Resenha

Day And Age

Álbum de Frost*

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

12/08/2021



Repleto de emoção e sensibilidade com ênfase em ritmos e poucos solos

Considero Frost* uma banda de neo progressivo muito interessante, e que apesar disso eu nunca havia escrito nada sobre ela aqui no site, porém, após ouvir o seu mais novo disco, Day and Age, percebi que esse momento chegou. Um disco composto por oito faixas e pouco mais de cinquenta e três minutos que é um verdadeiro passeio pelo mundo moderno – e como já era e se esperar, referências à Covid 19 e a condição que ela nos impôs viver. Antes de começar a sentir a experiência da viagem por Day and Age, espere um disco com sentimento de desespero, esperança, saudade, confusão e medo, sendo tudo isso acompanhado sempre de melodias fortes e uma música inspiradíssima.  

Ao contrário com que aconteceu depois da saída do baterista Andy Edwards após o disco Experiments in Mass Appeal de 2008 para a entrada de Craig Blundell, com a saída de Craig Blundell em 2019 a banda decidiu seguir em um formato de trio - Jem Godfrey (vocais, teclados e produção), John Mitchell (guitarra, baixo e vocais) e Nathan King (baixo, teclados e vocais) - ao invés de convocar um novo músico para assumir oficialmente as baquetas. Mas obviamente que eles chamariam alguns convidados para fazer esse disco acontecer e preencher a lacuna deixada por Craig, então que Kaz Rodriguez (Chaka Khan, Josh Groban), Darby Todd (The Darkness, Martin Barre) e Pat Mastelotto (King Crimson, Mister Mistery) revezaram no posto. 

O disco começa com a faixa título por meio de uma criança falando algumas palavras em um tom perturbador. A primeira aparição da bateria sincopada leva o ouvinte para um ambiente que poderíamos facilmente comparar ao The Police, os vocais seguem os típicos de John e o refrão é fascinante, tudo isso além de entregar uma linha instrumental quase dançante. Porcupine Tree é outro nome que pode facilmente ser usado em uma comparação com a atmosfera da peça que flui muito bem. Como uma faixa de abertura, “Day and Age” não poderia soa mais eficaz. Por volta dos sete minutos e meio a banda ainda entra em uma sonoridade atmosférica, além de meio sombria, com teclados frios e austeros antes de voltar para a sua sonoridade central. Esse tipo de música criada durante uma fase tão difícil em que o mundo tem passado, apenas me faz ser grato por cada músico que vejo se recusando a permitir que as restrições da Covid limitem sua criatividade contínua.  

“Terrestrial” é uma peça complexa e pesada. Começa com um som de teclado bastante diferente em que ele parece ranger em alguns compassos estranhos, seguido pelos vocais que logo o fazem companhia. Todo o conjunto da obra aqui é muito bem desenvolvido. Há diferentes camadas de sintetizadores, bateria imponente, riff de guitarra empolgante, ritmo na linha de um pop-rock-progressivo com certo peso. Muito intensa e satisfatória. “Waiting For The Lie” tem início por meio de um piano bastante sombrio e um vocal praticamente sussurrante. Cordas em staccato, baixo hipnótico e teclados que criam uma atmosfera onírica. A peça é muito bem construída em torno de uma sonoridade que parece ter saído de algum filme de suspense, além de ter uma produção simplesmente linda. A garotinha lá do início retorna aqui no final falando apenas – sussurrando - “Wake up”.  

“The Boy Who Stood Still”, antes de apresentar também vocais musicais, há uma narração na voz do ator e produtor britânico Jason Isaacs. Possui uma pilha de notas, gêneros e instrumentos a partir de uma sonoridade synth-rock eletrônico. O baixo aqui em alguns pontos está mais grave do que nunca e enquanto a guitarra bebe doses homeopáticas da guitarra de Fripp, também se nota goles na fonte de nomes como Depeche Mode, Simple Minds, Bowie ou Brian Eno. Tudo é muito simples, porém, muito bem trabalhado. Vale ressaltar também os sintetizadores tocados em linhas misteriosas. “Island Life” de certa forma passa até um pouco longe do som da banda. Uma grande cascata de uma sonoridade cheia de frescor e em alta velocidade muito influenciada pelos anos oitenta com a quantidade certa de notas sincopadas. Mas há também a carga mais rock na música em que os seus arranjos e composição se combinam muito bem para tornar a peça bastante intensa e poderosa. 

“Skywards” começa por meio de uma sonoridade sombria e introspectiva, então vai se desenrolando em algumas progressões de acordes cheio de angustia e que a conseguem deixá-la em um clima quase cinematográfico. A bateria de Pat Mastelotto é cheia de frescor e fácil de entrar na cabeça - porém difícil de sair -, além de muito melódica. Essa música foi a que mais cresceu em mim durante as audições que fiz do disco. “Kill The Orchestra” começa com um piano onírico sob alguns vocais serenos. A banda a princípio parece que vai entregar apenas uma melodia cristalina e límpida, mas de repente entra um riff djent e cria uma fusão de gênero de certa forma inusitada. Sem dúvida alguma aqui Godfrey decidiu mostrar uma grande variedade de sons vocais, algo que inclusive acaba funcionando muito bem na faixa. Tudo isso sempre apoiado por algumas seções musicais épicas, para assim, chegar a um resultado final encantador. “Repeat To Fade” começa com algumas batidas de bom groove. Apresenta alguns vocais operísticos ao fundo e ritmos com variações e repetições. A vibração dos anos oitenta ouvida durante todo o álbum permanece aqui. O refrão dessa peça é muito poderoso e contundente, porém, acho que ele repete vezes demais e isso pode acabar enjoando. Mesmo assim, uma ótima maneira de encerrar o disco.  

Day and Age é daqueles discos em que eu costumo dizer que funcionam melhor quando ouvimos alto e no escuro, além de com bons fones, claro. Um álbum repleto de emoção e sensibilidade; uma verdadeira pérola musical com uma enorme ênfase em ritmos e poucos solos. Uma excelente jornada onírica que representa a quintessência do rock progressivo moderno, onde ao mesmo tempo em que possui o Frost* já conhecido por todos, também tem uma perspectiva um pouco mais variada do que ouvimos em discos anteriores.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Day And Age

Álbum disponível na discografia de: Frost*

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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