Resenha

Vigesimus

Álbum de Cast

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

20/08/2021



Rock progressivo sinfônico com influências clássicas e melodias escritas com extremo zelo

Como já sugere o nome, a banda mexicana, Cast ,por meio desse disco chega ao seu vigésimo lançamento, e digo mais, o seu maior feito até hoje, pois apesar da banda já ter em sua discografia ótimos discos, nada soa com a magnitude Vigesimus. As melodias aqui estão simplesmente incríveis e cada música é escrita com extremo zelo e cuidado. Um dos candidatos sólidos a figurar não apenas entre os melhores do ano, mas para estar brigando lá no topo com o que de melhor teve na música progressiva em 2021.  

“Ortni” é onde marca o início do disco por meio de um trabalho instrumental bastante enérgico. Os violinos vagueiam pela peça ao melhor estilo Kansas, e junto a eles, guitarra, sintetizadores, baixo e bateria também proporcionam uma “luta” grandiosa e de tirar o fôlego. Vigesimus está apenas começando e mesmo assim, já impressiona. “Black Ashes and Black Boxes” começa por meio de uma sofisticada melodia de piano, mas logo entram os primeiros vocais e os demais instrumentos, mostrando-se uma música de muita energia e agito. A forma como o violino trabalha nessa banda é incrível, sempre reforçando a peça ao fundo, e aqui não é diferente. Muito dinâmica, é um verdadeiro ataque de notas sempre muito bem encaixadas.  

“The Unknown Wise Advice” é mais uma das peças em que se inicia por meio de um piano cheio de requinte e frescor, mas dessa vez em companhia de algumas notas do violão e vocais que não demoram pra entrar. A música então se incha com a entrada dos demais instrumentos em um ritmo de balada. Mais à frente se torna mais sinfônica, até que o ritmo ganha uma maior velocidade e peso, além de trazer com ele um bom solo de guitarra. A linha sinfônica permanece, o violino novamente no estilo Kansas segue firme, mais guitarras, sintetizadores, enfim, sentimos instrumentos não apenas sendo tocados, mas dominados por quem os conhecem muito bem.  

“Another Light” é a faixa mais curta do disco, mas também a mais melancólica e sombria. Eu não gosto de rock alternativo, mas é impossível não sentir um flerte aqui com o gênero - mas nada que a comprometesse. Sinfônica e com a suavidade clássica da banda, guitarra e violino mais uma vez são os instrumentos que pincelam com cores mais vivas a música. “Manley” é a segunda faixa instrumental do disco. Inicialmente a melodia possui uma influência jazz, mas depois caminha por terras mais parecidas com o metal sinfônico. O violino mais uma vez dita as “regras”, dando um ar de suspense e medo em linhas até mesmo agressivas. A bateria é quem mais garante o frenesi da peça - há também um solo de guitarra muito veloz perto do fim -, e que é mais uma verdadeira aula de música progressiva.  

“Location and Destination” possui um começo em que mais uma vez a banda escancara suas influências no Kansas. Uma faixa muito boa e de começo frenético, mas que é suavizada para a entrada dos primeiros vocais – inclusive, eles estão soando de uma forma que me lembra o Eirikur Hauksson da Magic Pie. Mas o frenesi inicial é constante em momentos pontuais. Por volta dos cinco minutos, uma preparação sinfônica antecede um solo de guitarra que rasga a música, mas logo desaparece, enquanto que a faixa muda totalmente de ritmo, ficando agora quase orquestral, com destaques para o violino – sempre eles. Achei sensacional esse final.   

“Crossing” é mais das peças do disco que começa com um piano quase que celestial, sendo acompanhado pela guitarra logo em seguida, já fazendo o ouvinte desenhar uma criação épica e sinfônica na própria cabeça - e no fim é isso mesmo que eles entregam. O começo é uma mistura saborosa de Genesis com Emerson Lake & Palmer – esse em menor quantidade. É impressionante o quanto esses caras conseguem entregar um rock progressivo sinfônico extremamente técnico, mas sem perder o seu ar sensível.  

“The March”, com a sua introdução a música direciona o disco novamente para algumas estradas mais sombrias, obscuras e intimistas. Piano e violino constroem uma cama para que os primeiros vocais relaxem em cima. Conforme a peça vai se desenvolvendo, também vai ficando mais sinfônica. Por volta dos quatro minutos e vinte, a doçura da música ganha um ar mais pesado – com uns riffs quase de heavy metal em alguns pontos -, com todos os instrumentos agora em ação, permanecendo assim até chegar a hora que ela emenda com a faixa seguinte. 

“Contacto” é a terceira peça instrumental. Começa com a “fúria” que a faixa passada lhe deixou de “herança”. A linha aqui dessa vez não é apenas sinfônica, mas medieval. Teclados e violinos se entrelaçam em uma variação musical de arrepiar, o violão clássico faz alguns pequenos acenos enquanto a música flui com suas paredes orquestrais, até que todos os instrumentos a atacam de forma frenética. O tipo de música onde é fácil perceber o quanto a qualidade técnica da banda é incrível, vários instrumentos amontoados se reproduzindo de uma forma sincrônica impressionante.   

“Dredging to the Higher Plane” já começa com o violino esbravejando em uma sonoridade medieval, enquanto alguns teclados fazem uma orquestração ao fundo. Após os primeiros vocais chegarem em uma parte onde ele sustenta uma nota por alguns segundos, a banda toda entra no mesmo comboio sonoro, trazendo a música para uma linha mais moderna e menos vintage, com uma melodia forte e de uma tecnicidade incrível. A música diminui para um ritmo médio e os vocais reaparecem, mas basta eles saírem novamente, para ela entrar de novo em um frenesi tremendo. Entre vocais e uma instrumentação acachapante, o disco se encaminha para o seu fim, onde nada poderia ser melhor do que foi.  

Um dos motivos que pode fazer com que muitas pessoas julguem um disco principalmente de rock progressivo antes de ouvi-lo, é o seu tamanho, ainda mais quando falamos de uma banda em que a sua popularidade não é tão grande, e assim poderão achar que é uma banda cheia de enchimentos desnecessários, somente para que suas músicas atinjam determinado tamanho e sejam “mais progressivas”. Mas aqui eu já posso deixar garantido que não é isso que ocorre, são 76:38 de música em que cada um dos segundos é necessário. Escute Vigesimus muitas vezes até se sentir “impregnado” do seu som, sinta cada detalhe, pois apesar da pegada ser imediata e de uma garantia de plenitude total, cada audição é uma experiência nova.  


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

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"Sou poeta, contista e apaixonado pela música progressiva em todas as suas facetas."

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Sobre o álbum

Vigesimus

Álbum disponível na discografia de: Cast

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

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