Resenha

Incantations

Álbum de Mike Oldfield

1978

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

22/04/2021



Oldfield no uso de sua imaginação fértil para compor o seu disco mais audacioso

Incantations pode ser visto sem a menor dúvida como o trabalho mais ambicioso de Mike Olfield. O músico recorreu a uma série de fontes diferentes que incluíam cordas orquestrais, arpejos semelhantes a Philip Glass, bateria africana e trabalhos de coro para poder tornar o seu disco mais grandioso. Além de Oldfield, Incantations também contou com Mike Laird (trompete), Pierre Moerlin, (bateria e vibrafone), Maddy Prior, Sally Oldfield, The Queens College Girls Choir (vozes), Sebastian Bell e Terry Oldfield  (flautas) e Jabula (bateria africana). David Bedford conduziu as cordas e o coro. 

Na época só a ideia de que era um vinil duplo de quatro faixas já chamou bastante atenção, muitas cabeças faziam a pergunta, “como será que Oldfield vai preencher cada um dos lados do vil?”, pergunta que foi muito bem respondida quando na sua primeira audição é possível sentir que o disco forma uma unidade completamente homogênea. Como é se esperar em um disco como esse, não adiante o ouvinte ter pressa, pois a música leva tempo propositalmente. Os ritmos são criados de maneiras incrivelmente delicadas e simples. Coisas assim são o que mais o deixa atraente, com o mínimo de gestos, a música atinge o ouvinte com firmeza.  

“Part One” abre com um arpejo vocal semelhante ao encontrado em Tarkus do Emerson, Lake and Palmer. Logo no início, apresenta uma seção de cordas sob a maravilhosa flauta de Terry Oldfield e suas improvisações hipnotizantes. Mais à frente ainda é possível desfrutar da guitarra e sintetizadores em destaque - tambores africanos entram rapidamente na faixa. A peça então cai em um movimento em que possui uma configuração semelhante à de uma marcha, com o trompete tomando a liderança com trabalho de corda sempre mantendo o tempo. A seção que segue é bastante longa, onde o The Queens College Girls Choir canta o “Hymn to Diana”, repetindo a mesma frase por incontáveis vezes – e curiosamente não fica enjoativo. A flauta sobre uma orquestração está de volta e a faixa chega ao fim com o mesmo tema encontrado na abertura.  

“Part Two” começa de uma maneira silenciosa e bastante serena, lembrando um pouco o clima encontrado em Hergest Ridge Part 2”. A peça então muda abruptamente para suas passagens mais curtas de cordas trêmulas, sendo que isso fornece uma ponte para uma melodia mais lenta de “Hymn to Diana” que retorna como um lamento suavemente construído com acompanhamento ondulante e temas de flauta antes de explodir como um canto tribal enfático. Existem desafios dentro da música que parecem que somente alguns músicos estão dispostos a cumprir e possuem coragem para encará-los, nesse caso, pessoas como Oldfield. Os últimos minutos dessa peça são completamente fora da curva, junte algumas batidas africanas, um sintetizador segurando o mesmo acorde o tempo todo, uma contra melodia de marimba e faça com que Maddy Prior cante um trecho de um dos temas de Little Hiawarha. Isso mesmo, mais da metade da música é uma homenagem à animação da Disney de 1937, as letras são retiradas de um poema de Henry Wadsworth Longfellow. 

“Part Three” mostra que na segunda parte do disco as coisas irão seguir por um caminho diferente. A guitarra de Oldfield agora é quem ocupa o centro das atenções no lugar dos arranjos de cordas e coros. Os primeiros dez minutos de música é de um Mike Oldfield clássico - podendo ser notado um aceno à Tubular Bells. Seus melódicos e muito bem fluidos solos de guitarra estão mais do que presentes. As melodias nessa seção são inclusive bastante simples.  A segunda metade da faixa seja provavelmente a parte mais difícil do álbum, demorando assim a atingir o ouvinte como deve ser. 

“Part Four” é a última peça do disco. Começa com uma harpa tocando com um piano ao fundo algo na linha do pianista Erik Satie. A música então muda de direção e dessa vez quem assume a liderança é um vibrafone de sonoridade cristalina, e assim permanece por um tempo até Oldfield fazer um dos seus solos padrão de guitarra. O vibrafone reassume como instrumento central permanecendo um tempo hipnoticamente longo. Uma variação - agora muito mais difícil - do tema de Little Hiawarha reaparece, mas dessa vez em uma maneira mais “caótica” e sinfônica. Tudo então silencia e alguns toques de marimba são usados para manter a música ainda viva. Maddy Prior retorna para cantar novamente o trecho de Little Hiawarha até da faixa acabar.  

Está no nível de Tubular Bells ou Omnadawn? Não, mas certamente é uma das joias mais valiosas da discografia de Mike Oldfield. Mas já aconselho, se você, apesar de ser um fã da música progressiva, não gosta de repetições, esse disco não é o seu número, pois em Incantations muitas vezes as coisas demoram a acontecer, sendo que se você não tiver paciência, vai desistir logo no início. Inclusive, eu acho que a diversidade de sons através do uso de diferentes instrumentos e vocais certamente oferece uma boa variedade e serve muito bem para disfarçar a repetição. Excelente.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Incantations

Álbum disponível na discografia de: Mike Oldfield

Ano: 1978

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,25 - 2 votos

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