Resenha

Fragile

Álbum de Yes

1971

CD/LP

Por: Marcel Dio

Colaborador Sênior

14/09/2021



Sinônimo de rock progressivo

Fragile, ah Fragile! Minha primeira comunhão com o rock progressivo. Exato! Lembro quando ouvi e fiquei fascinado que existisse um "mundo" assim nos anos setenta, a qual foi me desvelado somente aos catorze anos.
Sobre a eterna discussão se é ou não o melhor disco do Yes, trata-se de mera questão de gosto ou memória afetiva, quase sempre competindo com Close to the Edge a saber quem fica com o trono.
Explico porque minha escolha recaí sobre Fragile, ante ao "adversário da capa verde" - simplesmente por ter mais canções, ser fragmentado e variado em todos os sentidos. 
O que remete mais força ao lançamento é a estreia de Rick Wakeman, e o fato de que os caminhos a serem traçados estavam amadurecidos desde o antecessor. Com Fragile o Yes consegue abraçar o globo e mostrar do que cinco gênios eram capazes, num tempo em que a liberdade criativa não eram tão restringidas por gravadoras e rádios, por isso a profusão progressiva na década da música e seu definhar na beirada dos anos oitenta.

Roundabout pode ser considerada um hit, mesmo duvidando do interesse quanto a isso, primeiro cumpria-se, e se vingasse, era lucro. Hoje músicos ou celebridades de laboratórios perdem-se no contrário, querendo criar algo milimetricamente conduzido para o sucesso, independente de valores artísticos, por sinal, duvidosos. É a carroça literalmente puxando os cavalos.
Jon Anderson criou Roundabout enquanto dirigia por Aberdeen até Glasgow (ambas cidades da Escócia). Como tinham muitas praças circulares ou rotatórias nesses lugares, logo o tema veio sobre a mente de Jon, que a compôs no violão.
Ainda sobre a faixa, o apreço dos baixistas é imediato ao ouvir o timbre dos sonhos, um trovão de graves do saudoso Chris Squire cortando toda sua estrutura.
Atualmente os fãs cansaram um pouco desta, são inúmeros shows em que o Yes correria riscos se ousassem não inclui-la em seu set list. Tocada também no Rock and Roll Hall of Fame, na interessante passagem em que Steve Howe pede que a parte do interlúdio nos harmônicos e solo de violão fossem executadas por Trevor Rabin. Como Trevor fez que não era com ele, Steve Howe tocou-a no violão colocado ao suporte, cometendo um errinho e desenrolando ou maquiando com a categoria de sempre. Perdoável pelo tempo de ensaio obtido, mesmo que muitos imaginem que ao ser tocada por anos a fio, poderia ser jogada no "piloto automático". 
Lembrando que Geddy Lee (Rush) fez a função do finado Chris Squire em Roundabout. Também representando a banda na abertura, juntamente com Alex Lifeson - no controverso e já citado Hall of Fame. 

Cans and Brahms foi extraída da quarta sinfonia in E minor, no terceiro movimento por Johannes Brahms. Feita num arranjo sublime de Rick Wackeman. Digamos que sejam apenas "vinhetas", assim com a seguinte We Have Heaven, onde ouvimos Jon Anderson cantando em vozes sobrepostas. Um pouco estranha e confusa, é verdade. 

South Side of the Sky tende passar batida, passou por mim também. Juro que fazia questão de pular o play quando chegava. Com o amadurecimento percebi que era tão plena quanto qualquer outra. E a obra prima começa justamente na pausa dos vocais. Mais uma vez Rick Wakeman prova que sua chegada daria a nobreza de um rei ao Yes.
As notas tiradas do piano é o manjar dos deuses. Primeiro entrando num solo erudito que desenvolve-se rápido e após a curta pausa é resolvida num acorde tenso ao extremo. Feito a primeira etapa, Rick usa notas mais agudas, oferecendo uma calmaria notável. Com isso a banda vai entrando aos poucos e as frases de piano continuam até o momento oportuno para a volta do mesmo tema, também o retorno da parte inicial com vocais adicionados ao solo de Howe, partindo assim ao fade out.

Five per Cent for Nothing é tão estranha e quebrada quanto qualquer loucura composta por King Crimson. Um curto trecho em que a genialidade de Bill Bruford e Chris, correm solta. Ainda com um tempo indecifrável para esse que digita. 
O momento Chis Squire vem logo em seguida com 

Long Distance Runaround, ao qual o volume do baixo e a categoria do baixista sobressaem até a entrada dos vocais. A faixa fica mais cravada em pausas e ligados de baixo e guitarra competindo pela mesma melodia. Apesar da competência do Yes, não é tão complexa. Emendando-se com The Fish (Schindleria Praematurus) onde o baixista abre com harmônicos naturais e vai acrescentando notas por cima. Tivesse os tais pedais de looping, Chris brincaria com a mesma nos palcos. Assim usou-a por muito tempo a fins de solos, bancando o medley com Tempus Fugit, On the Silent Wings of Freedom e outras peças itinerantes ao passar do tempo.

Como Fragile tem espaço para cada membro mostrar suas habilidades, a vez de Steve Howe vem com Mood For a Day. Obra de violão unindo o clássico e o flamenco de forma primorosa. Atente-se ao arsenal de guitarras e violões na capa interna do CD ou disco, de chorar a coleção do cara !.

O desfecho com a longa Heart Of The Sunrise não poderia ser melhor. Observando de imediato o inicio com a aula de sincronia entre a seção rítmica de frases rápidas e complexas. 
É de atordoar o que o Yes comete em Heart of the Sunrise, nos caminhos que entram na cadencia e evidenciam-se nos detalhes. Ao final, a "correria" inicial volta com um instante de contraponto nos pianos para arrematar com um bis de "We Have Heaven", de letra um tanto mística ou maluca, a qual o título traduzia : "Nós Temos o Céu". De fato tinham mesmo, eram um dos reis do pedaço no disputado terreno de 1971. 

Fragile merecia seis estrelas, uma para cada membro e outra pelo conjunto da obra. Como o site não permite, o que vale é a intenção.
Fez parte de minha modesta e limitada formação musical, faz parte da vida de muitos e entra no meu top dez dos melhores de todos os tempos. 


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2 comentários:

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André Luiz Paiz 14/09/2021

Webmaster

14/09/2021

O melhor do Yes pra mim. Ouvi trocentas vezes e nunca me cansei.

user

Marcel Dio 14/09/2021

Colaborador Sênior

14/09/2021

Também acho amigo. Ei, estamos virando freguês do Flamingo, ta complicado perder pra eles kkkkkk.

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Sobre Marcel Dio

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Sobre o álbum

Fragile

Álbum disponível na discografia de: Yes

Ano: 1971

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,85 - 20 votos

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