Resenha

Beautiful Bedlam

Álbum de Beautiful Bedlam

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

29/08/2021



Um verdadeiro combo de variedade de rock progressivo autêntico junto de linhas musicais mais pesadas e jazzísticas

Eu sempre fico muito feliz quando me deparo com uma novidade da música progressiva, mas não novidade de ser uma banda que já tem uma carreira e eu conheci só agora, mas novidade no sentido de ser uma banda que ainda está nos seus primeiros passos. Fico mais feliz ainda quando vejo já em seu disco de estreia algo tão promissor. Em se tratando da Austrália, também é interessante o fato de não ser uma banda de metal progressivo, já que este é o gênero da música progressiva mais bem sucedido naquele país nos últimos pelo menos dez anos, onde bandas como Caligula’s Horse, Hemina e Voyager são a prova viva disso.  

A miscelânia musical da banda é um verdadeiro combo de alternância de rock progressivo autêntico, linhas musicais mais pesadas e jazzísticas, além de uma verdadeira infinidade de subidas e descidas que acabam fazendo com que o disco soe de forma variável e palatável a um grande número diferente de ouvintes de progressivo, pois a sua construção sonora é simplesmente brilhante. Mesmo que em muitos casos seja possível notar em sua música algo familiar, ainda assim nota-se que tudo é feito de forma original.  

“Flaking Paint”, se você não faz ideia do que esperar do disco, eis que ele começa com uma música que consegue dar uma boa ideia disso. Um clima jazzístico é interrompido por uma explosão que mesmo tentando incorporar peso, ainda sim soa de certa forma suave. Apesar de complexa, até ouvintes menos doutrinados na música progressiva podem ser deliciar com isso. Algumas linhas de sintetizadores acrescentam um clima de mistério. “Breather”, Xen Havales é a vocalista convidada para essa faixa. Ao mesmo tempo em que sua voz é arejada, também consegue soar densa, sempre dentro de uma beleza incrível. A linha musical no começo segue o curso do jazz-rock, sendo mais a frente interrompida por rajadas instrumentais pesadas – mas não o suficiente para ser considerados heavy metal. Algumas harmonias vocais também pincelam a peça com muita sutileza e elegância. 

 “Life, Death & Cheers (+ Slow Creepin')” direciona o disco para uma sonoridade bastante feliz – exceto por um toque de peso na guitarra em alguns momentos – dentro de uma linha pop encantadora. A influência jazzística continua sendo perceptível, mas agora se apresentando de uma maneira mais suave. “Two Thirds” se comparada com a faixa anterior, leva o disco para uma linha bem mais sombria. Os acordes iniciais são de extremo bom gosto, onde logo ganham a companhia do restante da banda e dos vocais – que eu não sei dizer se são de James ou Ross. Ainda que a faixa possua uma aura alternativa, em momento algum ela deixa a chama do progressivo se apagar, principalmente em relação as mudanças de acordes que nem sempre acontecem onde o ouvinte espera. O disco segue com a sua qualidade nas alturas.  

“Cocktail Crime Scene” o clima jazz continua, o uso em camada de instrumentos como órgão, xilofone, piano, harpa e marimba é um dos grandes atrativos aqui. Baixo, bateria e guitarra elétrica também brilham nos momentos mais efusivos da peça. Uma faixa instrumental bastante dinâmica com pitadas de música de vanguarda e de paisagem sonora incrível. “Black World” tem um começo bastante obscuro. Os vocais do convidado Paul Cooper cantam em um tom de mistério e até mesmo sinistro. Novamente o rock alternativo de garagem se faz presente, mas junto dele também são incrementados sintetizadores estranhos, direcionando a música para um rock quase espacial. Essa música é um dos exemplos mais claros do porquê essa banda ser tão incrível, a quantidades de caminhos diferentes que ela leva o ouvinte em menos de cinco minutos é impressionante.  

“Open World (+ Apparitions)” tem um começo que se nota uma leve semelhança com algo que o The Police faria. Ela então vai revezando entre vocais por cima de algumas cadencias instrumentais e momentos mais enérgicos de riffs de guitarras fortes e um fundo meio sinfônico em determinados momentos. “I Adore” começa com alguns acordes de guitarra que não me pegaram inicialmente, mas depois ficaram passeando pela minha cabeça por horas. Markus Saastamoinen é o vocalista dessa vez, novamente a música entrega algo que varia entre linhas mais harmoniosas e outras mais pesadas. Daquele tipo de música que vai crescendo no ouvinte a cada audição.  

“Dog's Breakfast” é aquele tipo de música que nos cria uma expectativa de que algo estar por vir, porém, nunca vem. Isso pode fazer com que essa seja uma parte negativa do disco? Não, tudo continua perfeito. Alguns momentos falados e meio estranhos são os únicos “vocais” da música. “Sweet Oblivion” tem o começa por meio de um riff de hard rock seguido de uma batida encorpada que remete um pouco ao rock e o heavy clássico dos anos setenta. A voz convidada agora é de Richard Jeffrey e que entrega um resultado bastante dinâmico. Mesmo não possuindo exatamente nada de especial ou inovador, a peça tem os seus encantos como um bom solo de teclado e passagens mais suaves em meio a seções pesadas.  

“Silent to the End” começa de uma maneira que no fim das contas acaba enganando o ouvinte, pois os vocais de Michael Minehan a princípio soam bastante limpos, mas de repente eles cortam a canção com uma voz explosiva de death metal, se revezando nessas duas formas o tempo inteiro. Eu particularmente gosto dos momentos mais pesados. “Pigment”, quando estamos diante de um álbum de rock progressivo e falamos que o melhor estava guardado para o final, no geral imaginamos que a banda deixou um épico para que seja o encerramento do disco, mas nesse caso a Beautiful Bedlam não precisou nem de cinco minutos.  Uns vocais rosnados de Matt Belleville e algumas notas sombrias de piano dão o início. Sem dúvida é a faixa mais pesada do disco, novamente com a inclusão de vocais de metal extremo, mas agora ele acontece de maneira mais linear, mantendo tudo em alta voltagem do começo ao fim, porém, a música ainda tem tempo de entrar e sair de alguns estilos diferentes, sempre muito bem cadenciada e coerente. Um final de disco simplesmente perfeito, muito climático e explosivo.  

Dando uma leve pesquisada, consegui achar a resposta da minha dúvida em relação ao número excessivo de vocalistas convidados, como isso ficaria nos shows da banda, mas a ideia da banda é justamente juntá-los também nos seus concertos, além de alguns deles serem efetivados no grupo. Musicalmente o que temos aqui? Linhas de baixo pulsante, teclas bastante diversificadas e criativas, as guitarras no geral são simples, mas fazem exatamente o necessário, a bateria se apresenta bem entre momentos de mais vigor e outros em que ela apenas completa a paisagem sonora, por último, os inúmeros vocalistas soam maravilhosamente bem, cada um da sua maneira. Resumindo, uma coleção incrível de doze peças que mostra uma banda jovem e de um potencial absurdo entregando um dos melhores discos de progressivo de 2021.  


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Beautiful Bedlam

Álbum disponível na discografia de: Beautiful Bedlam

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

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