Resenha

Starsailor

Álbum de Tim Buckley

1970

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

02/07/2021



Um delírio sombrio e experimental inesquecível

“Starsaillor” talvez seja o álbum mais estranho e pessoal de Tim Buckley, saiu pelo selo Straight Records e foi produzido pelo próprio cantor, que havia levado um pé na bunda da gravadora Elektra, já cansada de apostar numa versão popstar de Buckley que ancorasse numa praia mais comercial, digamos assim.  

Na verdade, o antecessor e sombrio “Lorca”, assim como “Happy Sad”, que repetiu basicamente a fórmula nebulosa do primeiro, mostravam claramente um Tim buscando redirecionar-se musicalmente para um lado mais experimental e até obscuro, fato que frustrava veementemente as pretensões da Elektra. 

Com tudo isso, o resultado não poderia ser outro, ou seja, os executivos da gravadora desistiram de uma vez por todas de Tim, restando ao artista assumir a sua veia vanguardista, notadamente estimulada pelo baixista John Balkin, que costumava apresentar Buckley a novas sonoridades. Falando em Balkin, vale lembrar ainda que ele trouxe para essa empreitada os irmãos Gardner, Buzz e Bunk, que assumiram os instrumentos de sopro (trompete, sax e flauta). Fechando o time o onipresente Lee Underwood (guitarra, piano e órgão). Outro ponto de estabilidade neste disco parece ser, mais uma vez, a participação do parceiro lírico habitual de Tim, Larry Beckett, que continuava colaborando na composição das letras. 

Desde a abertura feita pela sinistra "Come Here Woman", com os pratos da bateria e o baixo anunciando que Tim está com um espírito muito mal-humorado, já é possível perceber que as coisas se encaminham para uma continuidade dos dois trabalhos anteriores num nível ainda mais acentuado. Aqui o canto em delírio dissonante e polirrítmico de Tim se junta ao violão e ao piano de fundo. Parece um pesadelo totalmente desconectado e ameaçador, com o cantor encarnando uma espécie de Jim Morrison em transe. Não há dúvidas, estamos diante de uma das melhores do disco. A estranheza continua em "I Woke Up", que embora comece devagar tem o baixo e a guitarra adicionando dissonância e perseguindo a voz de Buckley. A aparente tranquilidade e feição quase romântica logo são perturbadas por um comportamento esquizóide, quase um delírio lento e improvisado de jazz regado a um trompete macambuzias de Buzz Gardner. 

"Monterey" por sua vez assemelha-se a um blues canônico no início, porém, o vocal de Tim trata de levá-la para um território desconhecido, permeado de superagudos e nuances charmosas e ao mesmo tempo tenebrosas (não deixo de pensar em Morrison bêbado e urrando como um louco). "Moulin Rouge" soa como uma cancioneta meio ingênua, parece ter o papel de filler para aumentar a duração do álbum, embora não acrescente mais do que dois minutos ao concerto. A face romântica de Buckley chega nas asas de "Song to the Siren", uma melodia calma com a voz de Tim atingindo picos e dando uma boa mostra do que o cantor é capaz.  

O lado B abre com a insana “Jungle Fire”, onde Tim mostra mais uma vez o seu lado negro à Jim Morrison, o instrumental alimenta a loucura de Tim e estabelece com ele um processo recíproco, mas consegue puxá-lo de volta para um groove funk marcante, no qual a sua voz não deixa “pedra sobre pedra” em gritos absolutamente ameaçadores. 

Eis que aparece a faixa-título com sua introdução alucinante e andamento macabro, uma verdadeira viagem aos recônditos mais sombrios de Tim, faixa climática e pavorosa do começo ao fim. Não espere coisa muito diferente de “Healing Festival”, aqui o sax de Bunk Gardner vai liderando o caminho sob uma égide jazzística e criando paisagens sonoras atraentes, mas igualmente desconcertantes. O encerramento é dado por “Down by the Borderline”, onde o trompete espanholizado de Buzz traz um ar funky, talvez um prenúncio do que seria encontrado em “Greetings From LA” (1972), com a guitarra de Underwood, o trompete de Gardner e os fantásticos gemidos de Tim revezando-se em solos selvagens.  

“Starsailor” foi o álbum que ajudou Tim a chegar ao seu ápice emocional, permitindo que o cantor aflorasse suas angústias e inquietações pessoais. Foram-se as longas faixas de “Happy Sad” e “Lorca”, todavia isso não significa que a música aqui tenha perdido em profundidade ou aventura, ao contrário, ela está mais concisa e desafiadora. Ficava claro que aquele jovem trovador do álbum de estreia havia se tornado um artista distante, incompreendido e meio arredio, e que logo se tornaria, inclusive, irrecuperável para muitos. Ao fim e ao cabo, o fato é que surgia mais uma jornada inesquecível do formidável Tim Buckley.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Starsailor

Álbum disponível na discografia de: Tim Buckley

Ano: 1970

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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