Resenha

Talk Talk Talk

Álbum de The Psychedelic Furs

1981

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

01/05/2021



Rumando para a cena pop, mas sem abdicar totalmente da alma underground

Não são poucas as bandas que falham ao tentar sair do underground em busca de ares, digamos, “mais comerciais”, algumas por desvirtuar totalmente sua música e perder consequentemente a identidade, outras porque não conseguem encontrar uma receita viável que agrade às grandes massas e, ainda, umas tantas por cometerem os dois erros concomitantemente. O The Psychedelic Furs conseguiu, ao contrário, acertar nas duas frentes, ou seja, construir uma sonoridade acessível assim como manter intacta a própria essência. Lançado em maio de 1981, “Talk, Talk, Talk”, segundo álbum do Furs, catapultou o grupo ao sucesso graças a uma textura moderna e palatável para a época. 

A bem da verdade, o caldo que escorria dos instrumentos do Furs incluía influências amplas, indo do rock mais subterrâneo ao pop de ênfase vocal. O produtor inglês Steve Lillywhite (The Chameleons, U2, Peter Gabriel...) soube condensar com maestria as raízes pós-punk da banda dentro de um tubo sóbrio e imune a espalhafatos. O resultado final, sem sombra de dúvida, foi um som que conseguia carregar até um pouco da verve soturna do Joy Division e a descontração do Talking Heads. 

O último album com o sexteto original, composto por Richard Butler (vocal); Tim Butler (baixo); Vince Ely (bateria e percussão); Duncan Kilborn (teclados, trompa e sax); John Ashton e Roger Morris (guitarras), acabou virando uma pedra fundamental no catálogo da banda que se afastou dos matizes mais sombrios de algumas faixas do debut, a exemplo de “Imitation of Christ” e “Sister Europe”, que chegavam a beirar o gothic rock ao melhor estilo Siouxsie and the Banshees e Sisters of Mercy.  

As temáticas líricas estavam centradas numa espécie de apologia do relacionamento livre e descompromissado, a velha filosofia juvenil baseada no “sexo por sexo”. Falando nisso, Richard Butler como letrista é exímio na capacidade de gerar enigmas, como em “Into You Like A Train”, onde ele entoa: “...i'm into you like a train/ into you like a train / into you like a train/ now fall in love/ yeah fall in love/ if you believe that anyone/ like me within a song/ is outside it all/ then you are all so Wrong / if you believe that anyone/ like me within a song...”

O single de maior sucesso, “Pretty In Pink”, teve uma grande ajuda mercadológica do cineasta John Hughes, que o incluiu na trilha do filme homônimo “A Garota de Rosa-Shocking”, um clássico da Sessão da Tarde aqui no Brasil protagonizado pela inesquecível (pelo menos pra mim) Molly Ringwald. Com suas letras abordando o lado mais cinzento, imerso em certo desprezo e insensibilidade de algumas histórias de amor.

Apesar de um direcionamento mais pop, podem ser encontrados resquícios da estreia na vigorosa “Into You Like a Train”, com sua bateria vivaz, assim como nos saborosos metais e guitarras incisivas de “Dumb Waiters”. Por outro lado, o sentimentalismo presente em “She is Mine”, a melodia introspectiva de "All of This and Nothing" e a franqueza mid-tempo de “No Tears” afastam de vez qualquer ideia de pleno revival. 

E, para felicidade dos fãs mais tradicionais, o frescor pós-punk de “I Wanna Sleep With You” e a agressividade de Mr. Jones, indicavam que a banda não havia abandonado totalmente a alta voltagem de outrora. 

Contando com os ótimos preenchimentos de metais do saxofonista Kilborn, as guitarras precisas de Ashton e Morris e o carisma amargurado da voz de R. Butler, “Talk, Talk, Talk” seria uma guinada exitosa e consciente rumo à cena mais comercial, ainda que sem abdicar totalmente da alma underground da banda inglesa.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Talk Talk Talk

Álbum disponível na discografia de: The Psychedelic Furs

Ano: 1981

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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