Resenha

21

Álbum de Adele

2011

CD/LP

Por: Roberto Rillo Bíscaro

Colaborador Especialista

08/09/2021



A Menina Madura de 21

No finalzinho dos 00’s, a inglesa Adele era proclamada “a próxima Amy Winehouse” devido a certa similaridade vocal e nas influências e resultados em algumas faixas. Em 2008, Adele lançou 19 e provou que possuia personalidade própria, apesar das semelhanças. Desde então, ela estourou: papou Grammys e comeu bela fatia do cobiçado mercado norte-americano. Difícil para artista estrangeiro fazer isso. 

Quando saiu 21, havia muita expectativa, porque sua missão era repetir a boa vendagem de 19 e consolidar a moça no mercado. Aos 21 anos (seus álbuns têm por título sua idade à época do lançamento), Adele já provara sua maturidade como compositora e voltou com álbum que, se não investe em territórios inventivos, oferece arranjos suntuosos, produção esmerada, vocais soberbos e algumas das melhores baladas deste século. A tentativa de não perder público e abocanhar mais através de produção quadradinha deu certo. O álbum chefiou paradas ao redor do globo.

Rolling in the Deep foi o primeiro single e é espantoso. A melodia com percussão bem marcada tem influência de rock e soul, mas também traz discreta marca d’água disco, nos backing vocals e no refrão. Rumour Has It é rock, meio Robert Palmer. A letra é sobre desencanto amoroso. Adele deve ter quebrado a cara entre 19 e 21. Sinto por ela, mas, se minha teoria for verdadeira, quem saiu ganhando fomos nós. Ou, antes, os fãs de baladas. São dramáticas, grandiloquentes, sentidas. A voz da inglesa sobe, desce, engrossa, afina. Ela é impressionante. Algumas dessas canções trazem certo acento country, que a cantora conheceu melhor durante a turnê pelos EUA.

Turning Tables é mistura de piano e orquestração com emoção tão pungente digna dos melhores momentos de Tori Amos, mas com a marca Adele e seus malabarismos vocais. Se beleza em excesso dói, é o caso dessa canção. Don’t Your Remember tem violão e orquestração, e, se não é tão criativa, chega ao zênite devido à interpretação vinda das entranhas. Set Fire to the Rain é drama desde o título. He Won’t Go tem inflexão meio fim dos anos 70 no refrão, ao mesmo tempo que é predominantemente informada por urban soul; cairia bem num álbum de Chrisette Michelle, por exemplo. 

O ponto alto dentre as lentas é Someone Like You, com a letra e a interpretação mais doídas do álbum. É sobre uma moça que ainda ama o cara, que já está com outra, mas ela o adora tanto que aparece na casa dele pra desejar-lhe o melhor e dizer-lhe que encontrará alguém como ele. A letra simples esconde o complexo da situação, imaginem a situação do sujeito e da moça com o coração partido. Apenas piano acompanha a modulada voz de Adele; só essa faixa já valeria o álbum. Aposta-se que essa canção vire standard. Merece.

Em um disco pautado pela produção conservadora, o sabor de novidade vai para Lovesong, do The Cure, em clima de bossa nova. Os franceses do Nouvelle Vague já haviam gravado A Forest, do grupo de Robert Smith, na batida brasileira da bossa. Houve crítico inglês deslumbrado pela “inovação” de Adele, mas ela não descobriu esse caminho para as Índias. Não importa. Lovesong funciona bem como sambinha.

Há uma canção dos Cranberries, chamada 21, onde Dolores O’Riordan reclama que alguém tirou seus pensamentos e agora ela não deseja nada mais. O clima de dor de amor de 21 de Adele tem parentesco com a letra do grupo irlandês, mas difere em algo crucial. A menina inglesa voltou cheia de pensamentos e desejos, traduzidos em um álbum com um punhado de boas canções e uma obra-prima.


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Sobre o álbum

21

Álbum disponível na discografia de: Adele

Ano: 2011

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 3 votos

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