Resenha

Hinterland

Álbum de Wobbler

2005

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

29/07/2021



Uma gama de sons clássicos exibidos de uma maneira fértil e criativa

O Wobbler teve o seu início no começo de 1999 nas terras geladas do norte da Noruega, no meio do auge da popularidade do black metal escandinavo, porém, de alguma forma acabou se direcionando para lado do rock progressivo. A banda não apenas seguiu decididamente a rota das complexidades musicais entregues pelas mais altas expressões da música progressiva, mas encontrou a maior inspiração na era clássica, com contribuições estilísticas particulares dos figurões da época, como King Crimson, Yes, Museo Rosenbach, Premiata Forneria Marconi, Emerson Lake & Palmer e muitos mais. Em vez de criar algo que poderia parecer amador, a banda dedicou o seu precioso tempo para transformar cuidadosamente seu devaneio de estilo musical em algo que respeitosamente emularia o progressivo retrô da era de ouro, optando assim, por vários anos de turnê antes de finalmente tomar a decisão de lançar o seu álbum.  

Vale ressaltar também que durante esse tempo, o tecladista Lars Fredrik Frøislie acumulou uma coleção impressionantes de teclas vintage que incluíam o muito necessário mellotron, um órgão hammond, minimoog, ARP, um piano e, claro, um cravo. Em 2005 foi quando a banda se viu com material suficiente para lançar um álbum, começando a tocar trechos desse material em festivais de rock progressivo e shows locais, lançando seu disco de estreia, Hinterland, logo em seguida. Uma proposta de um progressivo retrô autêntico que incluía apenas instrumentação vintage encontradas na linha do tempo de 1969-1979.  

 O disco abre por meio por meio da faixa título - após uma breve introdução de 40 segundos chamada “Serenade for 1952”. Um épico de quase vinte e oito minutos, uma duração sempre perigosa, pois a linha entre um épico incrível e uma faixa cansativa pode ser bastante tênue em casos assim. Mas não há motivo para se preocupar aqui, pois a música flui perfeitamente bem com muitas mudanças de estilos e andamento, nunca se perdendo e sempre soando muito coerente. Em cada um dos segmentos, a banda produz a música de forma que cada instrumento desempenhe o seu papel de maneira distinta. Na sua parte inicial é possível associar o som a Anglagard e Anekdoten, mas os seus segmentos seguintes – principalmente aqueles com flauta – me lembram mais o som da Sinkadus. Tudo muitas vezes soa tão delicado. Em alguns momentos também é possível lembrar a parte de ritmo mais rápido de "21st Century of Schizoid Man" do King Crimson.  

“Rubato Industry” começa por meio de uma combinação de trabalhos do guitarrista Morten Andreas Eriksen e do tecladista Lars Fredrik Frøislie. Possui uma sonoridade muito influenciada pelo Anekdoten com bastante sons de mellotron e vários outros tipos de teclados. A forma como a peça se move é muito interessante, em arranjos complexos novamente em linhas ao melhor estilo King Crimson. A música é bastante aventureira com alguns paradoxos decorrentes de diferentes sons de teclados, guitarras aumentadas com baixo e solo de sintetizador. Uma faixa muito bem elaborada do começo ao fim.  

“Clair Obscur” é uma peça instrumental de mais de quinze minutos e que encerra o disco. Soando como Anglagard, trata-se de uma composição bastante complexa. A banda posicionou esta faixa no final do álbum com a intenção - ao menos foi essa a ideia que me pareceu - de dar uma impressão aos ouvintes de que este é o ponto culminante de seu árduo trabalho em compor a música que eles oferecem. Novamente uma peça com muitas rajadas de teclas, trabalho fervoroso de uma cozinha em chamas e guitarras belíssimas e de técnica apurada.  

Mas qual o saldo final de Hinterland? Apesar da banda querer apresentar uma proposta autêntica, devo admitir que não há nada de novo no som desse álbum - mesmo que soe impressionante em vários pontos -, principalmente se compararmos com os seus dois últimos registros e verdadeiras obras-primas, From Silence To Somewhere e Dwellers Of The Deep, onde de fato eles atingiram os seus reais objetivos. Mesmo assim, não a como negar que a banda em Hinterland fornece uma gama maravilhosa de sons distintamente clássicos exibidos de uma maneira altamente fértil e criativa que exala uma atenção excessivamente entusiástica dada a cada detalhe de suas músicas.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Hinterland

Álbum disponível na discografia de: Wobbler

Ano: 2005

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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