Resenha

Benefit

Álbum de Jethro Tull

1970

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

05/05/2021



O folk progressivo começava a nascer!

Neste terceiro disco o Jethro Tull indicaria em cores vivas a continuidade do abandono da veia blues que a banda estampava nos trabalhos anteriores e começaria a abraçar uma sonoridade bastante peculiar, doravante denominada curiosamente de folk progressivo, que tinha como caracteres mais salientes combinações massivas de flauta e belas seções rítmicas de violão acústico e guitarra elétrica. Tal redirecionamento contaria, inclusive, com um extraordinário defensor dentro do grupo, o líder e vocalista Ian Anderson, que via nessa nova perspectiva musical um campo fértil para o extravasamento das suas habilidades instrumentais. 
	
Ainda que continuasse carregando um pouco da influência do blues, “Benefit” pode ser definido como um passo evolutivo. É bem verdade que, na época de seu lançamento, o termo progressivo não era comumente empregado pela crítica musical. Para se ter uma ideia, o próprio clássico álbum de estreia do King Crimson, "In The Court of The Crimson King", lançado somente um ano antes, em 1969, foi um dos impulsionadores da profícua e interminável discussão sobre o nascimento do gênero rock progressivo. 

Nesse sentido, tudo ainda era muito incipiente na cena prog, o Genesis, por exemplo, estava apenas no seu segundo de estúdio, "Trespass", e "Close To The Edge" do Yes, outro grande marco do gênero, sequer havia sido concebido. Sendo assim, olhando de forma retrospectiva, fica bem claro que "Benefit" teve seu próprio significado estilístico, não sendo conveniente abordá-lo, portanto, dentro de um quadro estático ou meramente comparativo.   

Mais uma vez, a participação do pianista John Evan, cujo estilo considero mais técnico que o de David Palmer, que voltou a ficar apenas com os arranjos orquestrais, também foi importante para que o Tull pudesse avançar fortemente por outros caminhos. A propósito, vale lembrar que Evan já havia tocado com a banda no anterior, “Stand Up” (1969), no qual a influência folk já tomava corpo na sonoridade da banda. Aqui os trabalhos de flauta de Ian Anderson são absolutamente genuínos e a guitarra de Barre se mostrava afiadíssima, quer seja nos elegantes riffs elétricos ou nos solos por vezes beirando o psicodelismo. Por outro lado, a cozinha, que tinha o baixista Glen Cornick e o baterista e percussionista Clive Bunker, não deixava por menos, ajudando o restante da banda a construir passagens empolgantes e sempre muito inventivas.   

O álbum começa com a calorosa "With You There To Help Me" exibindo uma flauta ambiente seguida por uma linha vocal excelente numa seção rítmica matadora. Um blues-rock de guitarra melódica capitaneado por Martin Barre onde a flauta cumpre o papel de preenchimento dos curtos interlúdios. O violão mais acústico adorna as seções rítmicas e dá uma textura folk, porém, se observarmos a música em todos os seus detalhes, provavelmente a impressão final é que se trata, estruturalmente, de uma faixa de rock progressivo, tendo em vista sobretudo as mudanças de andamento e variações instrumentais.  

O disco prossegue com a suavidade de "Nothing To Say" partindo de uma introdução de guitarra elétrica e caindo naquele canto flutuante de Ian, que mais tarde se tornaria sua marca registrada. Adoro esta faixa, notadamente pelos riffs suaves elegantes de Barre que ora parecem querer avançar para algo mais agressivo, mas que sempre retrocedem ao clima de tranquilidade criando uma espécie de contradição intrínseca. Ótima faixa. 

"Alive And Well And Living In" mantém as coisas numa vibe de ternura e elegância, tão característica do som do Tull e que permearia álbuns posteriores, tais como "Heavy Horses". "Son" e "For Michael Collins, Jeffrey And Me" também são ótimas canções, enquanto a primeira é baseada nas notas da guitarra elétrica de Barre e num vocal ligeiramente petulante de Ian, a última aposta num folk com o violão acústico comandando a seção rítmica principal.

A melhor faixa na minha opinião, a sinuosa "To Cry You a Song", harmoniza o rock pesado em cima de riffs meio delicados de guitarra com o canto mais áspero de Anderson. É uma peça melodicamente muito forte e repleta de variações dos ofícios da guitarras rítmica e solo. Deixando aqui um rockão clássico do Jethro Tull que serve como prenúncio para épicos do estilo de Agualung. 

Outro excelente momento brota de "A Time For Everything?", que traz a esplêndida flauta de Ian de volta ao jogo, embora a guitarra de Martin Barre ainda seja predominante. "Inside" apresenta um estilo diferente das faixas anteriores, onde a flauta está quase onipresente e acompanha o canto adocicado de Ian. "Play In Time", por sua vez, lança o disco numa estação mais otimista e segue calcada numa verve mais agressiva com riffs de guitarra entrelaçados a uma flauta em tom incisivo, tendo um canto enérgico sobrevoando a paisagem sonora. 

O fechamento fica por conta de "Sossity: You're A Woman", que transita entre aquelas nuances suaves do folk, com preenchimentos incríveis de violão na seção rítmica principal acompanhando a linha vocal de Ian e ausência de trabalho percussivo, permitindo à flauta ótimas inserções ao longo da música.

Antes de mais nada, longe de mim querer comparar este registro às obras-primas “Aqualung” ou “Thick As A Brick”, mas o fato é que “Benefit” pode ser considerado um trabalho bem equilibrado e sem quaisquer fillers, sendo possível encontrar aqui canções inesquecíveis e composições compactas e poderosas que integrariam o repertório do Jethro Tull em seus shows posteriores à época, e que construíram, inequivocamente, uma base sólida para o futuro da banda. Altamente recomendado!


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Benefit

Álbum disponível na discografia de: Jethro Tull

Ano: 1970

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,3 - 10 votos

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