Resenha

Every Third Thought

Álbum de David Duchovny

2018

CD/LP

Por: Tarcisio Lucas

Colaborador

28/03/2018



Mais Indie, menos Folk...mas ainda relevante!

O primeiro álbum de David Duchovny, devo confessar, foi uma grata surpresa. Apesar dos vocais um tanto quanto vacilantes, o álbum era repleto de bons momentos, excelentes composições, uma banda de músicos competentes, e uma produção correta. Alternando entre momentos introspectivos com outros mais elétricos,  o músico passou seu recado, além de criar boas expectativas a respeito dos futuros lançamentos. Dois anos se passaram, e eis que um novo disco foi lançado.
 O músico entregou tudo aquilo que o debut prometia?
A resposta é: Sim, e não. Talvez o seu envolvimento com sua atividade principal - atuar – tenha comprometido o engajamento dele com esse projeto. Afinal, nesses 2 anos entre esse disco e o anterior, o ator teve que cumprir uma pesada agenda junto a série que lhe deu fama e fortuna, o “The XFiles’. Mas vamos analisar mais atentamente o por que desse “sim”, do “não”.
“Sim”, pois estão lá muitos elementos que fizeram do primeiro disco um álbum agradável: as letras, dessa vez, estão ainda melhores, sendo esse sem sombra de dúvida o grande talento de David Duchovny em relação á música. A banda, que se manteve estável, está realmente entrosada, tanto que até mesmo algumas músicas, melodias e letras são contribuições diretas de outros membros que não David. A produção continua boa, os timbres bem escolhidos. Acima de tudo, as linhas melódicas continuam sendo simples sem serem simplórias.
E “não”, pois houve uma grande diminuição de vários elementos que brilharam no disco inicial: as partes folks, grandes destaques, ficaram reduzidas a apenas duas, quiçá três músicas. De resto, houve uma “eletrificação” do som, que agora está muito mais Indie rock do que folk propriamente dito. Mas confesso que isso é muito mais uma questão de gosto pessoal do que de qualidade apresentada; dentro do estilo, é um trabalho consistente.
Mas o grande problema encontrado acaba sendo, de fato, a performance vocal do músico.
É fácil constatar que não houve uma evolução vocal entre os álbuns. Em alguns momentos, temos a nítida impressão que o trabalho vocal do disco inaugural foi melhor do que o apresentado aqui, mesmo tendo se passado esse tempo,
Talvez o músico não tenha tido tempo de aperfeiçoar sua performance, visto seus compromissos com a série de TV. Mas fato é que em vários momentos a voz do cantor oscila entre a insegurança e a desafinação. Nada muito dramático, visto o cantor ter um timbre de voz bastante agradável, mas que causa incomodo em certas passagens.
Mas deixemos de lado essas reflexões, e vamos falar dos bons momentos do disco. Destaco abaixo algumas faixas que considero significativas.

 "Half-Life", que inicia o disco, é  um indie rock na levada de bandas como The Editors e The National. Uma música interessante. A banda está bastante afiada, os arranjos estão bem mais ousados que no álbum anterior, o introspectivo “Hell or Highwater”. A letra fala sobre ciência (“meia-vida” é um termo usado na química e na física para se referir a algumas propriedades que alguns elementos químicos possuem) e relacionamentos perdidos, uma abordagem criativa e diferenciada. Aqui temos aquela que será uma característica de todo o álbum: linhas vocais simples e que nos captura logo em uma primeira audição.
Em "Every Third Thought" novamente a guitarra distorcida ganha destaque, uma música excelente – novamente a faixa título se mostra a mais significativa do álbum todo – melodia vocal bastante consistente, alternando entre o rock clássico e o blues. O arranjo da banda novamente entrega qualidade e bom gosto. Interessante notar que o cantor continua com sua voz até certo ponto limitada, mas que a banda sabe trabalhar dentro de cada canção. Uma música singela que fala sobre obsessões.
"Maybe I can’t" resgata o clima do disco anterior. Temos aqui um folk melancólico onde o violão acompanha a voz. Uma quebra interessante com as 2 músicas anteriores, repleta de questionamentos sobre a vida e espiritualidade. Um trabalho de bateria primoroso. Um dos momentos mais poéticos do álbum.
"Stranger in The Sacred Heart" é música mais confessional de toda a carreira de Duchovny, discursando sobre seu pai, falecido em 2003. Musicalmente, um misto de indie rock inglês com um rock mais básico, com um arranjo tímido de violino.
"Mo’" vem com uma vibe totalmente “Bob Dylan”; mais um momento tranquilo do disco.
"Last First Time" por sua vez é uma música com clara inspiração de Bruce Springsteen
E o álbum se encerra de forma melancólica com “Marble Sun”.

Em resumo, um disco menos surpreendente, menos melancólico, mais atual. Esperava-se mais, mas é bom o suficiente para nos manter esperando pelo próximo, onde talvez vejamos todas as possibilidades do músico exploradas ao máximo.


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Sobre o álbum

Every Third Thought

Álbum disponível na discografia de: David Duchovny

Ano: 2018

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3 - 1 voto

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