Resenha

Seconds Out

Álbum de Genesis

1977

CD/LP ao Vivo

Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

18/03/2018



Genesis on stage: O ápice nos palcos

Para entender melhor o conceito deste álbum temos que voltar no ano de  1975, quando Peter Gabriel deixou o grupo após a turnê do disco  “The Lamb Lies Down On Broadway”.  Nas audições para um novo vocalista, o baterista Phil Collins ensinava as canções para os candidatos e acabava cantando melhor do que qualquer um deles.  Deste modo, promover Phil a categoria de novo vocalista foi uma consequência natural dentro do grupo.
Com o baterista comandando os vocais e baquetas eles lançaram em 1976 os ótimos “A Trick Of The Tail” e “Wind And Wuthering”, dois belos trabalhos com seu novo/velho integrante.  Se em estúdio a escolha se mostrou acertada, ao vivo a coisa complicava um pouco, pois não tinha como Phil Collins cantar e tocar bateria ao mesmo tempo. Assim para as turnês que se seguiam o grupo optou por ter um baterista convidado, tendo no palco uma bateria extra, para que Collins pudesse exercer seus dotes durante as longas passagens instrumentais. 
A escolha do baterista convidado recaiu inicialmente sobre Bil Bruford (ex Yes e King Crimson), mas a banda teve uma verdadeira interação quando recrutou Chester Thompson, músico americano bastante conhecido por integrar a banda de Frank Zappa, George Duke e o combo fusion Weather Report. A parceria com Chester perduraria até a ultima turnê do grupo 30 anos depois. Chester  participou inclusive da banda solo de Collins.

O disco abre com “Squonk”, música do citado “A Trick...”, mostrando que, apesar da troca de vocalista o grupo continuava coeso. “Carpet Crawl”, vem logo em seguida, é a primeira canção da fase Gabriel interpretada por Phil. No decorrer da canção, uma belíssima balada, fica claro o motivo pelo qual os músicos remanescentes terem optado por Phil no comando dos vocais. O baterista consegue passar uma carga emocional na voz tão intensa quanto Peter Gabriel, mesmo não utilizando de maquiagens e outras parafernálias que o ex vocalista usava.
“Robbery, assault & Battery” e “Afterglow” são canções da nova fase, sendo esta última, uma belíssima música do “Wind and Wutjering” e curiosamente a única música deste a entrar no setlist do disco, fato lamentável, pois o trabalho tem outros excelentes temas que poderia ser inserido em “Seconds Out”.
 “Firth of Fifith” é um dos pontos altos do disco. Embora tenha perdido sua lírica introdução de piano, a canção ficou mais direta e energética ao vivo e conta com duas baterias na parte instrumental. Durante os solos de teclado e guitarra é possível perceber uma interação quase telepática entre Phil e Chester, uma segurança que só poderia ter sido obtida após muitas horas de ensaio. Em “I Know What a Like”, canção da fase Gabriel, é nítido que Phil Collins trouxe a música para seu, superando inclusive a interpretação original.
Fechando o primeiro disco, temos a dobradinha “The Lamb Lies Down on Broadway” e uma pequena parte de “The Musical Box”, em versões irrepreensíveis, embora esta última realmente necessite da teatralidade de Peter Gabriel para ficar perfeita.
No segundo disco temos a suíte “Supper´s Read”, uma das mais belas canções composta pela banda. Collins conseguiu capturar todas as nuances da música, e com sua versatilidade nos brindou com uma interpretação densa e passional, passeando bem a vontade pelo tema, inclusive tocando bateria em alguns trechos. 
“Cinema Show” é outra canção da era Gabriel bem interpretada por Phil, mas o grande destaque é o tecladista Tony Banks com seus solos e camadas de teclados que sustentam a grandiloquência do tema. “Dance  on Volcano” com sua entrada sincopada  executada com perfeição dá uma ideia de como o grupo estava coeso e bem ensaiado. “Los Endos”, tema instrumental composto para encerrar as apresentações, se inicia com um duelo atrabiliário de bateria entre Phil Collins e Chester Thompson, mostrando o entrosamento de ambos. A canção vai crescendo até a entrada dos demais músicos e encerra o petardo de forma grandiosa.
Por todo trabalho vc percebe o Genesis como uma unidade musical difícil de ser sentida até mesmo nos shows anteriores com Peter Gabriel. Tony Banks  é realmente a cereja do bolo, seus teclados são responsáveis pela identidade do grupo. Sua maneira de contrapor as camadas de sintetizadores jamais poderia ser imitada. Mike Rutherford é um dos baixistas mais subestimados do universo progressivo. Por ter iniciado sua carreira musical como guitarrista, o músico tem uma visão bastante peculiar do instrumento, e por vezes também utiliza uma guitarra de 12 cordas para harmonizar as canções.  Bom gosto, seu nome é Steve Hackett! Um guitarrista sem egocentrismo, que cria os solos para as músicas e não o contrário. Hackett é a prova viva de que não adiante ter uma técnica apurada se o músico não souber o que fazer com ela. Chester Thompson, vinha de vários estilos musicais bem mais complexos , e de certo modo foi fácil pra ele se adaptar ao som do Genesis.  No caso de Phil Collins, o grande mérito do baterista perceptível em todo o trabalho, foi não tentar em momento algum emular Peter Gabriel, que tinha uma voz muito mais complexa e uma interpretação muito mais elaborada e teatral. Phil Collins foi simplesmente Phil Collins e essa é a principal razão do trabalho soar tão autêntico.

“Seconds Out” pode ser considerado o ápice musical do grupo no palco, uma verdadeira celebração do rock progressivo inglês. Uma pena que após o lançamento do álbum o guitarrista Steve Hackett deixaria o grupo, e o Genesis como um trio partiria para uma seara mais pop e multimilionária. Mas isso é um assunto pra outra oportunidade.


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Sobre o álbum

Seconds Out

Álbum disponível na discografia de: Genesis

Ano: 1977

Tipo: CD/LP ao Vivo

Avaliação geral: 4,67 - 9 votos

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