Resenha

Surrender Of Silence

Álbum de Steve Hackett

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

06/09/2021



Novamente, uma ótima e criativa conexão de Mr Hackett com músicos de lugares distantes

Em janeiro de 2021, Steve Hackett já havia lançado o seu disco acústico de sonoridade clássica, Under A Mediterranean – o primeiro nesses moldes desde Tribute de 2008 -, sendo que só isso já seria o bastante para que o incansável guitarrista deixasse uma marca positiva no ano, mas como se isso não bastasse, eis que surge Surrender Of Silence, sendo esse agora na companhia de uma banda completa. Agora a música é mais explosiva, por meio dos solos de guitarra sempre emocionantes, arranjos deslumbrantes e belas composições. 

O guitarrista nunca havia lançado dois álbuns de estúdio no mesmo ano, algo que nos faz crer que a escassez de shows em que o mundo vive atualmente fez com que Hackett se ocupasse bastante dentro do estúdio. Como já vem acontecendo a alguns anos, o que temos aqui é uma exploração do amor de Hackett pela world music , descobrindo diferentes sons, humores e texturas para entregar um álbum de rock de variedade extraordinária, além de muito poder e beleza.   

“The Obliterati”, com pouco mais de dois minutos, é a peça que inicia o disco. Começa por meio de alguns exercícios de guitarra sobre uma orquestração, sendo intensificado em seguida por batidas trovejantes de bateria e alguns solos característicos que marcam o estilo de Hackett. “Natalia” é uma música que a princípio não entendi muito bem, achando-a meio deslocada dentro do disco, mas algumas audições depois fui mudando isso. Novamente possui uma orquestração muito forte, além de coros operísticos, percussão que parece ter sido tirada de tribos indianas e uma guitarra muito melodiosa.  

“Relaxation Music For Sharks (Featuring Feeding Frenzy)” é uma faixa instrumental sensacional. Começa de forma silenciosa usando os ecos deixados pela peça anterior. Primeiramente a música oferece uma orquestração efervescente antes que toda a banda entre por completo e entregue ao ouvinte uma peça cheia de fúria. Nick D'Virgilio é o músico aqui responsável pela melhor bateria do álbum. Hackett também bombardeia nossos ouvidos com ataques furiosas na guitarra. “Wingbeats” possui algumas passagens épicas. É possível notar uns acenos ao coral de Ladysmith Black Mambazo. Durga e Lorlei McBroom também brilham por meio de suas vocalizações que criam excelentes atmosferas e transportam o ouvinte para o coração da África. Porém, o disco parece um pouco sombrio para uma música desse tipo.  

“The Devil's Cathedral” começa com algumas linhas de saxofone e notas de um órgão de igreja que criam uma atmosfera bastante sombria à peça. Um tipo de música que poderia ter sido escrita por Roine Stolt, ao mesmo tempo que captura muito bem a força e o estilo dramático da guitarra de Hackett. Mais uma vez, a orquestração de fundo edifica a música. “Held In The Shadows” é um dos momentos do disco em que mais conseguimos perceber Hackett soando como em seus trabalhos mais recentes. Os versos são cantados de uma maneira muito forte, belíssimas harmonias vocais, guitarras que flutuam livremente, mas nunca perdendo a direção, além de ótima orquestração. Eis uma combinação incrível e que é a cara do guitarrista.  

“Shanghai To Samarkand” é mais um dos momentos em que é possível perceber a incursão da world music, algo que se tornou marca registrada de Hackett nos últimos tempos, uma paixão que tem levado o guitarrista a resultados mistos. Uma música com um rico cruzamento de culturas que incorpora inclusive instrumentos diferente, como tar e dutar, trazidos por Malik Mansurov e Ubaidulloev Sodirkhon Saydulloevich, respectivamente, possui mais de oito minutos e trata-se da mais longa do disco, além também da minha preferida. Hackett brilha tanto de forma acústica quanto elétrica, enquanto a orquestração e seus convidados fazem com que viajemos lugares diversos do mundo.  

“Fox's Tango” é a outra faixa do disco em que a bateria conta com a presença de Nick D'Virgilio, o que significa que o instrumento vai soar mais uma vez muito enérgico. O vocal é bastante cru e a performance estrondosa de Hackett é uma das suas melhores nos últimos tempos. Vale ressaltar também as linhas ferozes do baixo. “Day Of The Dead” pode ser dividida entre a primeira metade um pouco fraca e a outra muito mais divertida e interessante. O solo de guitarra mais uma vez consegue colocar turbulência na música.  

“Scorched Earth” é um grande lamento pelos tempos obscuros em que o nosso planeta passa no âmbito ambiental. O dueto vocal entre Hackett e Amanda Lehmann é belíssimo, bem reforçado pelo trabalho de guitarra que é muito condizente com a narrativa por meio de solos pontuais que colocam a cor nublada necessária na peça. “Esperanza”, com pouco mais de um minuto, encerra o disco por meio de um violão clássico sobre um tapete orquestral. 

Mesmo com 70 anos e dono de uma carreira em que não precisa provar mais nada pra ninguém, Hackett prefere não se acomodar e continua impressionando com a sua dedicação, deixando cada vez mais claro que nunca passou pela sua cabeça querer ser visto apenas como um dinossauro do rock progressivo. Novamente, uma ótima e criativa conexão de Mr Hackett com músicos de lugares distantes.  


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Surrender Of Silence

Álbum disponível na discografia de: Steve Hackett

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 1 voto

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