Resenha

Canvas Two

Álbum de Inner Prospekt

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

25/08/2021



Música progressiva de sonoridade moderna e ao mesmo tempo de influência clássica da era romântica

Canvas Two é o décimo primeiro álbum de Alessandro Di Benedetti sob o apelido de Inner Prospekt, sendo que só a partir do nono disco ele passou a contar com uma grande gama de músicos o acompanhando - até então o projeto era do tipo banda de um homem só - e que pensam musicalmente igual a ele. Como o nome sugere, o disco é a segunda parte da sua série Canvas – que teve início com Canvas One em 2020.  

Admito que nunca me aprofundei muito dentro do conceito para tentar entender esses discos e até que ponto há relação um com o outro, mas musicalmente ambos funcionam de forma brilhante. Entre tantos músicos convidados, um deles é Federico Tetti – guitarra nas faixas 3, 5, 7 e 8 -, um velho conhecido de Alessandro por também tocar na Mad Crayon, banda em que ambos fazem parte. Canvas Two não chega a ser surpreendente, uma obra-prima ou algo de qualquer grandiosidade do tipo, mas é de uma delicadeza e profundidade incrível. O talento de Alessandro Di Benedetti é muito bem evidenciado durante todas as suas oito faixas, assim como a sua grande influência nas teclas de Tony Banks.   

“Glimpse” é a faixa de abertura do disco. Um piano taciturno e solitário inicia a peça, sendo logo acompanhado por algumas cordas que ajudam na atmosfera sombria do momento. Quando os demais instrumentos entram, há uma mudança de direção que a coloca em uma linha mais jazzística, permanecendo assim até terminar da maneira que começou, com o piano e cordas novamente.  

“Soul of Hundred Lives” com os seus quase dezoito minutos é a maior música do disco. Novamente o começo é por meio de um piano melancólico, mas logo acompanhado de algumas batidas graves formada pela dupla bumbo e baixo, dando a música uma crescente gradativa. O ar sinfônico também vai aparecendo aos poucos, como quem prepara todo um terreno antes de fazer o seu plantio. Toda a banda então entra, levando a música agora em um suingue muito interessante antes dos primeiros vocais – lembrando o do Robert Wyatt. Por meio dos sintetizadores, Alessandro vai mostrando o quanto é um músico criativo. Há momentos de guitarras um pouco “nervosas”, bateria artificial – mas que ficou muito boa na música - muitas mudanças de andamentos e pausa musical simplesmente encantadora. Os momentos finais da peça são enérgicos e de uma mistura maravilhosa entre o jazz e o blues. com destaque principalmente para o trabalho de guitarra.  

“King Of Spades” começa com um violão delicado na linha de Steve Hackett e algumas notas de saxofone que ajudam bastante na melancolia na música. O tom da voz aqui está bastante romântico. Então que a banda inteira entra na música e a paisagem sonora belíssima fica completa. Esse álbum tem muitas ideias sinfônicas e aqui não é diferente. O clima musical na linha de Antony Kalugin também é bastante evidente.  

“Why Me?” é mais uma peça que tem o começo por meio de um violão de doze cordas, ganhando logo em seguida a companhia do piano. Os vocais entram pela primeira vez quando a sonoridade se encontra cheia de tensão. Conforme a música se desenvolve, a banda entrega um som cada vez mais sinfônico e arrebatador. O solo de sintetizador é incrível e enérgico e o de violino é completamente celestial. Se a capa do disco é influenciada pela pintura era do Romantismo, musicalmente “Why Me” segue com a mesma influência.  

“Abby's Escape” tem uma melodia inicial entre o jazz e o blues executada por algumas teclas suaves e cheia de frescor. Quando a bateria entra na peça e entrega um pouco mais de “corpo”, também é possível notar alguns acenos ao Genesis mais progressivo da era pós Gabriel. Novamente Alessandro mostra o quanto ele sabe usar os recursos dos seus sintetizadores, seja pra soar de forma intimista, sombria ou até mesmo depressiva. Possui um final por meio de algumas notas de piano muito bem construídas e que encerram perfeitamente mais uma parte dessa viagem.  

“White Skies” é mais uma faixa que tem a sua abertura por meio de um piano muito delicado e cheio de beleza, e que logo ganha a companhia de algumas cordas de fundo antes que os primeiros vocais cheios de emoção se mostrem presente. Possui também alguns violinos melancólicos, além também de Alessandro brincar novamente com algumas ideias excelentes de sintetizadores e um mellotron que encorpa ainda mais o fundo da peça. Quase aos sete minutos, os vocais saem de cena definitivamente e dão lugar a uma passagem instrumental esplêndida, que começa em um breve e tímido violino, mas adentra em algo mais enérgico, com mais solos de sintetizadores e dois ótimos solos de guitarra – divididos por um violino que deixa a peça atmosférica por alguns segundos - até chegar em um final sinfônico.  

“The Knight And The Ghost”, um violão muito doce e refinado ao melhor estilo Steve Hackett seguido por algumas belas notas de cordas dão início a peça. A voz de Alessandro mais uma vez está bastante melancólica, mas agora também se encontra mais grave. Toda a banda entra em ação e a peça vai seguindo em um ritmo lento, sempre com uma riqueza instrumental incrível. Uma mudança de direção deixa a peça em um ritmo mais veloz, o baixo está mais grave do que nunca, algumas notas de violino também adornam a obra – isso ocorre duas vezes na música. Um solo de guitarra muito simples, mas limpo e eficaz também é destaque na faixa. A dobradinha piano e violino tomam a liderança de forma belíssima até a peça chegar ao fim. O disco ainda teria uma faixa bônus para ser mencionada, “Queen of Clubs”, mas a deixarei de fora por não fazer parte do conceito Canvas.  

No fim, muito bem acompanhado, Alessandro Di Benedetti mais uma vez mostra todo o seu bom gosto e requinte na hora de criar músicas de atmosferas quase cinematográficas. Música progressiva de sonoridade moderna e ao mesmo tempo de influência clássica da era romântica que puxa o ouvinte e o afaga os ouvidos do começo ao fim, transformando a audição de Canvas Two em uma experiência única.  


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Canvas Two

Álbum disponível na discografia de: Inner Prospekt

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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