Resenha

Tangerine Dream

Álbum de Kaleidoscope

1967

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

05/05/2021



De fato, não é um poço de originalidade, mas ainda assim, um bom disco

Só de olhar a capa desse disco de 1967 chamado Tangerine Dream da banda britânica Kaleidoscope, já podemos sentir o cheiro da psicodelia que emana de dentro dele. A primeira vez que o ouvi, me senti até mesmo decepcionado por encontrar uma música psicodélica pop e completamente descartável, sendo fácil perceber o porquê foram tão poucas as suas vendagens. Mas então que eu decidi ouvir mais algumas vezes, percebendo assim, que em cada audição algo parecia melhorar e crescer em relação a experiência anterior, notando que se trata de um disco repleto de canções e profundidade poética. Hoje, apesar de ainda não o considerar exatamente essencial, o vejo como uma peça interessante e que cai bem em qualquer coleção de discos de rock psicodélico britânico.  

O disco começa através da faixa homônima à banda, “Kaleidoscope”. Um som pitoresco e de uma alma tipicamente flower power. Inicialmente, como tudo o que você vai encontrar no disco, talvez a peça não lhe pegue de primeira, mas dê a ela mais de uma chance. Considero essa uma forma divertida de iniciar o álbum. “Please Excuse My Face” é uma música pop e psicodélica que poderia passar despercebida pôr a princípio não ter muito a oferecer, mas sua sonoridade acústica e bela junto de um vocal sincero permite com que tudo se torne muito agradável. Ainda que bandas como Love, The Byrds e Jefferson Airplane consigam soar de forma mais imaginativa, “Please Excuse My Face” tem o seu valor.  

“Dive Into Yesterday” apresenta algo muito mais imaginativo, bom uso de drive e um arranjo meio estranho no geral – o que não tem problema alguma nesse caso. O riff é bem legal e assim como ocorreu anteriormente, a bateria também se destaca. Quase aos três minutos a banda retorna rapidamente à introdução de “Kaleidoscope”, depois é possível notar uma levada influenciada pelas linhas de “Gnome” do Pink Floyd. 

“Mr. Small, The Watch Repairer Man” mantém o mesmo tipo de humor encontrado na faixa anterior, em uma espécie de Syd Barrett cantando sobre uma base construída por algo entre Beatles e Byrds. “Flight From Ashiya” em termos de estrutura leva o disco para uma direção muito mais experimental. Os pedais do baixo aumentam a carga dramática. Novamente nota-se uma influência em Byrds através de uma parede de som produzida pela guitarra.  

“The Murder Of Lewis Tollani” começa com uma bateria emulando algumas batidas de coração antes que a história comece a ser narrada sobre um suave trabalho de guitarra. A princípio eu considerei a psicodelia encontrada nessa peça algo mais leve, mas depois de algumas audições, mudei de opinião, sendo que principalmente a guitarra adiciona não apenas psicodelia, mas também drama e tensão à faixa.  

“(Further Reflections) In The Room Of Percussion” assim que começa, ela transmite na sua primeira impressão um retorno a uma música mais padrão. Eu admito que espero mais do que apenas isso quando escuto um álbum desse, mas de qualquer forma, ainda consegue ser agradável. “Dear Nellie Goodrich” começa acústica com um baixo bem acentuado de fundo antes que os vocais apareçam com um bom grau de delicadeza. O desenrolar da peça faz dela um número bastante divertido.  

“Holidaymaker” é uma faixa que foi gravada muitos meses antes das demais do resto do álbum. Confesso que acho ela um pouco chiclete – embora nem sempre eu tenha problema com isso – e muito mais leve do que as peças anteriores. Seria como se os Beatles cantassem Beach Boys. “A Lesson Perhaps” não soa totalmente musical – embora haja um belo violão de fundo. O sabor de um violão medieval unido a uma história comovente em relação ao rei sem reino é bastante apropriado.  

“The Sky Children” é certamente a faixa diferenciada do disco e que por si só pode fazer o álbum valer a pena. Uma peça muito bem construída não apenas melódica e harmonicamente, mas também se trata de uma música bem dotada liricamente - já que ela não repete nenhuma vez durante os seus oito minutos. A melodia é muito forte – e essa sim vai se repetindo infinitamente durante toda faixa, mas sem que isso fique chato ou maçante. No fim das contas o disco encerra muito bem e com o que de melhor ele tinha a oferecer.  

Não são poucos os discos mais indicados para se apreciar o que de melhor a psicodelia britânica oferecia em 1967, porém, isso não faz com que Tangerine Dream perca o seu valor, e com isso fique esquecido e deixado de lado. Já cheguei a me deparar com comentários de que a banda apenas copiava o estilo principalmente de Syd Barrett, porém, existe um problema muito grande nisso? Poderia ter, mas não nesse caso, pois a “cópia” foi feita de uma maneira autêntica e tal pureza de propósito, que no fim, também se tornaram algo inegavelmente autêntico. De fato, não é um poço de originalidade, mas ainda assim, um bom disco.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Tangerine Dream

Álbum disponível na discografia de: Kaleidoscope

Ano: 1967

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,5 - 1 voto

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