Resenha

If Two Worlds Kiss

Álbum de Pink Turns Blue

1987

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

27/08/2021



Uma fascinante jornada dark pós-punk

O Pink Turns Blue é uma dessas bandas meio esquecidas da década de 80, graças, a meu ver, ao fato de ser originária de uma cena fora dos centros tradicionais (EUA/Inglaterra). O grupo alemão nasceu em Colônia e começou efetivamente em 1985 como um projeto de Mic Jogwer (vocal e guitarra), Thomas Elbern (guitarra e vocal de apoio) e Marcus Giltjes (bateria), apostando numa linha sonora que transitava entre o pós-punk e o gothic rock. Em junho de 1987, Mic Jogwer deixou o baixo pela guitarra e Ruebi Walter, que se juntou à banda em 1986 como tecladista, assumiu as quatro cordas. E seria justamente a formação que gravaria este debute. 

A banda chegou a parar em 1994, mas em 2004 eles foram convidados para um show de reunião no Wave-Gotik-Treffen em Leipzig, Alemanha. Então, naquele ano, eles lançaram uma coletânea intitulada sugestivamente Re-Union, tocaram em dois festivais e num show em clube com a formação original, eventos estes que, de certa forma, impulsionaram o retorno efetivo da banda, todavia, com um time diferente, haja visto que Thomas Elbern abandonaria o barco por conta de projetos pessoais. Agora em 2021 a banda lançou três singles que se encontram disponíveis em plataformas de streaming. Acho até que isso possa ser o prenúncio de uma volta aos estúdios, já que o último trabalho, The AERDT - Untold Stories, ficou lá no ano de 2016. Quem sabe?! 

“If Two Worlds Kiss” soou à época como uma espécie de confrontação aos modelos reinantes de sonoridades oitentistas vindas principalmente do Reino Unido, quase como uma ofensiva que ajudaria a erguer os pilares do pós-punk alemão. Um disco extraordinariamente sedutor, repleto de texturas emblemáticas e melodias hipnóticas e que, apesar de sua ótima qualidade, obteve pouca popularidade quando do seu lançamento. 

Mas, deixando um pouco de lado a dimensão comercial, considero esta banda, que conheci recentemente graças aos “famigerados” algoritmos dos serviços de streaming, uma descoberta mais do que bem-vinda. Não consigo explicar racionalmente, confesso apenas que um sentimento de alegria fortuito e juvenil tomou conta de mim, quando, coincidentemente, tomava umas biritas na praia num dia meio chuvoso e escutava faixas como “I Coldly Stare Out” e “Walking On Both Sides”.  

A sonoridade do Pink Turns Blue parece unir verves gélidas a partículas ensolaradas numa mesma paisagem musical, tudo construído em cima de mergulhos instrumentais densos. Por vezes os ritmos lânguidos e as melodias sagazes contrastam em meio ao dinamismo da base rítmica, calcada principalmente em teclados soturnos, baixo altissonante, guitarras inventivas e sutis adicionada a vocais paradoxalmente suaves e trovejantes. Digo até que esses componentes talvez tenham sido os maiores responsáveis pelo meu estado de surpresa ao ter contato com o som da banda. Apesar de uma música familiar, com inquestionável influência de grupos mais conhecidos, tais como The Cure, The Mission e The Chameleons, o Pink carrega uma assinatura bastante honesta. 

O disco inicia nas asas da magnífica “I Coldly Stare Out”, um exemplar pra deixar qualquer fã de Cure saltitando de felicidade, com o baixo dando as coordenadas e a guitarra criando uma atmosfera um tanto ameaçadora. Devo dizer que temos aqui uma entrada de respeito! Destaque ainda para a faixa seguinte, “After All”, que aumenta um pouco o compasso e se mostra um pós-punk bem ao estilo The Psychedelic Furs das antigas. Pense naquelas guitarrinhas repetitivas mágicas e bateria basicona, eficiente e energética de garage rock. 

“Walking On Both Sides” é outro grande momento, aqui a banda engata uma quarta marcha, traz um refrão pegajoso e vocal meio grave com instrumental lembrando algo de The Sisters of Mercy. “When It Rains” remete um pouco a U2 da fase inicial e flerta com um pop-punk desacelerado. 

A faixa-título é puro Cure do início ao fim, baixão vigoroso, vocal emocional e cadência tribal levada pela bateria. “Missing You” volta a trazer um clima mais incisivo. Lembram daquele casual atributo solar que falei no início? pois é, ele aparece aqui criando quase uma canção surf music. O disco fecha com “When The Hammer Comes Down” que repete o roteiro guitarrístico das bandas de pós-punk inglesas. Ao fim e ao cabo, a verdade é que nenhuma das outras faixas do álbum deixa o nível cair. 

O disco perfeito para o apreciador de um pós-punk sombrio e que eventualmente (pra não dizer raramente) assume matizes festivas. Pode ser que, às vezes, o estilo rude e carrancudo do Pink Turns Blue soe, inicialmente, um tanto estranho, porém, é quase certo que, com o tempo, o ouvinte fique cada vez mais fascinado pelas trilhas repetitivas e grudentas que o levarão a uma incrível jornada introspectiva e letárgica, até que encontre em seus recônditos o próprio refúgio dark extasiante. Altamente recomendado para os amantes do estilo! 



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2 comentários:

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Roberto Rillo Bíscaro 27/08/2021

Colaborador Top Notch

27/08/2021

Nossa, não conhecia, que som massa!

user

Expedito Santana 27/08/2021

Colaborador

27/08/2021

Sim. Como disse na análise, foi um achado recente.

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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

If Two Worlds Kiss

Álbum disponível na discografia de: Pink Turns Blue

Ano: 1987

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,5 - 1 voto

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