Resenha

Circles In Time

Álbum de John Holden

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

26/08/2021



Musica progressiva suave e de lirismo surpreendente, além de uma sonoridade magnifica

Por meio do seu terceiro disco, Circles in Time, o multi-instrumentista, John Holden, conseguiu produzir uma música que pode ser considerada um passo adiante em relação a sua carreira, com uma boa variação de estilo, mas nunca deixando com que o conjunto da obra soe de uma maneira incoerente. Diante dos pouco mais de cinquenta minutos do disco, o ouvinte é levado a uma viagem deliciosa de uma música rica e diversificada com passagens pelo rock, jazz, hard, flamenco e até mesmo o clássico. Liricamente o trabalho também é muito interessante e aborda coisas como assassinato, loucura, como as mídias sociais podem ser nocivas e até sobre o Arqueólogo, Howard Carter e a sua descoberta do tumba de Tutancâmon.  

“Avalanche” começa com alguns ataques bem fortes por meio de riffs muito bem encorpados. A bateria de Nick D’Virgilio é sempre um grande atrativo, sendo que aqui não seria diferente e ela adiciona uma ótima vitalidade a peça. Para, “Avalanche”, a voz convidada é a de Jean Pageau, que canta de uma forma muito bonita e ar misterioso. A abordagem lírica fica por conta de como as pessoas usam as redes sociais para caluniar umas as outras. Como é dito no próprio encarte do CD, trata-se de uma resposta a toda a negatividade que isso é capaz de trazer.  

“High Line” começa dentro de uma linha bastante jazzística. As lapidadas do saxofone colocam a peça em algo entre o Supertramp e Steely Dan. O nome da música refere-se a um lugar de Nova York que corta o lado oeste da cidade. Pete Jones aqui é quem brilha, tanto liderando os vocais cheios de suavidade, quanto compondo linhas intimistas, calorosas e belíssimas de saxofone. A vibração jazzística dessa música é sensacional e soa maravilhosamente evocativa.  

“The Secret of Chapel Field” logo nos seus primeiros segundos consegue mostrar que se trata de uma canção triste, retratando a morte de uma jovem de quinze anos chamada Mary Palpas e que foi assassinada em Chapel Field por um homem chamado Thomas Bagguley e que viria a se matar antes que pudesse haver alguma justiça em relação ao crime. Sua atmosfera sombria combina bastante com os vocais de Marc Atkinson e Sally Minnear. Vale ressaltar as belíssimas linhas de violino, além do violão que passeia sublimemente pela música e o clima orquestral de fundo que aumenta a grandiosidade da peça.  

“Dreams of Cadiz” tem início por meio de um piano suave e bastante gracioso que logo em seguida puxa com ele o espirito flamenco da guitarra andaluz de Oliver Dia. Trata-se de uma peça instrumental que consegue trazer com ela toda a aura cigana e suas danças cheias de fogo e paixão. Uma suave orquestração de fundo também incrementa muito bem a música. Uma verdadeira pérola que mais próximo do fim ainda tem um sintetizador maravilhoso que serve como a cereja no bolo.  

“Circles” é uma faixa que possui arranjos bastante suaves e sutis, onde mais uma vez a voz celestial de Sally Minnear engrandece a beleza da obra. Uma peça em que nos encoraja a viver e sermos sempre agradecidos pelo que somos e temos agora no presente – algo que devo admitir não concordar muito. Mas a ideia de que o amor é algo ótimo em qualquer situação eu acho super válido. Uma balada extremamente refinada e de sensibilidade incrível.  

“KV62” é a peça que marca o encerramento do disco por meio dos seus quase vinte minutos, levando o ouvinte ao antigo Egito e às descobertas feitas por Howard Carter durante suas expedições arqueológicas da década de 1920, onde descobriram uma tumba de Tutancâmon. Acho que nenhuma música do disco possui um trabalho instrumental tão condizente com a sua narrativa. É muito bem dividida entre partes instrumentais e outras em que Joe Payne e Pete Jones dividem os vocais brilhantemente, além de termos Jeremy Irons no papel do narrador da história. “KV62” é fabulosa em todos os seus ângulos, seja nos momentos mais atmosféricos, intimistas e serenos, seja em suas partes de sonoridade orquestral grandíloqua e de extravagância em que a banda entrega uma música progressiva muito bem administrada e construída. Musicalmente muito emotiva, enquanto que liricamente os vocais cantam sobre a imprensa e toda a repercussão da mídia diante da descoberta e também em como Carter enfrentou toda a burocracia egípcia. Extremamente desiludido ele voltou para a Inglaterra e encarou uma mídia que o colocou em meio a tempestades e bonanças, porém, foi bastante pobre a maneira em que Carter morreu, além de completamente sozinho. Quando apenas ouvimos, “KV62” é “apenas” um épico lindo, mas quando analisamos também sua história, nos deparamos com um conto triste de perdas e oportunidades perdidas.  

Um disco fabuloso e belíssimo do começo ao fim. Talvez a sua suavidade pode não agradar logo de cara aqueles fãs de progressivos que sempre imaginam músicas intrincadas e cheia de reviravoltas todas as vezes em que falamos do gênero, mas real é que Circles in Time é um disco magnífico seja no campo musical ou lírico. John Holden não apenas acertou mais uma dessa vez, mas conseguiu ser mais certeiro do que nunca.  


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Circles In Time

Álbum disponível na discografia de: John Holden

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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