Resenha

Siren

Álbum de Roxy Music

1975

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

10/08/2021



Um disco que evoca o soul e o rhythm and blues embalados num pop funky

Após quatro ótimos discos, o Roxy Music continuava em “Siren” a sua saga gloriosa. Enquanto os imediatos antecessores Stranded (1973) e Country Life (1974) alcançaram o equilíbrio perfeito entre explorações artísticas abiscoitadas por uma estirpe de ousadia que se dividia entre o glam e o art rock, este álbum assenta numa praia, digamos, menos arrojada, mas não menos virtuosa. A polidez sonora habitual também é evidente aqui, mas o grupo parece mesmo preocupado em proporcionar composições concisas e lineares, pautadas num pop de vertente mais acessível. 

A batida sexy do Roxy aliada ao timbre suave de Bryan Ferry, que agora ostentava uma imagem de playboy vestido em seu charmoso smoking, fazia do grupo uma força sui generis e alternativa à disco music, que atingia seu auge justamente naquele momento da história. Curiosamente, é a própria faixa de abertura, “Love is the Drug”, cuja vocação balançante é mais que cristalina, que haveria de se tornar um grande hit da banda. Nascida da parceria entre Andy Mackay e Bryan esta música seria regravada mais tarde pela diva Grace Jones em seu seminal álbum “Warm Leatherette”, de 1980. Lançada como single em setembro de 1975, “Love is...”  atingiu rapidamente o segundo lugar na parada inglesa.

O álbum não para por aí, incluindo outras ótimas faixas, a exemplo da descontraída "End of the Line", onde o esplêndido violino de Eddie Jobsen se destaca junto com uma gaita e piano não menos evocativos, e da sinuosa "Sentimental Fool", cuja introdução segue calcada numa guitarra misteriosa de Manzanera e nos teclados atmosféricos de Eddie Jobson, até se transformar repentinamente numa espécie de hino paradoxal à dor doce e amarga do amor romântico e ao fascínio que faz palpitar os corações frágeis. Com a bateria de Thompson, a guitarra de Manzanera, as teclas de Jobsen e o vocal variável de Ferry funcionando perfeitamente. 

Já "Whirlwind" é um rock contagiante guiado pelo baixo pujante de Jon Gustafson, bateria marcante de Thompson e pelos excelentes solos de Manzanera. 

Logo em seguida aparece "She Sells", que mantém as coisas em ritmo acelerado e traz mudanças de tempo interessantes, ritmada no piano e bateria incríveis, com o violino de Jobsen adicionando dinâmica e o sax de Mackay adornando eventualmente a paisagem. Daquele tipo de música que nos pede para aumentar o volume e sorrir de contentamento. Puro alto astral!! 

Enquanto “Could It Happen To Me?” parece uma mistura sóbria de pop e soft rock, "Both Ends Burning", uma das melhores na minha opinião, aposta numa veia levemente dançante, e, embora não avance para um território disco music, aflora abundantemente o DNA Roxy. "Nightingale", coescrita por Ferry e Manzanera, é outro bom momento do álbum, onde a guitarra, baixo, bateria e violino constroem uma estrada segura e bem tracejada, mas igualmente deleitosa.  

O encerramento fica por conta da temperamental "Just Another High", canção mais longa do disco, que remete a "A Really Good Time" de “Country Life”. Um gran finale que tem Ferry lamentando um amor perdido (...Talvez você esteja pensando em mim / Bem, eu não sei, agora sei? / Se você soubesse como me sinto / Gostaria de morrer, não é? / Eu sou apenas mais um cara louco...)

Contando com uma bela arte de capa (para variar!) protagonizada pela encantadora modelo norte-americana Jerry Hall, então namorada de Ferry que casaria depois com Mick Jagger, “Siren” representa o auge da inventividade e maturidade da banda, além do ápice de popularidade. Um disco irrepreensível da primeira à última faixa, que evoca o soul e o rhythm and blues e consegue embalá-los numa maliciosa textura funky, onde cada canção parece ter sido obsessivamente lapidada até chegar ao estado de riqueza na forma de pequenos diamantes sonoros e epifanias espantosas, as quais serviram, sem qualquer dúvida, como importante fonte de inspiração para grupos como Blondie, Talking Heads, Duran Duran entre outros.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Siren

Álbum disponível na discografia de: Roxy Music

Ano: 1975

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,67 - 3 votos

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