Resenha

Genesis

Álbum de Genesis

1983

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

15/05/2021



Pop e art rock reinando absolutos em um dos melhores discos da Era Pós-Gabriel

Consolidando o direcionamento pop rock que vinha sendo ensaiado desde “And Then There Were Three”, de 1978, passando pelo bom “Duke” (1980) e o irregular “Abacab” (1981), o Genesis teve nesse disco autointitulado uma das suas melhores produções de estampa mais comercial. A banda mostra aqui um conjunto de canções curtas e diretas, flagrantemente palatáveis, de potencial radiofônico e embaladas por vezes num art rock.    

Na verdade, a caminhada do Genesis ao longo dos anos 80 já não vislumbrava quaisquer resquícios daquele som progressivo complexo de outrora, o qual havia se tornado, a essa altura dos fatos, uma opção absolutamente descartada. Aliás, o próprio Rutherford declarou que a banda buscava há tempos uma sonoridade mais despojada e relax. Banks, por seu lado, asseverou à epoca que aquele tipo de música descomplicada era algo que eles claramente intencionavam. Como é sabido, durante a transição prog/pop do Genesis, logo após a saída do vocalista Peter Gabriel para alçar voo solo, Phil foi assumindo gradualmente o comando e fazendo a sua vontade prevalecer de modo “quase” natural e sem maiores questionamentos.  

Este álbum foi o décimo-segundo de estúdio e transformou-se num sucesso comercial após seu lançamento, tornando-se o terceiro disco da banda a alcançar o número 1 na parada de álbuns do Reino Unido. Auferindo também a 9ª posição na Billboard 200 dos Estados Unidos, onde vendeu mais de 4 milhões de cópias. Começou a ser concebido logo após a turnê de divulgação do álbum ao vivo de 1982, “Three Sides Live”, quando o grupo fez uma pausa de oito meses para então se reunir novamente na primavera de 1983 para gravá-lo. A propósito, seria a primeira vez que os trabalhos de composição, gravação e mixagem ocorreriam no próprio estúdio dos ingleses, conhecido como The Farm e localizado em Chiddingfold, Surrey, Inglaterra.   

Os destaques ficam por conta do single “Mama”, originado de uma sessão de jam em que Rutherford fazia experimentos com uma bateria eletrônica, que alcançaria o quarto lugar no Reino Unido com sua atmosfera ameaçadora coberta de sintetizadores, batida formidável e aquelas risadas sinistras de Collins, as quais segundo relatos dos membros foram inspiradas pela canção "The Message", de 1982, da banda de rap Grandmaster Flash and the Furious Five. Até hoje “Mama” é uma das minhas faixas preferidas da fase pop do grupo. No meu tempo de solteiro adorava escutá-la enquanto dirigia por estradas iluminadas apenas pelos faróis do carro. Aquilo me dava uma sensação de liberdade e um “quê” de mistério que não sei bem descrever.   

Logo em sequência vem "That's All", música calcada numa linha singela de piano de Banks adicionada a uma bateria programada meio padrão, incluindo um solinho de teclado bastane maroto. A terceira faixa é a balançante "Home by the Sea", que aborda a história de um ladrão assombrado por fantasmas após invadir uma casa. Outro grande momento do disco onde pode ser sentido aquele clima pop explosivo-melódico que seria uma marca do Genesis, cujo ápice seria encontrado em canções como "Invisible Touch" do homônimo álbum de 1986. 
 
Considero "Second Home by the Sea" uma espécie de continuação de "Home by the Sea", esta peça quase instrumental foi desenvolvida a partir de uma improvisação coletiva na qual Collins executou um trabalho percussivo prontamente aprovado pela banda e sobre o qual Rutherford tratou de acrescentar seu instrumento por cima. Tem os vocais de Collins e uma guitarrinha alvissareira de Rutherford próximo ao final, mas nada que chegue perto daquelas seções audaciosas de Mr. Hackett.

“Illegal Alien", como o próprio nome denuncia, trata de imigrantes ilegais e de suas jornadas desesperadas para cruzar a fronteira dos Estados Unidos em busca de uma vida melhor. Seu instrumental segue animado por camadas de sintetizadores e cadência com um pezinho num reggae meio eletrônico, diria que um negócio chegado a Sting. 

Na segunda parte do disco aparecem “Taking It All Too Hard", com vocal mais doce de Collins e uma vontade imensa de ser balada, a new wave acelerada “Just a Job to Do”, e “Silver Rainbow”, que chega a lembrar no início algumas coisas da carreira solo de Peter Gabriel, mas que efetivamente se mostra uma passagem de textura pop com bons teclados e programação que repete um pouco a estrutura de outras músicas vistas ao longo do álbum. 

O disco fecha com a agradável "It's Gonna Get Better", tendo uma introdução ao teclado que Banks contrabandeou de uma música clássica para violoncelo, um baixo acentuado de Rutherford e primoroso trabalho vocal de Phil e de teclas de Banks. Belo adeus!

Enfim, nada de esperar dessa excursão de entretenimento aquelas passagens melodiosas, intrincadas e sinfônicas do período de ouro da década de 70 do Genesis, já que elas seriam algo de um passado distante, sem dúvida. Mas, caso o ouvinte tenha se acostumado a ver esta banda tocando eventualmente nas pistas de dança, não faz mal algum procurar embalos ao som de algumas canções pop deleitosas e razoavelmente bem arquitetadas num dos melhores álbuns da Era Pós-Gabriel.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Genesis

Álbum disponível na discografia de: Genesis

Ano: 1983

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,7 - 10 votos

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