Resenha

Gilberto Gil (Frevo Rasgado)

Álbum de Gilberto Gil

1968

CD/LP

Por: Tarcisio Lucas

Colaborador

22/03/2018



Beatles made in Bahia!

Gilberto Gil dispensa apresentações. Dono de uma discografia enorme, que passeia por vários diferentes estilos, o músico é praticamente uma unanimidade dentro e fora da classe artística.

Esse disco, de 1968, é para mim a obra mais significativa de toda sua carreira.
O álbum geralmente recebe o nome de "Frevo Rasgado", título da primeira faixa; isso pois o músico tem outros discos também auto intitulados nesse período, e é um pouco difícil se guiar por dentro da discografia de Gil durante as décadas de 60 e 70.
Em 1968, o mundo estava mudando, e mudando rápido. Um ano antes havia acontecido o chamado "Verão do Amor", como ficou conhecida a explosão do movimento hippie nos EUA e na Inglaterra. Protestos políticos liderados por jovens insatisfeitos pipocavam ao redor do mundo, os líderes dos EUA estavam sendo fortemente criticados a respeito da Guerra do Vietnã, Bob Dylan era um profeta moderno, e além do próprio Dylan, tudo isso embalado pelo som dos Beatles, do Jefferson Airplane, Janis Joplin. 
As portas da percepção estavam sendo explorados com a explosão do consumo de substancias como o LSD, que caminhou de mão dada com o movimento musical que se desenvolvia ali.
E logicamente, nada era mais simbólico do que o quarteto de Liverpool.
Um ano antes, em 67, os meninos de Liverpool haviam mudado a configuração do universo com um disco que pode ser facilmente colocado como o disco mais influente da história da música: o aclamado, amado (e também odiado por alguns) "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band".
Gostando ou não gostando do material apresentado em Sgt Peppers, é impossível não concordar que ali estava registrado, em sons e letras, tudo que aqueles tempos representavam. É impossível entender totalmente o que foram os anos 60 e início dos 70 sem citar esse disco.
Tudo isso teve seus reflexos aqui, em terras tupiniquins. 
A sociedade brasileira estava igualmente confusa: o golpe militar completava seu quarto ano, e a violência, os desaparecimentos e as torturas eram o teor do dia a dia.
Agora vamos aliar esse caldeirão fervente mundial e nacional, à música regional brasileira, especialmente aquela feita no nordeste, e temos então esse disco de Gilberto Gil. 
Um disco psicodélico até sua última essência. Se os Beatles morassem na Bahia, o Sgt. Peppers soaria exatamente como esse disco.
Uma música presente aqui já havia se tornado  um clássico: "Domingo no Parque", que foi defendida por Gil, acompanhado pelos Mutantes, um ano antes, no Festival Record de 1967. Trata-se de uma música com arranjos maravilhosos de Rogério Duprat, e uma letra cheia de camadas e jogos de linguagem. Acompanhando tudo isso, um ritmo que se baseava em musicas típicas de capoeira (a exemplo do que Baden Powel já havia feito com seu "Berimbau").
Mas de forma alguma "Domingo no Parque" é o melhor representante do disco. Na verdade, trata-se de uma das músicas mais "fracas" , se é que é possível falar isso de uma canção tão importante dentro da história da música brasileira.
Mas no álbum, temos pérolas como "Coragem para suportar", extremamente psicodélica e com uma letra de protesto, em plena ditadura. 
"Pega a Voga, Cabeludo", um improviso que era bastante comum de se ver em bandas de Acid rock da época.
Além disso, temos "Procissão", uma estranha junção de crítica religiosa, retrato popular e solos de guitarra à lá George Harrison.
Os arranjos, todos eles, são primorosos, e a gravação, ao considerarmos os recursos da época, é excelente, deixando tudo muito claro, limpo e bem equalizado.
A apresentação gráfica do material - com suas cores berrantes e fotos que beiram o nonsense - traduz em imagem exatamente o que se pretendia com as notas e acordes: transgredir, metamorfosear.
Era a tropicália que mostrava a que veio, depois da bossa nova ter apresentado um Brasil que não se realizou, que simplesmente não aconteceu.
O fato de um disco desse porte ser ainda uma jóia escondida sempre será um mistério para mim. Tivesse esse álbum sido lançado no mercado norte americano, e hoje estaríamos estudando-o em nossas aulas de história.
Enfim, um disco que é um retrato fiel de um tempo de mudanças.

De tempos difíceis que apenas a voz de Giberto Gil conseguiria colocar um pouco de leveza e poesia, mas sem a alienação (proposital) que muitas vezes ocorria na Bossa nova.

Um dos muitos legados desse gênio da música.


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Sobre Tarcisio Lucas

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Sobre o álbum

Gilberto Gil (Frevo Rasgado)

Álbum disponível na discografia de: Gilberto Gil

Ano: 1968

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

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