Resenha

One To Zero

Álbum de Sylvan

2021

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

17/08/2021



Evolução, sim, mas sem trair as origens neo-prog

Após um extenso hiato de seis anos do lançamento de Home (2015), os alemães do Sylvan apresentam aqui seu décimo álbum de estúdio intitulado “One to Zero”, que saiu selo Gentle Art of Music em formato CD e LP, e também disponível nas plataformas de streaming. Sempre que comento os discos dessa banda não consigo deixar de pensar no quanto os caras, até hoje, parecem ser meio subestimados no cenário prog fora da terra natal. Costumo compará-los a grupos como Camel (guardada a devida proporção, obviamente!), os quais, não obstante detentores de ótimas discografias, continuam fadados a figurar numa segunda ou terceira prateleiras da música progressiva.  

Temos mais uma obra conceitual que aborda temas ligados às questões de identidade e descoberta contrapostos aos de alienação e dissociação, tudo costurado a partir de uma análise contextual que considera a sociedade contemporânea sob o prisma autobiográfico de uma inteligência artificial (mais atual impossível!).  

A espera foi, de fato, relativamente longa, mas garanto que os fãs não vão se decepcionar com “One to Zero”. Ainda que Sceneries (2011) e Home tenham elevado muito o sarrafo, ou seja, aumentado as expectativas de qualidade em relação ao som que banda faria dali em diante, este álbum não deixa a peteca cair. Embora seja mais um disco poderoso, sofisticado e muito bem produzido dos alemães, mostra-se surpreendentemente mais acessível que os trabalhos anteriores da banda. Que tal constatação não assuste os puristas, uma vez que “One To Zero”, a despeito de fazer algumas explorações em novos territórios, consegue manter intacta a identidade Sylvan. O que leva à seguinte conclusão (que não faço a mínima questão de enrolar para entregar ao final): “não resta dúvida de que o décimo trabalho de estúdio pode ser considerado uma evolução, porém, a obra consegue permanecer fiel às raízes neoprog da banda”.  

Desde o álbum Home a banda vem contando com o competente guitarrista Jonathan Beck como músico adicional, o qual tem empunhado com maestria seu instrumento de seis cordas, conseguindo construir trilhas elétricas carregadas de emoção e com tanta profundidade e volume quanto seus antecessores Jan Petersen e Kay Sohl, enquanto a cozinha formada pelo baterista Mathias Harder e o baixista Sebastian Harnack, uma dupla rítmica experiente e profissional, vêm dando grande musculatura aos arranjos. O exímio tecladista Volker Sohl, por sua vez, segue a sua saga de verdadeiro escultor sonoro, criando paredes de rajadas sintetizadas, doses dadivosas de piano elegante e texturas orquestrais espetaculares. Mas, como já frisei em outras análises que fiz da banda, os holofotes aqui continuam apontados para o extraclasse Marco Gluhmann, um dos grandes microfones do prog da atualidade na minha humilde opinião. Gluhmann tem uma ressonância impressionante e uma entrega tão grande e original quanto a de Steve Hogarth (adoro compará-lo, por certa similaridade, ao vocal do Marillion, de quem também sou muito fã).  

Em consonância com a proposta temática do álbum, o disco abre com “Bit By Bit”, uma faixa que evita as cordas orquestrais ou um piano mais clássico que geralmente dão o pontapé inicial nos discos da banda, para apostar na urgência de um sintetizador e logo em seguida numa guitarra mais moderninha com ligeira tendência heavy. A música, porém, segue construída em seções mais climáticas com os sintetizadores e teclados ditando o ritmo, e, eventualmente, tornando-se vigorosa, quer seja pela guitarra ou bateria. 

Em “Encoded At Heart” o piano prog clássico do Sylvan aparece na introdução trazendo junto o costumeiro tom melancólico. Há algumas reviravoltas intrigantes nos minutos seguintes e um refrão delicado, mas marcante. Algumas das sincopações na melodia e no ritmo funcionam de forma bem eficiente. Sinto falta aqui de uma maior presença do baixo e da bateria, que são bastantes sutis, aliás, no álbum como um todo.

A energia de “Start of Your Life” chama a atenção, a faixa mais curta do álbum traz um mezzo rock de arena que lembra o compasso de “Answer To Life” de Posthumous Silence. O riff pegajoso contrasta com um vocal até meio melódico de Gluhmann e deixa as coisas bem alto astral, antes da bela e introspectiva “Unleashed Power”, onde o piano de Volker Sohl elabora texturas maravilhosas como uma espécie de valsa, e deixa o vocal de Marco à vontade para brilhar novamente enquanto uma guitarra viajante meio floydiana dá um matiz ainda mais bonito. Enfim, temos uma peça muito comovente, que remete com muita força às paisagens emocionais do álbum Posthumous Silence. 

Aparece então um pouco da tal evolução que mencionei no início da análise, vinda sobretudo da guitarra elétrica e dos sons e batidas programadas de “Trust In Yourself”, que conferem uma verve um tanto industrial e lembram algo até próximo do que Steven Wilson fez em seu último disco. O mais interessante, porém, é que as raízes neoprogressivas mostram a cara numa excelente justaposição calcada num violino clássico tocado por Katja Flintsch. Ótima canção que sabe misturar equilibradamente o moderno e o erudito.  

Quando o disco atinge a segunda parte eis que surge uma das melhores faixas, “On My Odyssey” é uma canção riquíssima com direito a violino e viola de Katja e repleta de detalhes instrumentais preciosos em seus seis minutos e meio de duração. Se nos acordes do primeiro segmento vier à mente Riverside, não se assuste, pois parece mesmo com o som dos poloneses (o baixo é puro Duda). As cordas e vocais (que também lembram muito os de Duda) logo são acompanhados por levadas de bateria e percussão e constroem uma melodia latina magnífica. A sincopação é sensacional e vai num crescendo até explodir no refrão majestoso, e o solo final saído da guitarra de Jonathan é algo não menos que mágico. Nota dez!

A segunda maior faixa do disco é “Part Of Me”, uma canção "épica" baseada inicialmente no piano e no vocal choroso de Marco e que proporciona um outro refrão esplêndido. Seu clima suntuoso permanece na seção intermediária que se torna mais instrumental onde as cordas florescem lindamente. Que pintura!! A música então retoma a sua estrutura inicial até encerrar num solo de guitarra gilmouriano de lamber os beiços. 

“Worlds Apart” é a segunda faixa mais curta, quase quatro minutos, tem o apoio vocal de Bine Heller e uma cadência construída majoritariamente em cima dos teclados e da voz de Marco. Já “Go Viral” traz de volta o elemento eletrônico da abertura e é uma peça surpreendentemente pesada para os padrões do Sylvan. O roteiro inclui, dentre outras coisas, refrão dividido em duas partes, riffs latejantes metalizados, algumas notas de teclados espaciais e mais um grande solo de guitarra intermediando as partes pesadas. Esta faixa remete a Home e aponta para caminhos que a banda pode vir a percorrer no futuro. Boa faixa!

O adeus fica por conta de “Not A Goodbye” (sem qualquer trocadilho invertido com o título da música). A maior faixa do disco tem cerca de dez minutos e está ancorada numa singela assinatura de guitarra levada num ritmo lento para então se metamorfosear numa passagem mais dinâmica e variada, mas nada de extraordinário. Marco, como sempre, aparece cantando muito e é o maior destaque.    

Nos dias hiper velozes que atualmente vivemos, nos quais pouca gente senta para escutar “efetivamente” música, um álbum com uma hora e cinco minutos de duração pode parecer um exagero e igualmente um desperdício, mas tenho certeza de que o verdadeiro fã de música progressiva será fisgado por “One to Zero” de uma maneira que o tempo passará sem ele perceber. Enfim, mais uma obra irretocável do catálogo Sylvan. Que os alemães não parem de fazer coisas parecidas com isto aqui! 



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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

One To Zero

Álbum disponível na discografia de: Sylvan

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 2 votos

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