Resenha

Les Porches

Álbum de Maneige

1975

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

07/08/2021



Exercícios desafiadores infundidos com abordagens harmônicas criativas

Como que eu poderia descrever essa música orgástica e absolutamente magistral? Tirando por esse disco, onde uma de suas peças possuem vocal, Maneige é um grupo instrumental que permite que desde o início o ouvinte fique ciente de que estará diante de uma banda em que todos os músicos irão tirar o máximo proveito dos seus instrumentos, não permitindo assim, nenhum tipo de desatenção para que tudo seja absorvido de forma plena. A maneira com que o grupo entrelaça instrumentos acústicos com elétricos é fenomenal. O rock progressivo encontrado aqui não se encontra apenas em uma vertente do gênero, pois além de seções de fusion, a banda também entrega jazz, folk e uma porcentagem incomum de música clássica, porém, nada surrupiado de compositores clássicos.  

“Les porches de Notre-Dame" com os seus quase vinte minutos e seis movimentos é quem abre os trabalhos no disco. Esse é aquele tipo de música em que é colocado a porção exata de pompa dentro do rock progressivo sinfônico, mostrando por exemplo, performances de piano virtuosamente selvagens inspiradas em grandes mestres clássicos do passado. Já em sua abertura a peça mostra-se linda por meio de algumas flautas delicadas e um baixo contra pontual, além de uma mistura intensa entre o folk barroco e o progressivo. Conforme o comando vai ficando gradualmente ditado pelo piano e as cordas aumentam de intensidade, é interessante ouvir uma passagem vocal cheia de dor e paixão - principalmente pelo fato de a banda ser uma banda instrumental e esse vocal ser único. Do começo ao fim, “Les porches de Notre-Dame", é uma peça em constante evolução. Vale destacar também depois dos vocais um solo de trombone simplesmente arrepiante e uma jam rock intensa. Uma verdadeira obra-prima que já vale por todo o disco, mas tem mais. “La grosse torche” é uma curta peça sinfônica tocada por um quarteto de cordas, mas que confesso que não faria falta se não tivesse no disco.  

“Les aventures de saxinette et Clarophone” é outra entre as duas maiores peças do disco, com os seus mais de quinze minutos e dividida em quatro movimentos. É possível notar aqui um pouco do espirito da Canterbury Scene. Sax e clarinete em muitas partes da peça não são apenas as estrelas do show, a selvageria com que eles atacam a música simplesmente eclipsam os demais instrumentos tamanhos são a intensidade dos seus brilhos. Talvez o final possa ser considerado de uma extravagância excessiva e um pouco caótica, mas eu já acho que ficou na medida certa.  

“Chromo part I” e “Chromo part II” são as duas outras peças mais curtas e que encerram o álbum. Elas no dizem de uma maneira abrupta que apesar do disco já nos ter entregue uma enxurrada de músicas de qualidade, ele ainda não acabou. Um riff de baixo toma a dianteira e mais do que nunca parece que os músicos estão apenas se divertindo no estúdio por meio de uma banda completa com bateria, flauta e clarinete se destacando alegremente. Por mais que as linhas de baixo permaneça muito forte o tempo todo, todos os demais instrumentistas têm a oportunidade de apresentar uma boa ideia a qualquer momento. Admirável também é a facilidade com que a banda passa de humores sombrios para linhas edificantes. Confesso que quando ouvi esse disco pela primeira vez, achei que esse final com duas músicas curtas – 2:36 e 1:37 - não fosse dizer muita coisa, mas eu estava completamente enganado e me deparei com um encerramento de álbum surpreendentemente ótimo.  

Considero esse disco uma verdadeira obra-prima, mas admito que foram mais de uma ou duas escutas para que ele se expandisse e crescesse em mim até atingir o nível que eu o coloco hoje, em que o meu deleite em relação as suas músicas é algo consistente do começo ao fim. Por tanto, se ele não o agarrar de primeira e você estiver menos surpreso do que esta crítica bajuladora sugere que você deveria estar, não o ignore ainda e lhe dê mais uma ou duas chances.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Les Porches

Álbum disponível na discografia de: Maneige

Ano: 1975

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

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