Resenha

Noites Com Sol

Álbum de Flávio Venturini

1994

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

18/09/2021



MPB, Pop e New Romantic para amolecer o coração até dos mais insensíveis!

Flávio Venturini emergiu como artista nos anos 1970 por intermédio do famoso Clube da Esquina, movimento que envolvia um grupo de músicos, compositores e letristas, surgido na década de 1960 em Belo Horizonte, Minas Gerais, que revelou também o grande Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Wagner Tiso, entre outros. O Clube da Esquina representou uma espécie de vanguarda da música brasileira, cuja sonoridade misturava inovações que bebiam da Bossa Nova, elementos vertidos do jazz e do rock, incluindo música folclórica de tradição mineira, africana, erudita e hispânica. 

Entre 1974 e 1976, Venturini também integrou a banda O Terço antes de criar em 1979 a banda 14 Bis, pela qual fez sucesso entre 1980 e 1989, quando saiu do grupo para seguir carreira solo, também com grande sucesso. Sua carreira solo começa em 1982 com o lançamento do álbum “Nascente”, gravado pela EMI/Odeon. 

“Noites com Sol” é o quarto trabalho de estúdio de Flávio Venturini e, na minha opinião, pode ser considerado um dos seus melhores momentos artísticos. Poucos discos têm uma alcunha tão adequada quanto este, uma vez que, ao escutá-lo, tem-se a sensação, de fato, de estar numa noite iluminada pela incrível estrela calorosa. 

A produção de Torcuato Mariano é muito mais do que irrepreensível, sem falar que o compositor também fez a programação de bateria, os arranjos da maior parte das músicas e tocou guitarra em algumas faixas. Venturini fica livre aqui para apresentar excelentes canções que bebem na MPB, mas que dialogam principalmente com vertentes estilísticas chegadas ao pop e até, pasmem, ao New Romantic.  

As coisas começam muito bem nas asas de “Quando Você Chegou”, que tem bateria programada, guitarra, teclados e arranjos de Torcuato Mariano, com piano e vocal de Venturini. Os versos iniciais parecem óbvios: “Vento, leva a minha voz/ E vê se encontra o meu amor/ Nada faz sentido nesse mundo sem o seu amor(...)”, mas a interpretação sonhadora de Venturini faz toda diferença e o solo de guitarra elétrica de Torcuato no meio da música é uma cereja e tanto no bolo.  

A participação especial e sempre charmosa de Ritchie no vocal da faixa seguinte, “O Que Tem De Ser”, parceria de Flávio com Ronaldo Bastos, abrilhanta muito esse começo do álbum, cujo destaque fica para o esplêndido violão acústico de Torcuato que assume, eventualmente, matizes meio espanholizados.      

Em “Nuvens” Venturini entrega toda sua sensibilidade de intérprete nessa peça que tem uma quedinha eletrônica graças ao sampler de Torcuato. Poesia pura do começo ao fim: “(...) Ondas / Som das ondas / Carruagens pelo mar sem fim / São viagens, são momentos / Que passaram e que não passarão (...)”

“Calor” é uma canção de Bruce Hornsby e John Hornsby, baseada na versão do compositor e instrumentista carioca Mu Chebadi para “Across the River”, que ficou extraordinária. A faixa-título tornou-se um dos maiores sucessos de Venturini, momento de romantismo à flor da pele cantado de forma espetacular por Venturini, que encontra no sax inspiradíssimo de Marcelo Martins e no violão de 12 cordas de Pedro Aznar o sublime em sua face mais radiante. 

Ainda é possível deliciar-se com a sensacional “Clube da Esquina II” de Milton Nascimento e dos irmãos Borges (Lô e Márcio). A propósito, que me perdoe o grande Milton, mas Venturini deixa aqui falsetes magníficos. E o sax de Marcelo Martins pode ser considerado, sem qualquer dúvida, uma das performances mais arrebatadoras de todos os tempos da música popular brasileira. Não dá para ficar indiferente a uma letra dessas: “(...) Porque se chamava homem /Também se chamavam sonhos / E sonhos não envelhecem / Em meio a tantos gases / lacrimogênios / Ficam calmos, calmos, calmos (...)”. A música que mais escutei em 2020!   

Na segunda parte do álbum aparecem outras boas músicas, a exemplo da animada “Um Cupido Me Falou”, da aprazível “Luz Viva”; do bolero “Cabaret da Sereia”, onde a mágica gaita de Rildo Hora deixa tudo colorido; e “Sobre o Mar”, que faz o encerramento perfeito.      

“Noites com Sol” é um daqueles discos que cumpre a proposta de iluminar as noites escuras do ser humano, e, para tanto, conta com uma trupe competentíssima de músicos e o protagonismo vocal de Flávio Venturini, que arquiteta, sorrateiramente, instantes de beleza impagáveis e igualmente calorosos capazes de amolecer o coração até dos mais insensíveis. 

Se quiser chorar, fique à vontade!


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Noites Com Sol

Álbum disponível na discografia de: Flávio Venturini

Ano: 1994

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 1 voto

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