Resenha

5.20

Álbum de Nine Skies

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

01/09/2021



Complexo, desafiador e belíssimo, além de muito poético e de temas comuns que permeiam todo o álbum

A banda francesa, Nine Skies, por meio do seu mais novo disco, 5.20, entregou até o momento o seu mais delicado, introspectivo e profundo álbum, consequentemente, pra mim, também o melhor deles. O caminho musical de todo o disco é de uma sonoridade extremamente sutil, rica e melancólica, onde a base principal é feita por meio de piano e violão, podendo fazer com que o ouvinte lembre um pouco dos momentos mais calmos do Genesis 70’s, mas outros instrumentos também complementam muito bem a música. 

Por se tratar de um disco quase completamente acústico, a princípio pode parecer que sua música vai ser mais simples, mas não é bem por aí, em 5.20 existe uma grande complexidade e riqueza sendo entregue por meio de camadas vocais e instrumentais muito bem construídas. Violão e piano estão sempre andando de forma entrelaçada, por vezes unidos a cordas, flauta, saxofone, violino, além de baixo e percussão que formam uma excelente seção rítmica. Ao mesmo tempo que o disco transmite uma sensação de tristeza e produz linhas sombrias, também consegue passar uma percepção esperançosa e edificante. Não se trata de um disco fácil, sendo que prestar bastante atenção é algo fundamental, mas não se preocupe, pois o “esforço” em entrar nele de cabeça é muito bem recompensado. Mesmo que não seja de uma maneira explícita, este é mais um caso em que a sombra da pandemia parece ter sido uma das inspirações para a construção do álbum, sua exploração de vários sentimentos como morte, fé, luta, sofrimento e esperança são apenas um dos exemplos disso.  

“Colourblind” é a faixa de abertura. Um violão suave dita o início, ambientando a música na companhia somente de algumas notas de baixo ao fundo, até que as vozes profundas de Aliénor Favier e Achraf El Asraoui também entram em ação. A peça vai sendo construída de uma forma bastante rica, seção rítmica acalentadora, violino, piano, violoncelo, além de um momento de saxofone jazzístico. Um aperitivo muito agradável. “Wilderness”, antes de falar qualquer coisa sobre a música, vale ressaltar que conta com a participação de Steve Hackett. Considero esta faixa a mais melódica e acessível - mesmo tendo letras sombrias e emotivas. Os vocais novamente trabalham em dupla maravilhosamente bem. Possui alguns belos ritmos ao melhor estilo Genesis, além de um final maravilhoso de ar intimista e melancólico feito por Mr. Hackett e a sua guitarra elétrica inconfundível.  

“Beauty Of Decay” é a peça mais curta do disco com pouco mais de dois minutos. Belíssima, onde um violão clássico é tocado de forma introspectiva. “Golden Drops”, um violão sinistro é logo seguindo pela percussão que dita o ritmo. Os vocais parecem estar fazendo uma oração e novamente acrescentam um toque especial a peça. Possui uma “batalha” encantadora e sombria entre os instrumentos de corda, além de atmosfera árabe. “Above The Tide” começa com algumas notas de piano e cordas. É possível perceber um pouco de Moody Blues aqui. Vocais em camadas e cordas sinfônicas que parecem estar sempre em uma crescente soam de forma mágica. A música silencia próximo do fim, onde somente violão e violino direciona a faixa para o seu fim definitivo por meio de algumas notas sombrias.  

“Dear Mind” é mais uma peça instrumental do disco. O trabalho de violão aqui tem uma sonoridade mais melancólica do que em “Beauty Of Decay”. A leveza do piano ao fundo dando alguns toques bucólicos e o acréscimo de strings ajudam a música a ganhar um maior poder sinfônico. Um tipo de som que poderia durar uma hora, pois seria uma maravilha de ouvir enquanto meditamos. “The Old Man In The Snow” tem como convidado, John Hackett na flauta. Traz inicialmente um violão folk, seguindo novamente de alguns vocais sublimes e uma percussão. A maneira como são construídas as melodias de violão são incríveis. Mais momentos sinfônicos cobrem a música de leveza, mas o destaque maior fica por conta da flauta de Hackett que deixa a peça com um final grandioso.  

“Godless Land”, inicia-se por meio de um piano dark e reflexivo, até que violões e os vocais celestiais de Achraf El Asraoui cortam a música, cheio de sentimento enquanto canta sobre perder a fé contra tudo, novamente sendo um reflexo da pandemia. Há espaço para um momento de pequena valsa que contribui muito bem para a atmosfera geral da peça em que os instrumentos parecem dançar suavemente. “Porcelain Hill” tem com convidado, Damian Wilson. Os vocais de Damian estão excepcionais e bastante expressivos, conseguindo passar perfeitamente todo o cansaço e melancolia que as letras pedem. Primeiramente, tem como companhia apenas o piano, mas que logo é seguido de algumas linhas suaves de corda. Sem dúvida, possui o refrão mais memorável do disco. A melodia em crescente dentro de uma atmosfera serena e nostálgica, vai se intensificando cada vez mais até silenciar repentinamente e encerrar um dos momentos mais belos do disco.  

 “Achristas” é a terceira e última entre as peças instrumentais do disco. Um piano solo sombrio e arrepiante, porém, também bastante contemplativo é o que marca esse momento do disco. Bastante intimista e de aura entre o perturbador e pacífico. “Smiling Stars”, após uma breve introdução de piano, uma voz trena e fúnebre vai liderando a faixa cantando sobre um luto e perda pessoal. A instrumentação acústica unida a algumas pinceladas de saxofone – que mais próximo do fim cresce na música - é brilhante, assim como os vocais em camadas. Um final extremamente belo para um disco forte.  

Ainda que não seja um disco conceitual, 5.20 é muito poético e de temas comuns que permeiam todo o álbum. Complexo, desafiador e belíssimo, onde mesmo trazendo letras e atmosferas que ilustram bem a dor e desespero em que o mundo passa, não deixa de entregar também algumas visões mais edificantes que faz com que enxerguemos motivos para continuar. Se você gosta apenas da música progressiva cheia de pompa, tecnicismo extremo e todos os ditames já conhecido no gênero, provavelmente este disco não é pra você, mas mesmo assim, eu ainda o aconselho ouvi-lo pelo menos três vezes antes de chegar a um veredito, pois a sua sonoridade profunda pode surpreende-lo.  


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

5.20

Álbum disponível na discografia de: Nine Skies

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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