Resenha

Stand Up

Álbum de Jethro Tull

1969

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

28/05/2021



Começando a assumir feições progressivas

“Stand Up” é segundo álbum do Jethro Tull e já mostra um pouco da veia folk-rock de tendência progressiva que iria destacar a banda entre as maiores da cena. A substituição do guitarrista Mick Abrahams por Martin Lancelot Barre (ex-Motivation, Penny Peeps e Gethsemane) foi, provavelmente, o maior ponto de mutação para a sonoridade do Tull, já que este último trouxe seu belo e peculiar estilo para complementar os dotes musicais variados que a banda ostentaria durante sua longa carreira e seria um dos eixos importantes na implementação da proposta do líder Ian Anderson de abandonar as raízes blueseiras da banda.  

Vale lembrar que as faixas de “Stand Up” foram muito executadas nas apresentações ao vivo do grupo, notadamente por suas excelentes melodias. A versão remasterizada do álbum contém quatro faixas bônus, três das quais foram lançadas em singles, mas não disponíveis em um álbum antes da coleção “Living In The Past”. A propósito, O single “Living...” se tornaria um dos destaques da carreira do Tull e sua batida 5/4 foi revolucionária na época. “Driving Song” teria sido mais adequado em “Benefit”. Já “Sweet Dreams” veio dois meses após o lançamento do disco e possui algumas seções de metais, de cordas e arranjos intrincados. A quarta faixa, “17”, é um rockão que parece um tanto estranho quando olhado no conjunto e que se destacaria, portanto, fora do contexto do álbum, ao contrário das três primeiras. Essa pequena falha, no entanto, não consegue abalar a relevância desta obra e o fato de ser absolutamente essencial para a compreensão do fenômeno prog.

Entendo que este é um ótimo trabalho para começar as audições do Tull, dada a sua acessibilidade e menor complexidade. Mas, que fique claro, a simplicidade melódica não importa dizer que os caras fazem um som descartável e irrelevante, muito pelo contrário.   

O disco abre com a empolgante "A New Day Yesterday", uma música ainda fortemente influenciada pelo blues, onde a distinta guitarra errante de Martin Barre mostra seu cartão de visitas e o baixo potente de Glen Cornick marca presença, um som que, possivelmente, Jeffrey Hammond passaria vários anos tentando emular após a saída de Cornick. Apesar de não ter um arranjo muito abstruso, olhando de maneira retrospectiva ficam claras aqui as pistas sobre a sonoridade que tornaria a banda tão conhecida nos anos 70. 

Em "Jeffrey Goes To Leicester Square", Ian Anderson dá um toque folk à música por meio do bandolim. Eis uma melodia realmente curta, que, na verdade, pode ser considerado um interlúdio antes da sensacional "Bourée", uma magnífica peça de Bach reconstruída sob um prisma jazzístico na qual flauta, baixo, órgão e bateria desempenham papéis mais proeminentes que nas duas primeiras faixas.

A voz forte de Anderson faz de "Back to The family" uma deleitosa passagem, contando mais uma vez com o trabalho competente da guitarra de Barre, que se arrisca às vezes em timbres mais tensos enquanto Ian eventualmente lança suas notas de flauta. O lado A do LP fecha com o folk hippie sessentista "Look Into The Sun", cujas texturas suaves de guitarra parecem brisas batendo de leve numa janela de vidro. Destaque para Barre que consegue magnetizar com licks de fundo psicodélico.  

A faixa mais longa do álbum, "Nothing is Easy", retoma o blues do início, porém, à exceção da flauta de Ian, esta música se aproxima mais de um incipiente rock psicodélico que do folk ou mesmo do progressivo. Seus vários segmentos estendidos de órgão, baixo e bateria são um atrativo para os amantes da música mais experimental e de contorno jazzístico. 

Quando a otimista "Fat Man" aparece o clima fica ainda mais balançante graças ao ótimo trabalho percussivo que parecem ser feitos por bongôs, bem como bandolim ou talvez balalaica, não tenho certeza, que costuram mais um folk animado. A atmosfera serena de "We Used to Know" mostra um Ian compenetrado e soa como algo que teria certamente um lugar em “Aqualung”. É de longe a faixa mais taciturna do disco e embora o violão acústico permeie a maior parte do tempo, são os solos de guitarra elétrica de Barre que brilham intensamente.  

"Reasons for Wait" tem a aparência de uma canção acústica folk tocada em ritmo de jam e mantém a mesma vibe da anterior. O álbum fecha com a honesta "For a Thousand Mothers", que soa novamente como um punhado de improvisações que, devo dizer, fazem a minha cabeça. 

Ainda que “Stand Up” não seja um clássico, pode ser considerado um dos grandes discos do Jethro Tull e, sem sombra de dúvida, incrivelmente bem feito para uma banda que era tão jovem e relativamente imatura à época da gravação. No geral, temos aqui um trabalho respeitável e bem produzido que já mostrava o talento de um grupo que seria responsável por obras da estatura de “Aqualung” e “Thick as a Brick”.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Stand Up

Álbum disponível na discografia de: Jethro Tull

Ano: 1969

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,4 - 10 votos

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