Resenha

Avalon

Álbum de Roxy Music

1982

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

12/08/2021



Uma grande despedida embalada na elegância do pop rock e synth-pop

Chegamos aqui ao derradeiro trabalho de estúdio do Roxy Music, e devo dizer que, embora os primeiros sejam os melhores em minha opinião, meu ingresso ao fantástico mundo de Bryan Ferry & Cia ocorreu justamente por meio dos acordes de “Avalon”. O título do disco foi inspirado na Mitologia Celta, designando o nome de uma ilha lendária onde a espada Excalibur do Rei Artur foi forjada, e posteriormente o local para onde o próprio Artur foi levado para se recuperar dos ferimentos sofridos na Batalha de Camlann. 

Tal clima de reclusão e até, de certa forma, despedida, soa bastante apropriado em termos metafóricos ao contexto de produção da obra, haja vista que o registro foi gestado num período de isolamento do líder-vocalista Bryan Ferry no interior da Irlanda, onde se encontrava casado e curtindo uma vida menos badalada (para ser mais exato: regozijado num momento família). E, também, que o encerramento da banda ocorreria, infelizmente, um ano após este lançamento. 

Nesse sentido, esse misto de adeus e ao mesmo tempo de busca por novas possibilidades aparece de modo bastante perceptível no resultado final do álbum, cujas temáticas líricas foram estruturadas basicamente a partir de poemas inspirados nas lendas arturianas e compostas de versos de verve majoritariamente melancólica. Em termos de sonoridade, esqueça aquele glam rock animado do início de carreira, pois este disco seguiu uma trilha completamente distinta, caracterizada mormente por ambientação mais introspectiva e construída em camadas de sintetizadores viajantes, batidas lentas e vocalizações charmosas que preenchem as paisagens sonoras e que assumem, às vezes, uma surpreendente função instrumental.    

A banda continuava com o trio que havia gravado o trabalho anterior, Flesh + Blood (1980), ou seja, Bryan Ferry (vocais, teclados e sintetizadores), Phil Manzanera (guitarra) e Andy Mackay (sax e oboé). Mas contou com inúmeros músicos convidados, a exemplo do guitarrista Neil Hubbard, dos baixistas Alan Spenner e Neil Jason, do baterista Andy Newmark e do pianista Paul Carrack.   

Quando as primeiras notas de “More Than This” aparecem, pode ficar a impressão de que se trata de um trabalho de mera vocação pop e radiofônica, o que não é totalmente verdade, ainda que seja indiscutível que em boa parte do tempo a banda gire em torno de um pop rock e synth-pop palatáveis. Vale dizer que encontro nesta faixa fortes memórias afetivas, aliás, se não me engano, foi a minha primeira experiência auditiva com o Roxy. “More Than This” alcançou o sexto lugar nas paradas do Reino Unido. A música fora ensaiada para a turnê de Avalon, mas acabou sendo meio abandonada após o primeiro show em Dublin. Posteriormente, seria executada nos primeiros shows da turnê de reunião em 2001 em um tom abaixo, pois Bryan considerava mais confortável cantá-la assim. O que concordo inteiramente!! 

Em seguida vem "The Space Between", uma mistura de disco music e soul que carece, no entanto, de mais sabor, colorido e dinâmica. A faixa-título é uma canção típica do Roxy, explorada em cima da capacidade inegável de crooner de Ferry que claramente monopoliza as atenções aqui. Um single fleumático e linear que atingiu o número 12 no Reino Unido. 

“India” por sua vez é uma faixa instrumental e calminha que tem quase um papel de interlúdio para uma das minhas preferidas, "While My Heart Is Still Beating", que transcorre em compasso lento e intrigante levada basicamente por um baixo sedutor, teclados e guitarra, adicionados a notas eventuais de um sax hipnótico de Mackay. Destaque, mais uma vez, para a interpretação comovente de Ferry. 

"The Main Thing" caminha na estrada pavimentada por "While My Heart Is Still Beating", porém, sem conseguir o mesmo êxito. Chega até a apostar num certo experimentalismo, mas nada que lembre algo próximo à genial “The Bogus Man", de “For Your Pleasure” (1973), por exemplo.  

O pequeno deslize cometido no início da segunda parte logo é corrigido por "Take A Chance With Me”, outro destaque do disco que exala uma ótima melodia e consegue ser cativante do começo ao fim. Foi o último single do Roxy lançado durante a vida da banda e atingiu o número 26 nas paradas do Reino Unido. Já "To Turn You On" apoia-se nos vocais meio falados de Bryan na introdução. Apesar de apresentar um bom trabalho de guitarra e piano, confesso que nunca me conquistou. 

No finalzinho temos ainda o synth elegante de "True To Life", outra música bastante agradável, que, calcada na percussão e voz, consegue criar uma atmosfera atraente e climática, e "Tara, outra instrumental curta capitaneada pelo sax de Mackay com outra ambientação bem interessante.  

“Avalon” ostenta uma das capas mais bonitas de todos os tempos (e digo isso não apenas em relação à discografia Roxy), estampa um guerreiro medieval e um falcão fotografados de costas como se estivessem no alto de uma montanha e acima das nuvens. O fato inconteste é que este disco foi um grande sucesso comercial, alcançando o primeiro lugar nas paradas de álbuns do Reino Unido, além de ter se tornado o álbum do Roxy com maior vendagem nos Estados Unidos. No ano de 1989, “Avalon” foi classificado em 31º na lista: "Os 100 Melhores Álbuns da Década de 1980" da revista Rolling Stone, que em 2003, voltou a citá-lo na posição 307 dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos. 

Para além dos números, ranking etc, mesmo que não tenhamos aqui a versão clássica do Roxy Music, tão amada, cultuada e aplaudida de outrora, como mencionado no início desta análise, estamos diante de uma despedida que permanece sendo prova inequívoca da qualidade, grandeza e sofisticação de uma das bandas mais prolíficas e encantadoras do mundo. Viva Roxy Music!


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Avalon

Álbum disponível na discografia de: Roxy Music

Ano: 1982

Tipo: CD/LP

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