Resenha

Harvest

Álbum de Ciccada

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

18/08/2021



Seções suaves e pesadas fluindo muito bem em uma coexistência pacífica

Os cerca de cinco anos de um disco para o outro da banda Ciccada podem ser vistos como um tempo extremamente longo, inclusive eu concordo, acho que poderiam ter lançado muito mais material entre 2010 e 2021, mas por outro lado, eles sempre fazem valer o tempo “parado”, pois acabam preparando o terreno muito bem e entregam para o ouvinte uma música de muito bom gosto e precisa, além de bastante refinada, progressiva e folclórica, também abraçando a instrumentação elétrica e floreios progressivo para criar algo verdadeiramente diferente e novo, em uma espécie de mistura de Gryphon com Gentle Giant, pitadas de Fairport Convention com Steeleye Span e passeio no terreno da música do Camel, tornando assim a sua sonoridade bastante elegante.  

“Eniania (Keepers of the Midnight Harvest)” é a música de abertura. Começa com uma guitarra delicada que depois recebe a companhia de alguns floreios de flauta em um tom quase que obscuro. Os vocais começam a falar “Eniania” em uma quantidade crescente de camadas antes que o restante da banda enfim apareça, mas por um curto tempo, pois o tema inicial de vozes reaparece, para que depois sim, a banda entre em um túnel musical de muita técnica e criatividade. Um dos destaques é a linha de saxofone, que nos momentos mais intensos flui muito bem em uma interação incrível com os demais instrumentos. O fato de a banda utilizar uma grande variedade de instrumentos também ajuda muito na criação de algo tão distinto. 

 “Open Wings” mantem o disco em uma atmosfera bastante suave e de som cheio de requinte. Os vocais folk femininos são encantadores. O trabalho de violão é muito ameno e confortam os ouvidos do ouvinte com uma performance suave e muito bem cadenciada, mas tendo tempo também para alguns “golpes” de guitarra. Os instrumentos de sopro – principalmente a flauta – novamente consegue implementar um som étnico belíssimo.  

“The Old Man and the Butterfly” é mais uma espécie de excursão alegre por caminhos musicais oníricos. Um belíssimo violão e flauta abrem a faixa, mas logo em seguida ganham a companhia de toda a banda em uma levada até mesmo um pouco pesada por conta da guitarra elétrica que é construída com muita força e energia. Um dos grandes atrativos dessa peça é como a banda consegue variar as suas partes mais suaves e mais pesadas. Durante os seus quase oito minutos, é possível notar acontecer muitas coisas, mas sempre tudo muito bem organizado e coerente.  

“No Man's Land”, sobre algumas notas de órgão hammond, uma guitarra bastante melódica e aveludada chora em um estilo extremamente floydiano, dando início a música. Então que a bateria ao entrar na música, traz com ela a flauta, alguns lampejos de guitarra e um baixo bastante grave, até que um solo de sintetizador toma a liderança, agora em um ritmo diferente de batida antes que a peça caia novamente em uma linha suave. Os vocais aqui trabalham em uma interação belíssima, tornando tudo quase hipnotizante. O trabalho de guitarra na faixa também é muito bem feito.  

“Who's to Decide?” é a faixa mais curta do disco, começando cheia de groove. A seção rítmica tem uma linha funkeada muito boa. Os trabalhos de saxofone e flauta, de forma alegre, implementam uma aura jazzística, enquanto que teclados e sintetizadores adicionam algumas texturas muito particulares. Os vocais dessa peça a princípio não haviam me agradado tanto, mas depois achei excelente o seu jeito ofegante. Pra fechar, ainda possui um solo final de guitarra que mostra o quanto a banda também pode soar forte.  

“Queen of Wishes” é a faixa que finaliza o disco, sendo também a mais longa delas com os seus mais de doze minutos. O começo é por meio de uma tabelinha entre oboé e saxofone, criando uma cama sonora muito bem confortável até o momento que entram os violões e os primeiros vocais. Tudo nessa música é tão celeste – embora todo o possa ser considerado assim. Bastante atmosférica e encantadora, soando quase sempre de uma maneira poderosa, a peça possui uma interação instrumental dentro das suas estruturas muitas vezes de arrepiar. Às vezes o centro do palco é tomado por instrumentos de sopro, há outros momentos em que o violão se faz solitário e em outros há uma guitarra mais pesada, órgão agressivo, além de um trabalho de bateria em um ritmo mais rápido, isso pra citar apenas três de suas variações. Um encerramento de disco que não poderia ser mais brilhante. 

Após ouvir um disco como Harvest, sinto uma sensação de satisfação muito grande, uma sensação de paz interior. Notável e intrigante, trata-se de um registro excelente e com uma capacidade muito grande de crescer no ouvinte sempre que estiver disposto a abrir espaço para deixá-lo penetrar o seu coração. Um clássico exemplo do tipo em que temos seções suaves e pesadas fluindo muito bem em uma coexistência pacífica.  


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Harvest

Álbum disponível na discografia de: Ciccada

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 2 votos

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