Resenha

Innocence & Danger

Álbum de The Neal Morse Band

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

18/08/2021



NMB com o seu Innocence & Danger entrega um disco profundo e comovente de rock progressivo moderno

A minha expectativa sempre que é anunciado um novo disco do Neal Morse – ou The Neal Morse Band - existe simplesmente por ser um novo disco do Neal Morse, admito não esperar nada surpreendente ou novo, Neal a um tempo se encontra tranquilamente em uma zona de conforto da qual ele não parece querer sair. Isso é ruim? Nenhum pouco, sou um grande fã da fórmula dos seus discos e Innocence & Danger é mais um excelente capítulo discografia de Morse, que me surpreendeu até por soar de forma mais diversa do que eu esperava, e com isso, um pouco fora da zona citada, mostrando novamente uma banda com excesso de inspiração a ponto de Morse ter que quebrar a sua promessa de que não seria um disco duplo. Mas é bom deixar claro que apesar dos seus quase 100 minutos de duração, não existe nenhum tipo de preenchimento ou gordura desnecessária.  

Innocence & Danger é mais um dos discos que vai ajudar o ano de 2021 se consolidar como um dos melhores da música progressiva moderna. Neal Morse e Mike Portnoy já havia feito suas partes com o maravilhoso The Absolute Universe do Transatlantic, mas eles ainda tinham mais a oferecer e juntaram-se novamente a Randy George, Bill Hubauer e Eric Gillette para nos entregar outra pérola.  

CD1 (Innocence) 

“Do It All Again” possui um começo onde é quase inevitável não lembrar de “Dance on a Volcano” do Genesis, porém, em momento algum isso tira o seu brilho ou mesmo diminuem o impacto da criatividade própria da banda. Com uma atmosfera bastante edificante, os seus quase nove minutos já conseguem passar boa parte da essência que vai ser transmitida durante todo o álbum. De certa forma, é possível notar uma semelhança entre " “Do It All Again” com “The Call”, faixa de abertura de The Grand Experiment. Vale destacar também o excelente refrão do tipo que gruda facilmente na cabeça.  

“Bird On A Wire” logo em seus primeiros segundos já se mostra uma faixa mais técnica e pesada do que a anterior, mas logo em seguida ela entra em um clima de rock de arena. Acho interessante destacar Portnoy nessa faixa, ele está tocando daquela sua maneira implacável que todos nós gostamos de ver, mas claro que há muito além disso, os vocais em camada estão maravilhosos – na verdade, isso é um atrativo de todo o disco -, as linhas de baixo acompanham a bateria criando uma seção rítmica de tirar o fôlego, além de segmentos instrumentais com muita veemência, guitarras e teclas arrepiantes.  

“Your Place In The Sun” possui uma veia pop simpática e de bom suingue, onde apesar de não ser tão memorável quanto as duas anteriores, têm alguns trunfos, como uma melodia cativante e mais um bom refrão. Gosto bastante da maneira divertida com que os pianos soam nessa música. Novamente a combinação da função de vocais principais dividida entre Morse, Portnoy, Hubauer e Gillette soa de forma belíssima.  

“Another Story To Tell” segue direcionando o disco para um som mais pop, mas dessa vez com mais groove. Cada música que passa eu vou percebendo que além dos seus trabalhos instrumentais inspirados – algo que não é novidade - um dos grandes atrativos do disco também são suas harmonias vocais. Possui uma grande influência no pop 70’s, mas que eu não consigo identificar bem em qual ou quais nomes da época. Tudo soa tão natural nessa música que quando ela acaba, nos perguntamos, “mas já?”.  

“The Way It Had To Be” começa com uma ótima passagem atmosférica de sonoridade muito elegante que nos remete um pouco ao Yes. Os vocais de Gillete estão excelentes, de uma maneira casual e alegre. As teclas se encontram muito bem posicionadas, guitarra e baixo contribuem para uma natureza celeste. Como eu adoro esse tipo de faixa “preguiçosa” quando feita com a sutileza que merece e de forma inteligente. Não posso deixar de destacar também o solo emotivo de guitarra. Certamente uma das melhores baladas já produzidas por um disco envolvendo Morse.  

“Emergence” é uma faixa que serve como ponte para a seguinte, e também para mostrar o quanto Morse é um músico versátil, sendo um ótimo desempenho dele em pouco mais de três minutos ao violão. Quem acompanha a carreira de Morse desde o Spock’s Beard, vai trazer em mente  “Chatauqua”.  Serve muito bem como uma espécie de respiro acústico, digamos assim. “Not Afraid Pt. 1” mantém o direcionamento do disco em uma veia acústica, mas agora mostrando também mais um trabalho vocal maravilhoso. Por volta do último terço de música a bateria entra e a faixa ganha em intensidade e emoção. Também possui um dos melhores e mais cativantes refrãos do disco. 

“Bridge Over Troubled Water”, quando eu li o nome dessa música antes de ouvir o disco, primeiramente pensei que fosse um som homônimo ao clássico de Simon & Garfunkel, mas lembrando que Innocence e Danger não seria um disco conceitual – como de costume -, vi que realmente se trataria de um tributo, e que belo tributo, bombástico e ao mesmo bastante respeitoso com a clássica criação da dupla. É interessante ver esse som em lugares e formas que Paul Simon jamais imaginaria que ele estaria um dia. Uma versão de execução complexa e arranjo grandioso com direito a uma introdução sinfônica, além de vocais apaixonados – mas nesse caso, não tanto quanto a original. A música não foi necessariamente desmembrada ou descaracterizada, mas para aqueles fãs mais devotos da dupla, talvez seja meio difícil compreender todo o empreendimento ambicioso em cima de uma peça tão intimista.  

CD2 (Danger) 

“Not Afraid Pt. 2” com os seus quase vinte minutos é um dos dois épicos que compõem o segundo disco. Inclusive, considero os dois épicos do disco como um prato principal depois de vários aperitivos do disco um. Apesar de se apresentar como a parte dois de uma faixa do disco um, particularmente eu não consigo captar bem onde elas se conectam. Possui uma introdução sinfônica extremamente sólida e que em determinado ponto fica com um peso ainda novo no disco antes da banda “baixar a guarda” para a entrada dos primeiros vocais. As harmonias vocais novamente estão incríveis, assim como toda a abordagem melódica. No núcleo da música é possível notar várias influências como, Supertramp, Styx e como não poderia deixar de lado, Spock’s Beard do tempo de Morse, sendo provavelmente V o disco mais próximo aqui. Destaque também para um momento onde a “não vibração” faz com que a banda produza menos notas, trabalhando uma dinâmica até chegar em um clímax onde os vocais regressam. Uma coisa que faz com que épicos funcione tão bem com esses caras, é o fato de não existir nenhum egocêntrico, e todos vestem a camisa em prol do conjunto. Que música sensacional.  

“Beyond The Years”, será que mesmo após um épico da magnitude de “Not Afraid Pt. 2” ainda existe a possibilidade de o melhor ter ficado para o final? Pois eu lhes digo que incrivelmente sim. Vale ressaltar aqui que boa parte da ideia da música foi trazida pelo tecladista Bill Hubauer. Começa com alguns belos arranjos clássicos de cordas antes dos vocais de Hubauer, Morse e Gillette começaram a trabalhar trocando de posição durante as linhas principais. Morse parece entender um proghead – apesar de eu odiar esses termos -, pois sua carreira é repleta de músicas que entregam tudo aquilo que um apaixonado pelo gênero espera. Em “Beyond The Years” são gamas incontáveis de mudanças de humor e ritmo, seções que se alternam entre momentos oníricos e outros de grande extravagância e técnica que mostra uma banda onde um membro parece ler o pensamento do outro. Na parte central – literalmente – a música fica em uma suavidade quase hipnótica, vocais afetuosos, pinceladas de sintetizadores, guitarra cheia de sensibilidade e uma seção rítmica marcando tudo de forma discreta, até ir crescendo conforme sintetizadores e guitarra atacam com dois solos furiosos respectivamente nessa ordem. Os nove minutos finais da música podem ser considerados tranquilamente o seu clímax, onde primeiramente a banda desfila uma verdadeira experiência rítmica simplesmente avassaladora. Os vocais regressam enquanto que a banda tira o pé do acelerador. A voz emotiva de Hubauer não poderia direcionar de uma melhor forma a faixa para o seu final, dando lugar a uma orquestração que eu acho que vai arrancar lágrimas de muita gente nos próximos shows da banda, mas como se já não bastasse isso, ainda há tempo para um solo maravilhoso de guitarra que vai desaparecendo aos poucos, dando lugar para o tema inicial que encerra o álbum calmamente. Parece até um absurdo o que vou dizer, mas depois dos seus mais de trinta e um minutos, essa faixa ainda consegue me deixar com um gosto de quero mais. 

Ao mesmo tempo em que a banda manteve o seu som familiar, ela também conseguiu fazer isso com uma abordagem ligeiramente diferente e mais colaborativa. Quando falamos da elite do rock progressivo moderno, é impossível não citar um nome como o da The Neal Morse Band, isso seria uma verdadeira heresia e a prova disso está em um disco desse. Com Innocence & Danger a banda entregou algo que pode ter empurrado inclusive o seu sarrafo ainda mais pra cima. Certamente um dos melhores discos de rock progressivo de 2021.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Innocence & Danger

Álbum disponível na discografia de: The Neal Morse Band

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

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