Resenha

A Feast Of Consequences

Álbum de Fish

2013

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

24/05/2021



Um dos melhores discos de Fish

É fato que a carreira solo de Fish, após deixar o Marillion, experimentou altos e baixos. E embora boa parte dos seus trabalhos de estúdio desde “Sunsets On Empire” (1997) sejam de nível mediano para cima, o Lenhador nunca conseguiu brilhar com a mesma intensidade que o período na sua ex-banda. Também não é muito difícil perceber que o início do seu voo solo foi bem complicado, incluindo alguns discos bem irregulares, enquanto o Marillion mostrava um Hogarth bem adaptado logo na estreia com “Seasons End” de 1989.

É bem verdade, no entanto, que a história de Fish não pode ser resumida a essas apressadas constatações. Importante considerar também que o escocês sofreu um quinhão de infortúnios e circunstâncias um tanto caóticas em sua vida pessoal ao longo dos anos (câncer na garganta, divórcio...) Parte dessa aflição também foi auto infligida? Suponho que o homem que nos legou o confessionário encharcado de álcool do álbum “Clutching At Straws” do Marillion, sua derradeira participação na ex-banda, fosse o primeiro a admitir isso. 

Neste sentido, considero que Fish provou ser um verdadeiro sobrevivente, um artista dotado do talento especial para pegar suas experiências pessoais e transformá-las em lenha para sua fogueira criativa. Derrube-o e ele escreverá uma música sobre tal experiência, fazendo da arte um cobertor aconchegante para enfrentar o frio que a dor porventura traga.  

Desta forma, talhado por sua antifragilidade, conceito criado pelo escritor líbano-americano Nassim Nicholas Taleb, segundo o qual as crises e problemas pessoais podem nos tornar melhores e mais capazes, diferente da resiliência (oposto de frágil) que seria tão somente a habilidade de resistir intacto às pressões externas, Fish nos proporciona aqui um excelente trabalho, ancorado principalmente na sua notável destreza de cantor e contador de histórias, caracterizado instrumentalmente por uma gama de estilos musicais que vão do classic rock, passando pelo habitual progressivo/neoprogressivo e chegando até mesmo ao country. 

É bom que se diga ainda que, por vezes, o álbum traz a sensação de proximidade com o trabalho de Peter Gabriel (o eterno fantasma de Fish). Quanto ao lirismo, o cantor parece muito preso a dois temas em particular: desastre ambiental e guerra, embora suas composições sejam inacreditavelmente poéticas. Tal característica, inclusive, distingue a sua música daquela feita por grande parte dos artistas. A qualidade lírica de Fish, portanto, mostra-se ainda mais madura e sofisticada e só tem melhorado com o passar do tempo.  

O disco começa com a introspectiva "Perfume River", faixa introduzida por uma bela gaita de foles e teclados etéreos e que tem alguns cantos arrebatadores de Fish e uma seção dedilhada intensa calcada no violão acústico. "All Loved Up" e "Blind To The Beautiful" soam como canções de John Mellencamp, uma vez que puxadas para um country rock, sendo a primeira agitada e otimista e a segunda mais serena. 

A faixa-título continua pescando algo do gênero Mellencamp/Tom Petty, incluindo apoios vocais femininos muito bons e batidas de violão marcantes, enquanto "High Wood" aposta na conhecida sensibilidade melódica de Fish encarnando claramente uma veia gabrieliana. Conta com viola, violino e violoncelo e arranjos de cordas magníficos. Sem sombra de dúvida, uma das melhores peças do álbum. 

A perícia vocal de Fish volta a ficar evidente na formosa e semi-progressiva "Crucifix Corner", cuja impressionante abertura vocal delicada e ritmo meditativo inicial cedem lugar a um rock clássico mais encorpado e de textura oitentista, só interrompido perto do final onde a melodia da introdução volta para encerrar. "The Gathering" abre festivamente antes de se tornar um folk celta antibelicista adornado eventualmente por arranjos de metais e solos estupendos saídos do trompete, tuba e trombone. Reconheço aqui algo que remete a Jethro Tull. 

As guitarras pesadas e a performance vocal densa de Fish fazem da progressiva "Thistle Alley" outro grande momento do disco. A bateria firme, a linha de baixo e as guitarras ocasionalmente assumem uma tonalidade bem metal. Uma música que agrada bastante.    

Quando se chega em “The Leaving” fica claro que Fish está usando uma fórmula na construção de suas músicas neste álbum, a qual consiste basicamente na adoção de introduções suaves com cerca de dois minutos e levadas geralmente pelos teclados, mudando logo em seguida para formatos de rock enérgico e meio padrão e que, às vezes, retornam à delicadeza da intro nos segundos finais. Outra canção bem ao estilo Peter Gabriel e que não faz feio.  

A penúltima faixa, "The Other Side Of Me", começa com um violão e piano que lembram o glorioso Genesis. A voz reflexiva de Fish encontra o seu ápice e ganha em alguns momentos o apoio precioso de Elisabeth Troy Antwi ajudando a construir uma poderosa e inesquecível performance vocal. Vale lembrar que estamos diante de mais um exemplar country rock, provavelmente inspirado no já citado John Mellencamp e afins. 

O adeus é dado por "The Great Unraveling”, faixa que parece fazer um contrabando do riff da conhecida "Lose Yourself” do rapper Eminem. À base rítmica é adicionado um vocal absorto de Fish e a canção segue guiada por guitarras esparsas que transitam entre o delicado e o abrasivo. Destaque para outra sensacional participação vocal de Elisabeth Antwi que abrilhanta esta peça progressiva de instrumental impecável e refrão viscoso. Gran finale! 

Contando com uma bela arte de capa, apesar de um tanto sinistra, “A Feast Of Consequences” é um dos melhores trabalhos de Fish, uma prova da extraordinária capacidade desse artista de se manter criativo e fazer das suas tragédias pessoais o combustível da sua fábrica de preciosidades neoprogressivas.


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2 comentários:

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Márcio Chagas 07/09/2021

Colaborador Sênior

07/09/2021

Li sua resenha e me fez voltar a escutar o disco. Fish é um dos meus cantores favoritos. Parabéns pela Resenha.

user

Expedito Santana 09/09/2021

Colaborador

09/09/2021

Márcio, Fish tem discos até melhores que os do Marillion da Fase Hogarth e, sem dúvida, é um dos grandes da cena neoprog. Gosto muito desse álbum. Obrigado!! Um forte abraço!

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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

A Feast Of Consequences

Álbum disponível na discografia de: Fish

Ano: 2013

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 2 votos

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