Resenha

Afraid Of Sunlight

Álbum de Marillion

1995

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

14/09/2021



Emotividade, boas letras, excelente instrumentação, arranjos precisos e atmosferas plangentes

Produzido com sobras do magnífico “Brave”, que é, ao menos pra mim, o melhor disco da fase Hogarth, este álbum está longe de ser uma obra-prima na discografia do Marillion, mas não deixa de ter os seus encantos. Trabalha numa órbita meio conceitual, assim como seu antecessor, e os temas líricos aqui giram em torno da questão da fama e das suas inerentes vicissitudes, especialmente o potencial destrutivo do mundo das celebridades.  

Ter sido lançado pouco tempo após Brave talvez tenha gerado uma desvantagem comparativa para “Afraid Of Sunlight”. O fato, porém, é que podem ser encontrados nele alguns bons momentos dessa fantástica banda, que mescla algumas nuances progressivas de outrora a uma verve pop, inquestionavelmente principiada em “Holidays In Eden” de 1991. 

O disco abre com a mediana (inclusive no tamanho) “Gazpacho”, que inicia com o anúncio de uma luta de boxe, aliás, a letra aborda uma dimensão nada interessante da vida do boxeador Mike Tyson, sugado por crises pessoais, tretas com jornalistas... e envolvido até num de caso de violência doméstica com a esposa. A música tem estado de humores bem variados, ora mais alegres ora mais intimistas e reflexivos, chegando ao final numa atmosfera mais nebulosa. Ninguém se destaca muito nesta faixa, há uma linha de baixo interessante de Trewavas eventualmente, umas levadas perspicazes de bateria de Mosley, inserções vocais legais de Hogarth e um solinho razoável de Rothery, mas nada que transforme esta canção em algo extraordinário, a exemplo da genial "Ocean Cloud" de Marbles.  Vejo aqui um padrão Marillion que se repete em muitos discos.  

Confesso que demorei a acostumar com a faixa seguinte, “Cannibal Surf Babe”, e não foram poucas as vezes em que pulei direto para a terceira. Mas, se você der uma chance para ela, pode até começar a curtir o barato. Ela é uma espécie de galhofa com Brian Wilson dos Beach Boys e isso fica bem claro quando Hogarth canta o refrão: “I was born in nineteen-sixty-weird / And I'm your nightmare surfer babe /Mister Wilson, where's your sandbox and your beard?”. Esta música usa alguns sintetizadores meio bobinhos que parecem ter saído de animações de terror para crianças, mas até que entrega linhas de baixo bem agradáveis e uma dinâmica bem particular e não cansativa. como se fosse um cruzamento de U2 (fase “Pop’) e Beach Boys.    

Quando chega “Beautiful”, eu, um amante de baladas inveterado, fico extasiado mesmo já tenho escutado essa música umas quinhentas mil vezes. Na verdade, suas letras não tratam necessariamente do amor romântico e sim da contemplação da beleza do mundo. Uma canção pop de melodia pegajosa que se tornou um dos maiores símbolos da Era Hogarth, sendo para este o que "Kayleigh", do fabuloso “Misplaced Childhood”, foi para Fish.     

“Afraid of Sunrise” tem uma textura acústica muito atraente que conquista desde o primeiro acorde. Às vezes fica meio esquecida, mas garanto que há muito o que apreciar nesta peça. Hogarth vai muito bem e consegue imprimir toda sua polidez e maciez vocais. 

Sem qualquer receio afirmo que é em “Out of This World” onde o álbum atinge o seu clímax majestoso. Uma faixa simplesmente emocional do começo ao fim que fala da vida de Donald Campbell, um piloto britânico de velocidade na estrada e na água que bateu vários recordes mundiais nas décadas de 50 e 60, mas que lamentavelmente faleceu quando tentava quebrar mais uma marca. Minha mulher não gosta de me ver escutando esta música, pois diz que é muito triste. E, sem sombra de dúvida, ela tem razão, já que “Out of This World” é como um túnel escuro inundado de aflição. Começa com algumas teclas mais graves de matiz dramático acompanhados por licks de guitarra passionais de Mr. Rothery e bateria lenta, com os vocais sensíveis e irrepreensíveis de Hogarth criando uma atmosfera de lamentação absolutamente linda. Logo após cerca de 2 minutos, Rothery quebra o clima através de um solo maravilhoso e depois aparece então uma seção que considero uma das bonitas de todos os tempos da banda, calcada nos teclados espetaculares de Mark Kelly e no timbre aveludado de Hogarth cantando dolorosamente versos memoráveis: “(...) What did she say? / I know the pain of too much tenderness / Wondering when or if you'll come back again / Wanting to live for you / And being banned from giving / But only love will turn you round / Only love will turn you round /Only love /Only love will turn you round (...)”. A parte final é meio etérea e segue conduzida por sons sintetizados e uma voz resignada de Hogarth. Perfeição melódica! Uma das melhores músicas da banda e presença garantida em todas as minhas playlists de soft rock. 

A faixa-título retoma a linha instrumental de “Afraid of Sunrise”, e suas letras e refrão são praticamente idênticos, porém, confesso que agrada mais rapidamente que a sua irmã gêmea, provavelmente pela maior incisividade elétrica. Entra naquela categoria de balada-rock agitada bem ao estilo de "Sounds That Can't Be Made" (música).  Hogarth mais uma vez não decepciona e "nada de braçadas", mas o maior destaque fica para os teclados de Mark Kelly emulando a melodia vocal. Embora sinta um pouco da guitarra de Rothery, há um solo intenso e curto próximo ao final que dá uma compensada. 

A penúltima faixa é uma grata surpresa, “Beyond You” tem uma vocação claramente romântica que não deixa o bom nível de qualidade do disco cair. Ótima para ouvir naquele final de noite e pensar um pouco na vida. Falar da onipresença de Hogarth já é uma redundância, mas fica o registro também de notas sutis e bonitas de Kelly e bom trabalho percussivo.  

O adeus vem com o impressionante hard rock de “King”, cujas letras fazem referência indireta a Kurt Cobain, Elvis Presley e Michael Jackson. Começa com licks cáusticos, mas repentinamente se acalma para logo adiante lançar riffs musculosos novamente, com direito a solo arrasa-quarteirão de Rothery. A canção fica nessa vibe oscilando entre um temperamento forte e a brandura, por vezes alicerçada nos teclados de Kelly, na bateria e na variação vocal de Hogarth. O final abrupto é a cereja no bolo. 

Não resta dúvida de que “Afraid of Sunlight” é um álbum bem consistente do Marillion. Há nele tudo que um fã de música pode querer: emotividade, boas letras, excelente instrumentação, arranjos precisos e atmosferas plangentes. Desta forma, sobram motivos para não ficar preso exclusivamente aos discos mais aclamados da banda.


Nota: As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor



Comentários

Faça login para comentar

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.

Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito, aberto e democrático para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.


2 comentários:

user

André Luiz Paiz 14/09/2021

Webmaster

14/09/2021

Nossa, ouvi muito esse disco. Concordo sobre o "Brave", pra mim imbatível na fase Hogarth. Mas é um Marillion diferente, começando a mudar seu som e tem coisas interessantes. “Gazpacho” é show.

user

Expedito Santana 14/09/2021

Colaborador

14/09/2021

Com certeza, André. Às vezes ficamos entretidos com os discos mais clássicos e esquecemos de outras coisas boas que a banda fez. Um abraço!

Faça login para comentar



Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

Veja mais algumas de suas publicações:

  • Image

    ResenhaSylvan - Sceneries (2011)

    25/03/2021

  • Image

    ResenhaNirvana - In Utero (1993)

    10/10/2020

  • Image

    ResenhaThe Soft Machine - Softs (1976)

    19/11/2020

  • Image

    ResenhaRoxy Music - Country Life (1974)

    08/07/2021

  • Image

    ResenhaFaith No More - Angel Dust (1992)

    17/10/2020

  • Image

    ResenhaDead Kennedys - Fresh Fruit For Rotting Vegetables (1980)

    01/02/2021

  • Image

    ResenhaMarillion - Somewhere Else (2007)

    27/02/2021

  • Image

    ResenhaAirbag - All Rights Removed (2011)

    12/04/2021

  • Image

    ResenhaSylvan - One To Zero (2021)

    17/08/2021

  • Image

    ResenhaCaravan - Live At Fairfeild Hall, 1974 (2002)

    21/11/2020

Visitar a página completa de Expedito Santana



Sobre o álbum

Afraid Of Sunlight

Álbum disponível na discografia de: Marillion

Ano: 1995

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,38 - 4 votos

Avalie

você conhece esse álbum? Que tal dar a sua nota?

Faça login para avaliar

Visitar a página completa de Afraid Of Sunlight



Continue Navegando

Através do menu, busque por álbums, livros, séries/filmes, artistas, resenhas, artigos e entrevistas.

Veja as categorias, os nossos parceiros e acesse a área de ajuda para saber mais sobre como se tornar um colaborador voluntário do 80 Minutos.

Busque por conteúdo também na busca avançada.