Resenha

Rapid Eye Movement

Álbum de Riverside

2007

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

21/09/2021



Um álbum consistente de rock progressivo, repleto de pegadas de metal e ótimas melodias

Não obstante ser um fã assumido do Riverside e gostar de praticamente tudo que eles fizeram até então, devo dizer que este disco nunca me deixou tão empolgado. Apesar de continuar considerando-o um pouco inferior aos seus antecessores, "Out Of Myself" e "Second Life Syndrome",  mormente por não haver trazido muitas novidades à sonoridade da banda quando foi lançado no ano de 2007, ele é um trabalho sólido que não desaponta os amantes de um bom rock e metal progressivos,     

Vale lembrar que "Rapid Eye Movement" é o capítulo final da "Reality Dream Trilogy" e garanto que o ouvinte não perderá seu tempo, muito pelo contrário, pois todas as faixas podem ser consideradas de medianas a boas, não há uma única faixa descartável neste álbum. A versão em 2 CDs vem no formato digipak com mais uma arte magnífica de Travis Smith para deleite. A Edição Especial traz ainda cinco faixas bônus, sendo três vindas do EP “Panic Room”, de 2007, são elas: "Lucid Dream IV", “02 Panic Room (remix)" e "Back to the River". E ainda "Behind the Eyelids" e "Rapid Eye Movement".

De certa forma, este álbum acabou sendo uma surpresa para mim que, de tanto ler críticas negativas sobre ele, acabei ignorando-o por um bom tempo. Talvez a característica que mais o favoreça seja a sua variedade, uma vez que ele nunca fica parado muito tempo numa paisagem sonora e quando você pensa que o modo modorrento será acionado, ele simplesmente avança para terrenos ainda não explorados. 

Em termos de influências e similaridades, não há como não lembrar de Porcupine Tree e Pink Floyd nos momentos mais psicodélicos e sombrios, ou mesmo de Tool e Pain of Salvation quando as coisas esquentam e o som chega a flertar com o metal. Arrisco a dizer que o grande segredo do Riverside seja o de conseguir construir músicas naturalmente híbridas, nas quais o pesado e o suave dialogam em plena harmonia. 

Deixo abaixo uma análise pormenorizada das faixas integrantes das duas partes do álbum (Part One - Fearless e Part Two - Fearland).   

Part One – Fearless
A explosividade de "Beyond The Eyelids" impressiona já nos primeiros acordes, desde a introdução completamente instrumental a faixa se mostra bastante poderosa. Quando os vocais de Duda entram misturados aos sintetizadores de fundo a faixa ganha ainda mais dinâmica. Os riffs cortantes de Grudzinski e as passagens de metal são absolutamente fantásticas, sem mencionar as seções meio misteriosas moduladas pelos sintetizadores e os solos de guitarra que beiram uma dimensão quase mística. Que abertura! 

"Rainbow Box" é outra pedrada. Nesta faixa os vocais vão alternando entre melodias e gritos irados enquanto os teclados pavimentam a estrada para os riffs possantes de guitarra irem fatiando tudo em pequenos pedaços enquanto a bateria de Kozieradzki não dá descanso.  

"02 Panic Room" não fica por baixo, seu cartão de visitas fica por conta de riffs pesados e um baixo groove. Os sintetizadores também desempenham um papel importante e parecem luzes piscando e colorindo uma paisagem meio cinzenta. Duda continua mostrando toda a sua versatilidade, construindo um caminho melódico contrastante com um instrumental carregado. Com três minutos e pouco a guitarra lança um solo maravilhoso e edificante antes da música mudar radicalmente de clima capitaneada por uma curta passagem de vocais intimistas. A guitarra e os teclados tratam de encerrar lentamente emendando com a faixa seguinte. 

"Schizophrenic Prayer" tem algo de especial que não consigo explicar bem, como se suas camadas orientalizadas e base percussiva proeminente escondessem algo. Aliás, quem se encarrega da percussão é o músico convidado Artur Szolc. O fato é que as melodias vocais preciosas e instantes de insanidade contida a tornam bem atraente. Aqui os caras pisam um pouco no freio e a peça funciona como um interlúdio mais calmo que ameaça uma erupção que nunca vem. Ótimo refresco para as paredes sonoras anteriores! 

O clímax do disco vem com "Parasomnia", que abre baseada apenas nos vocais de Duda antes de algumas linhas de baixo características e sintetizadores vultosos entrarem em cena. Riffs pesados seguem enquanto os vocais de Duda tornam-se repentinamente aguerridos. Um pouco após a metade a canção atinge o que considero o seu auge estético, quando surge um solo esplendoroso de guitarra e os vocais cochichados de Duda encorpam o início de uma sessão recheada de mais eletricidade vinda da guitarra e bateria até encerrar nessa pegada mais intensa.  

Parte Two – Fearland 
"Through The Other Side" leva o álbum para aquela dimensão mais acústica do Riverside, segue calcada num violão dedilhado e vocais quase sussurrados e reflexivos de Duda. Alguns sintetizadores acrescentam uma tonalidade espacial até que a canção se encerra ao som do vento.  

"Embryonic" é outra faixa lenta e acústica que mostra muita coisa que a banda faria depois. Aqui os vocais ganham ainda mais emotividade e delicadeza. Nessa primeira metade a faixa se mantém bem celestial até que os vocais e a guitarra sobem e constroem uma segunda parte mais briosa. Destaque para Duda cantando de forma comovente e para a guitarra maravilhosa de Grudzinski fazendo um fechamento lindo 

"Cybernetic Pillow" começa com o pé armado para derrubar a porta. Tem uma introdução bem pesada em cima de um riff musculoso, baixo groove e bateria vigorosa. O órgão de Lapaj faz um fundo quebrado, meio descontínuo, mas quando aparece deixa tudo um tanto assombroso. Grudzinski então assume o protagonismo e sola magistralmente enquanto o baixo lateja sem dó nem piedade. Um exemplar empolgante de rock progressivo com um pezinho (ou seria pezão??) no metal! 

"Ultimate Trip" é um show do começo ao fim, uma bateria estrepitosa surge na intro até que a guitarra se junta e toma para si o jogo, logo seguida pelos vocais de Duda. Há muitas mudanças de andamento e detalhes interessantes acontecendo o tempo todo, a exemplo da guitarra chiando logo após os três minutos e meio, ou mesmo o som edificante próximo da marca dos seis minutos emendado por uma sessão mais pesada. A música vai evoluindo e mostrando facetas novas, com instantes de certa calmaria, passagens de guitarras atmosféricas, vocalizações introspectivas, baixão groove, entre outras. Na reta final, bem próximo aos doze minutos, o caldo engrossa de vez com o hammond de Lapaj também entrando na festa. 

Como confessei logo no início desta análise, "Rapid Eye Movement" está longe de ser o canto do cisne do Riverside, mas o saldo final é bastante positivo. Inclusive, ressaltei mais de uma vez quando analisei outras obras da banda aqui no 80 Minutos que não há, ao menos na minha humilde opinião, deslizes na discografia dos poloneses. Inquestionavelmente, esses caras nunca se perderam nos labirintos que escolheram como morada para criar seus concertos criativos. Um álbum consistente de rock progressivo, repleto de pegadas de metal e ótimas melodias. 


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3 comentários:

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Márcio Chagas 25/09/2021

Colaborador Sênior

25/09/2021

Adoro todos os álbuns do grupo. Mas considero o primeiro mais especial.

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Expedito Santana 27/09/2021

Colaborador

27/09/2021

Pois é, não há deslizes na discografia do Riverside. A depender do dia, posso ter a minha opção de favorito alterada (kkkkk), mas vai girar entre o Second Lyfe Syndrome, Shrine of New Generation Slaves ou Love Fear and The Time Machine.

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Breno Rubim 29/10/2021

29/10/2021

Muito legal. Considero que bandas de neo-prog como Riverside, Subsignal, RPWL, Lifesigns, Blackfield, etc. são o melhor que eu tenho ouvido ultimamente. Vc conferiu o novo álbum do Lifesigns? Coisa linda de se ouvir. Que outras bandas nesse estilo vc me recomenda conhecer? Já fui mais da vibe "dream-theateana" de músicas longas, virtuose e complexidade, mas hoje estou mais pra esse art-rock prog mais acessível e melódico.

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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Rapid Eye Movement

Álbum disponível na discografia de: Riverside

Ano: 2007

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,75 - 2 votos

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