimas e comovem ao cantar uma carta sincera de amor e tributo a aqueles afetados pela pandemia.  

As três faixas seguintes são as encontradas no CD bônus e que acompanha Quest. “Sister Sleeping Soul” é a primeira delas. Tem uma cadencia agradável e encantadora, com uma seção rítmica muito boa, além de Howe mandando ver no seu violão de 12 cordas. Os vocais de Davison e Howe mais uma vez se misturam muito bem. “Mystery Tour” parece ser uma singela homenagem aos Beatles, mas sinceramente, dificilmente vou ouvir esse disco novamente sem que eu a pule, pois não acrescenta em absolutamente nada. “Damaged World”, mesmo que tenha melhorado a sua voz, Howe segue sendo um vocalista comum e não acho que a ideia de ele liderar os vocais de alguma música seja boa. Parece mais uma peça de algum disco solo de Howe. Mas o solo de teclado de Downes é um bom atrativo na faixa.  

Quest no fim das contas é um bom álbum, além de muito bem produzido, porém, longe de ser um disco que podemos colocar como um dos melhores do universo progressivo entre os lançados em 2021. Os músicos desenvolvem muito bem as suas funções em um disco de músicas fortes. Quando falamos de Yes hoje em dia, falamos de uma música mais despretensiosa e comedida. Se em sua discografia, a banda tem pelo menos 4 discos que podem figurar em uma lista de melhores do rock progressivo em todos os tempos, hoje não se pode cobrar mais algo tão grandioso, os tempos são outros e a proposta da banda também, mas com Quest eles mostram que conseguem seguir produzindo ao menos uma boa coleção de peças de valor e que juntas criam um álbum digno. 


Nota: As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor



Comentários

Faça login para comentar

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.

Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito, aberto e democrático para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.



Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

Veja mais algumas de suas publicações:

  • Image

    ResenhaSteve Hackett - Beyond The Shrouded Horizon (2011)

    18/04/2020

  • Image

    ResenhaCaligula's Horse - The Tide, The Thief & River's End (2013)

    30/10/2019

  • Image

    ResenhaGreenslade - Bedside Manners Are Extra (1973)

    29/03/2020

  • Image

    ResenhaBig Big Train - Folklore (2016)

    24/01/2020

  • Image

    ResenhaYngwie Malmsteen - Rising Force (1984)

    01/04/2020

  • Image

    ResenhaElectric Light Orchestra - Face The Music (1975)

    09/05/2020

  • Image

    ResenhaFocus - Focus II [Aka: Moving Waves] (1971)

    20/03/2019

  • Image

    ResenhaBe-Bop Deluxe - Futurama (1975)

    08/08/2018

  • Image

    ResenhaRick Wakeman - Rhapsodies (1979)

    25/03/2020

  • Image

    ResenhaRhapsody of Fire - Symphony Of Enchanted Lands (1998)

    12/11/2019

Visitar a página completa de Tiago Meneses



Sobre o álbum

The Quest

Álbum disponível na discografia de: Yes

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,38 - 4 votos

Avalie

Você conhece esse álbum? Que tal dar a sua nota?

Faça login para avaliar

Veja mais opiniões sobre The Quest:

  • 12
    out, 2021

    Um disco contemplativo e necessário

    User Photo Tarcisio Lucas
  • 07
    out, 2021

    Cheiro de café requentado?

    User Photo Marcel Dio
  • 06
    out, 2021

    Vídeo: Steve Howe preserva uma certa aura do Yes

    User Photo Roberto Rillo Bíscaro

Visitar a página completa de The Quest



Continue Navegando

Através do menu, busque por álbums, livros, séries/filmes, artistas, resenhas, artigos e entrevistas.

Veja as categorias, os nossos parceiros e acesse a área de ajuda para saber mais sobre como se tornar um colaborador voluntário do 80 Minutos.

Busque por conteúdo também na busca avançada.