Resenha

Frontal

Álbum de Turbulence

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

23/09/2021



Do começo ao fim, Frontal entrega uma música extremamente bem organizada e poderosa, além de muito rica em texturas

Antes de falar qualquer coisa, acho que todos nós que gostamos de metal progressivo, sabemos que não é uma das tarefas mais fáceis achar hoje em dia uma banda que possua uma sonoridade própria dentro do gênero, porém, é exatamente isso que os libaneses da Turbulence mostram por meio de Frontal. Isso quer dizer que eles não têm nenhuma influência? Claro que não, os nomes Dream Theater e Haken, por exemplo, poderão aparecer em nossa mente em algum momento do álbum, mas conforme as coisas avançam, a banda mostra que possui sim também uma boa singularidade.

O álbum é uma obra conceitual baseada na história real de Phineas Gage, um operário que viveu no Século XIX. Phineas por meio de um acidente com explosivos, teve seu cérebro atravessado – lobo frontal mais precisamente - por uma barra de metal, conseguindo sobreviver mesmo assim. Mas dizem que depois do acidente, ele parecia ter se transformado em um outro homem, agora tendo um comportamento grosseiro e desrespeitosos com todos – dando a entender que lesões desse tipo podem moldar a personalidade da pessoa. Este é mais um entre tantos filhos da pandemia, e provavelmente quer passar para o ouvinte por meio da história de Phineas Cage, que por mais que possamos estar dentro de uma vida estável, tudo pode mudar em segundos, nos mostrando o quanto somos frágeis diante de imprevistos que podem alterar nossas vidas para sempre. Um disco musicalmente muito forte e repleto de emoções diversas muito bem trabalhadas. 

“Inside the Gage” não poderia ser uma introdução de disco melhor para apresentar a banda para alguém que não a conhece. É a peça mais longa do disco e que consegue levar o ouvinte por inúmeros caminhos, mas nunca se perdendo ou soando incoerente. Um excelente diálogo entre os instrumentos, onde no fim, eles entregam uma melodia quase sempre muito forte e carnuda, sejam em suas bases ou nos momentos de solos – de guitarra ou teclado. Tudo isso sobre os vocais excelentes de Omar El Hage. Sinceramente, eu não acho que um fã de metal progressivo não se satisfaça com isso. “Madness Unforeseen”, admito que possui uma introdução suja inclinada para algo que não me agrada muito, ou seja, o djent, mas logo isso se dissolve em uma melodia muito mais interessante, sem necessariamente perder o seu peso. Possui um refrão explosivo enquanto que seus versos são mais reservados. O solo de guitarra certamente é um dos destaques da peça e marca o início de um interlúdio atmosférico antes que a banda exploda novamente em uma melodia fortíssima.  

“Dreamless”, com menos de três minutos é a faixa mais curta do disco, porém, serve como um momento de descanso muito oportuno depois das duas faixas anteriores. Tem uma atmosfera muito agradável, vocais suaves e serenos, piano ambiental, pinceladas confortantes de guitarra. Próximo do fim, a música ganha um pouco mais de impulso para emendar com a peça seguinte. “Ignite” direciona o disco novamente para uma linha feroz, frenética, tecnicamente hábil e de bastante intensidade. Os primeiros vocais são agonizantes. Algo que essa banda consegue fazer muito bem é que mesmo com bastante peso, suas melodias conseguem soar com muito encanto. Por volta dos dois minutos e meio até os quase cinco minutos a banda diminui a sua voltagem para criar uma harmonia aprazível, mas logo regressam com linhas encharcadas de muita tecnicidade e poder. 

“A Place I Go to Hide”, como eu havia citado o Haken lá em cima, nessa faixa é onde mais podemos perceber sua influência sobre a banda. Possui vários exercícios instrumentais que ao mesmo tempo que soam pesados, conseguem excursionar por caminhos jazzísticos. O djent - mesmo que suave - é possível ser percebido em alguns pontos. Os sintetizadores aqui são um dos melhores do disco. Nos últimos vinte segundos, a banda ainda consegue surpreender, redirecionando a faixa para um ritmo completamente diferente dos apresentados nos nove minutos anteriores. “Crowbar Case”, falar que este se trata de um dos melhores momentos do disco é difícil quando estamos lidando com um álbum bastante homogêneo e que o sarrafo permanece sempre bem alto, mas aqui as coisas parecem mesmo assim terem atingido um outro patamar. Após um começo quase silencioso, explode em uma peça de muito peso e densidade. Os vocais soam diferentes e parecem buscar um novo tipo de direção, porém, sem perder o brilho. Destaque também para o seu final em que a faixa entra em uma linha sinfônica magnífica.  

“Faceless Man” é a balada do disco. Adoro a forma como tudo se desenvolve. A banda tocando de uma maneira mais lenta e emocional, dando à música uma natureza suave e muito relaxante. É possível notar uma guitarra de sabor jazzístico. Muitas vezes o metal progressivo é visto como uma música de muita técnica e pouca emoção, mas aqui temos um exemplo onde a banda se afasta do “exibicionismo” e adentra em um estilo mais íntimo. Tanto o solo de teclado quanto o de guitarra são excelentes. “Perpetuity” é a música que encerra o disco, e, diga-se de passagem, que belo final de disco. Logo no seu começo a seção rítmica - sobretudo a bateria – mostra o motivo se serem vistos como o destaque da faixa. Os sintetizadores também estão bastante afiados e os riffs de guitarra são ótimos, tudo novamente sob um trabalho vocal de bastante valor. Sem dúvida e indiscutivelmente a banda entrega ao ouvinte algumas das melodias mais fortes do álbum.  

Do começo ao fim, Frontal entrega uma música extremamente bem organizada e poderosa, além de muito rica em texturas. Muito mais do que apenas um disco qualquer de metal progressivo, a banda mostra suas influências em meio a uma sonoridade própria e extremamente cativante. Indicado principalmente para fãs de bandas como Dream Theater e Haken. 


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

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"Sou poeta, contista e apaixonado pela música progressiva em todas as suas facetas."

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Sobre o álbum

Frontal

Álbum disponível na discografia de: Turbulence

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

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