Resenha

Born To Die (The Paradise Edition)

Álbum de Lana Del Rey

2012

CD/LP

Por: Roberto Rillo Bíscaro

Colaborador Especialista

02/08/2021



Ensinando-nos a ser "americanos"

Lana del Rey foi reempacotada: Born to Die relançado com 8 faixas novas. 

A amada/odiada Del Rey não mudou sua personagem de musa de filme B anos 50 temperada com cinismo pós-moderno. Ora rampeira, ora sofredora. Investindo fundo em nossos fetiches mais recônditos; nos acenando com o prazer perigoso do sexo, do tabaco, da velocidade e do álcool. Tudo milimetricamente calculado.

Sonoramente, nada mudou também: climas trip hop embebedados em suntuosas orquestrações remetendo aos idealizados anos dourados.

Para nós - colonizados a ponto de nos enganarmos de que quase somos um bocadinho norte-americanos – a “edição Paraíso” de Born to Die é uma coleção muito familiar de Americana (em inglês, refere-se a tudo relacionado àquele país).

As referências a sair pelo mundo de carro – meio sem destino – abundam. Aquela ideia ianque de liberdade, que mascara total falta de rumo. Ride abre o álbum nesse tom. Percussão esparsa, orquestração deslumbrante, épico irresistível com a voz superenfumaçada de uma Del Rey fingindo cansaço existencial.

A lição em americanice explicita-se em American coma menção ao icônico Bruce “Born-in-the-USA-“Springsteen. Em meio ao dedilhado bluesy de Body Electric, Lana declara-se filha de Elvis, Walt Whithman e Marylin. Na gótica, premeditadamente herege e maravilhosa Gods & Monsters, La Lana revive Jim Morrison. Born To Die – Paradise Edition proselitiza a gente a ser ianque.

Brasileiro que não entende inglês me cansa a beleza quando reclama da “imoralidade” do funk carioca, enquanto consome canções ianques que têm um palavrão por cada linha (cacófato de propósito). Esse “puxadinho” de Born to Die tem sua quota de blasfêmias e palavrões. Gostaria de saber a reação dessas pessoas se entendessem o verso inicial de Cola, “my pussy tastes like Pepsi Cola”.

Mais importante que o faniquito é pensar no significado de uma xota ter gosto de Pepsi. O refrigerante é derivativo (como a obra de Lana) de um dos símbolos d’americanidade. Se uma parte do corpo tem gosto desse símbolo, poder-se-ia intuir que a nacionalidade virou dado natural? Del Rey é del império norte-americano, crianças.

Atmosfera de trilha sonora de filme cinquentista é segunda natureza nos trabalhos dessa diva du jour. Blue Velvet foi regravada para ficar com cara do filme oitentista homônimo de David Lynch. Deu saudade de Dennis Hopper e quase deu vontade de me importar com o diretor novamente.

Dentre tantas canções novas, minha favorita foi uma “velha”! Devotos conhecem Yayo – em versão diferente e inferior - desde os tempos do estouro da já clássica Video Game. A voz de Lana vai de grave a fina, de sazonada a angélica, de confiante a titubeante. Em meio à malemolência bluesy esparsa e cinemática, ela nos fustiga a libido com perversão de menininha: “deixa eu fazer um showzinho pra você papaizão/deixa eu fazer um showzinho pra você tigrão.” April Stevens vive.

Lana continua mundana. Que seja fabricada e imperialista; não me importa. Sigo súdito de Lana Del Rey. E de sua “mãe” Marylin.


Nota: As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor



Comentários

Faça login para comentar

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.

Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito, aberto e democrático para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.



Sobre Roberto Rillo Bíscaro

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 11/09/2017

Veja mais algumas de suas publicações:

  • Image

    ResenhaLuísa Lacerda, Paulo Francisco Paes e Ilessi - Estar Ao Redor (2021)

    12/01/2022

  • Image

    ResenhaLa Roux - La Roux (2009)

    28/09/2021

  • Image

    ResenhaJordsjø - Nattfiolen (2019)

    07/02/2020

  • Image

    ArtigoMúsica “brega”, indústria fonográfica e crítica musical no Brasil nos anos 1970

    29/05/2021

  • Image

    ResenhaCool Million - Stronger (2019)

    16/04/2020

  • Image

    ResenhaPeople Who Do Noise

    16/06/2021

  • Image

    ResenhaArthur Verocai - Arthur Verocai (1972)

    09/01/2021

  • Image

    ResenhaSergio Pererê - Coração de Marujo (2020)

    05/06/2021

  • Image

    ResenhaGruff Rhys - Seeking New Gods (2021)

    07/11/2021

  • Image

    ResenhaThe Seshen - Cyan (2020)

    01/01/2021

Visitar a página completa de Roberto Rillo Bíscaro



Sobre o álbum

Born To Die (The Paradise Edition)

Álbum disponível na discografia de: Lana Del Rey

Ano: 2012

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

Avalie

Você conhece esse álbum? Que tal dar a sua nota?

Faça login para avaliar

Visitar a página completa de Born To Die (The Paradise Edition)



Continue Navegando

Através do menu, busque por álbums, livros, séries/filmes, artistas, resenhas, artigos e entrevistas.

Veja as categorias, os nossos parceiros e acesse a área de ajuda para saber mais sobre como se tornar um colaborador voluntário do 80 Minutos.

Busque por conteúdo também na busca avançada.