Resenha

Common Ground

Álbum de Big Big Train

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

31/07/2021



Se recriando sem perder a essência

Quando falamos de Big Big Train, não falamos apenas de mais uma banda de rock progressivo moderno, mas de um dos verdadeiros pilares do que chamamos da terceira onda do gênero. Cada um dos lançamentos da banda mostra um grupo que opta por manter a sua tradição de narrativas dramáticas, mas também abordando questões muito mais próximas das encontradas em lares comuns, como os bloqueios trazidos pela Covid 19, a separação de entes queridos, a passagem do tempo, a morte de pessoas próximas, a esperança interna que pode renascer por meio de um grande amor.  

É perceptível que o som da banda sofreu uma leve mudança. Common Ground não apresenta uma sonoridade tão pastoral ou retrô quanto a que estamos acostumados em ouvir, pois embora seja possível notar facilmente esses elementos, a entrega aqui é de um rock progressivo mais moderno, fresco e até peculiar. Mais do que de costume, a música depende dos sempre maravilhosos vocais de David Longdon. Durante as suas pouco mais de uma de duração é possível se deparar até mesmo com algumas seções pesadas que pegam qualquer ouvinte da banda de surpresa.  

Após a saída de Rachel Hall (violino), Dave Gregory (guitarra) e Danny Manners (teclados), peças importantes e que já estavam com a banda a um bom tempo, o núcleo do grupo passou a ser formado por David London (vocal principal e flauta), Greg Spawton (baixo), Rikard Sjöblom (guitarras, teclados e vocais) e Nick D’Virgilio (bateria e vocal). Juntaram-se a eles Carly Bryant (teclados, guitarras e vocais), Dave Foster (guitarra) - que toca duas faixas do disco – e Clare Lindley (violino e vocal). Todos também irão se juntar à banda para a próxima turnê, além do já clássico conjunto de metais composto por cinco integrantes.  

A minha ansiedade envolta a esse lançamento, muito provavelmente faria com que eu emitisse uma opinião extremamente parcial em relação ao seu som, e com isso eu não iria avaliá-lo como eu costumo fazer com qualquer disco. Foram oito audições seguidas, onde na primeira eu tive basicamente impressões familiares e que eu sempre espero da banda, mas a cada nova audição, fui percebendo também algo novo e dinâmico. Como qualquer disco da banda, não é justo ouvi-lo apenas uma vez e dar uma opinião, pois captar os seus detalhes requer uma investigação mais profunda.  

“The Strangest Times” começa o disco em um tom bastante otimista por meio de algumas linhas brilhantes de piano com boa influência em Elton John. Os vocais de David não podiam estar melhores. As linhas de guitarra também soam maravilhosamente bem. Um começo de disco do tipo que a gente escuta enquanto abre um belo sorriso no rosto – mesmo que a letra mostre David escrevendo sobre bloqueios causados pela Covid, separação de entes queridos e morte de pessoas próximas.  

“All The Love We Can Give” traz o disco para uma sensação mais melancólica por meio do teclado, além dos vocais de David apresentarem um tom mais profundo – D'Virgilio também canta nessa faixa. Alguns trabalhos de órgão hammond são contemplativos e a guitarra ao fundo trabalha como uma espécie de maestro que conduz a música muito bem. Em seu momento mais progressivo, a banda se entrega com muita energia e cria uma musicalidade bastante intrincada.  

“Black With Ink” certamente é uma das melhores músicas animadas, digamos assim, que a banda já gravou na carreira. Possui uma excelente interação vocal. Se com uma música dessa a banda quer mostrar mais uma das inúmeras direções que ela quer seguir, certamente eu iria adorar. A segunda metade da música é ainda melhor, começando a partir de um interlúdio atmosférico e que vai ganhando força por meio principalmente de um excelente solo de sintetizador. Uma faixa belíssima.  

“Dandelion Clock” é aquele tipo de música que provoca no ouvinte uma sensação nostálgica e pensativa deliciosa. Os vocais de David aqui soam no seu estado mais plangente e sincero. Eu como um grande admirador de refrão, considero este uma verdadeira obra de arte. Certamente essa peça se trata de um dos momentos de mais requinte do disco, podendo elevar o estado de espirito do ouvinte a algo bastante reflexivo e introspectivo.  

“Headwaters” é a primeira de duas peças instrumentais que compõem o disco. Com pouco menos de dois minutos e meio, é a menor faixa de Common Ground. Possui uma atmosfera belíssima criada por um piano onírico. “Apollo” é a segunda das peças instrumentais. Aqui as coisas soam muito mais enérgica e vibrante. A influência aqui é bastante forte em nomes clássicos do jazz fusion como Jean Luc-Ponty, Weather Report e Mahavishnu Orchestra. Uma peça de várias nuances onde todos os membros da banda têm a chance de brilhar, incluindo o conjunto de metais.  

“Common Ground” apresenta a banda em um clima de hino bastante poderoso entregue de uma maneira que só a Big Big Train consegue fazer. Algumas harmonias vocais elevadas, melodias lindíssimas e uma musicalidade excelente criam uma peça bastante enérgica e apaixonada, fazendo com que o ouvinte consiga absorver bem a mensagem interior. Uma das características que adoro na banda são as interações entre violino e guitarra, algo que aqui é feito de forma soberba. Já imagino essa sendo a música do disco em que o público mais irá cantar com o coração quando os concertos da banda regressarem.  

“Atlantic Cable” é um típico épico e que vem sendo tradição nos últimos discos da banda, de uma narrativa histórica que consegue ser expressada por meio de um rock progressivo pastoral britânico usando o que ele tem de melhor. Aqui a história é a colocação de um cabo de comunicações de 3.000 milhas através do oceano no século XIX para melhorar as comunicações telegráficas. Greg Spawton sempre costuma dizer que gosta de ter algum assunto como foco para compor suas canções, e recentemente após descobrir o livro Webster & Horsfall & The Atlantic Cable – não possui versão em português - de Stephen Robert, ele viu a inspiração que precisava para compor algo sobre o assunto. Novamente a banda acerta em cheio e consegue transmitir nos seus pouco mais de quinze minutos uma música que parece sair direto do coração e da alma. Faixas como essa que fazem da banda um dos verdadeiros baluartes do rock progressivo moderno. Momentos mais sensíveis e delicados que se misturam a passagens musicais intrincadas para criar uma verdadeira obra de arte que sempre irá passar no teste do tempo. No final das contas, “Atlantic Cable” não tem apenas todos os cartões de visita dos épicos anteriores, mas também carrega algumas subversões musicais. 

“Endnotes” é a peça que encerra o disco de uma forma muito emotiva. Muito bem desenvolvida em uma melodia bastante elegante e cheia de requinte. É mais uma música que exemplifica na prática o porquê David ser um vocalista tão reverenciado, sua voz aqui sangra paixão e sentimento – atingindo perfeitamente o ouvinte. O uso dos metais nessa faixa é simplesmente arrepiante, não existe palavras certas que possam definir isso, só ouvindo e sentindo. Que final de disco mais incrível.  

Common Ground conseguiu entregar tudo aquilo que um admirador da banda espera receber. Mesmo que inegavelmente possa ser perceptível algumas mudanças de estilo de composições usuais da banda em certos pontos do disco, muitos dos elementos marcantes para encantar os puristas estão presentes e a abordagem do tema conceitual para as músicas está lá em abundância. As performances de todos os membros estão bem fortes e os novos membros conseguiram deixar suas marcas na banda, dando a ela um nem pior nem melhor, mas novos temperamentos e sabores musicais.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Common Ground

Álbum disponível na discografia de: Big Big Train

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,67 - 3 votos

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