Resenha

The Difference Machine

Álbum de Big Big Train

2007

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

20/04/2021



Rock progressivo em franca evolução combinado a um empolgante fusion

Em "Gathering Speed", lançado em 2004, o Big Big Train (BBT) já havia mostrado uma nítida evolução em relação ao restante da discografia anterior. “The Difference Machine”, quinto álbum da banda, não deixa a bola cair e mantém o ótimo nível do antecessor, com os britânicos avançando veementemente sobre territórios progressivos e proporcionando momentos sinfônicos suntuosos, assim como elegantes atmosferas jazzísticas permeadas muitas vezes pelas doses brilhantes dos saxofones de Tony Wright, músico convidado. A formação da banda, que contou com Sean Filkins (vocals), Gregory Spawton (guitarra e teclados), Andy Poole (baixo) e Steve Hughes (bateria), teve ainda a participação de Dave Meros (baixo), Nick D'Virgilio do Spock's Beard (bateria e voz), Pete Trewavas do Marillion (baixo) e Becca King (viola).        

Não há dúvida de que a colaboração dos músicos listados acima foi relevante para aumentar o grau de virtuose da sonoridade do BBT, além de trazer maior diversidade às influências tradicionais da banda. Seria o último trabalho com o vocalista Sean Filkins, que foi substituído por David Longdon no genial “The Underfall Yard” (2009), sucessor de “The Difference Machine”. Apesar de ser obrigado a reconhecer o patamar que o Big Big alcançou depois da chegada de Longdon, principalmente pela versatilidade instrumental deste, considero Filkins um bom vocalista e que sempre esteve à altura dos demais integrantes do grupo.  

A linha musical deste álbum, diferentemente de "Gathering Speed", segue a maior parte do tempo em cima de um eixo de canções de rock progressivo, onde o jazz incidentalmente aparece na forma de influxos complementares ou interlúdios. Por outro lado, as camadas de teclados realçam a inclinação sinfônica do BBT representada mormente em 3 épicos triunfantes apresentados, havendo aqui também algumas curtas faixas de conexão intervalares que cumprem funções meramente acessórias.  

O álbum abre com “Hope This Finds You”, uma curta música instrumental com teclados introspectivos, viola tristonha e sax belíssimo. 

Migrando para uma estação mais altissonante aparece “Perfect Cosmic Storm”, que embora tenha um compasso lento exalado das notas da guitarra, vai ganhando corpo numa levada de post-rock com seções intercaladas por ritmos mezzo funky e progressivo, nas quais o baixo e a bateria se sobressaem. Há muitas mudanças ocorrendo conforme a música segue, incluindo pausas melódicas e seções jazzísticas marcadas pelo sax, a bateria maravilhosa de Nick D'Virgilio, riffs de guitarra swingados e teclados viajantes. No terço final, o solo de guitarra, as camadas de teclas sobrepostas e logo em seguida uma erupção do sax é simplesmente de arrepiar. Sem dúvida uma canção bastante dinâmica de verve roqueira que mistura muito bem o elemento jazzístico e não cansa de nos levar para caminhos inesperados, chegando a lembrar o King Crimson nos momentos de ataques impetuosos regados a distorções e metais. Delirante e inventiva parecem ser os adjetivos mais adequados.

“Breathing Space” funciona como um interlúdio para a próxima peça ou mesmo um descanso mental para a complexidade da faixa anterior. Caracteriza-se pela textura sonora espacial irradiada em sons de grilos ao fundo.  

“Pick Up If You Are There” começa bem alto astral e aparentemente como uma canção tipicamente rock, tendo a presença marcante do baixo e da bateria, mas vai sendo aos poucos intercalada por camadas progressivas de vocais suaves. Essa estrutura mesclada de incisividade e delicadeza passa a ser seguida fielmente ao longo da faixa. Mais uma vez Nick D'Virgilio mostra o porquê pode ser considerado um dos grandes das baquetas. Destaque ainda para o baixo groove tocado pelo competente Trewavas, que dá uma ambientação funky a algumas passagens, assim como a viola chorosa de Becca King. Esta música repete um pouco o roteiro de “Perfect Cosmic Storm”, mas, infelizmente, com menor inspiração e sem o mesmo nível de sofisticação instrumental. Os vocais de Sean Filkins por vezes trazem à memória aquela aclimatação neoprog do Marillion da fase Hogarth, e quando ele canta os versos do refrão faz qualquer um sonhar: “One by one the signal's fail/ The sky is full of comets' tails/ Pick up if you're there”. Na segunda metade um sax maroto, a flauta e os teclados atuam livre e sinergicamente construindo um ambiente meio jam, marcado logo em seguida por um solo forte saído da guitarra de Spawton e uma linha de baixo cheia e igualmente esplendorosa de Trewavas apoiando o conjunto instrumental, enquanto D'Virgilio arrebenta na batera. Encerra na viola tristonha de King. Como disse antes, não há aqui o brilho de “Perfect...”, porém, trata-se de uma ótima faixa, notadamente pela performance segura e vertiginosa dos músicos. O problema é que o sarrafo subiu muito depois de “Perfect...”.        

Em “From The Wild Open Sea” temos música para meditação, uma instrumental que é a mais curta do disco na qual podem ser ouvidos sons abertos e serenos dos teclados, diria um tanto cósmicos e de vocação ansiolítica. 

“Saltwater Falling On Uneven Ground” deixa no início uma sensação jazzística e melancólica no ar, com o baixo de Poole estabelecendo as coordenadas acompanhado da bateria. A guitarra abrasiva de Spawton vai gradualmente entrando em cena e a música segue tendo o vocal de Sean à frente, com a bateria em compasso firme, mas notavelmente variável. Esta faixa basicamente vai atrás dos rastros de “Pick Up...” no que tange à estrutura e fluxo musical. Quase na metade nasce uma parede sonora incrível e a guitarra reverbera intensamente criando uma seção de partículas atmosféricas, que até lembra um pouco as paisagens psicodélicas floydianas, ingressando logo depois numa seção ambiente e mais edulcorada capitaneada pelos vocais de Sean. Uma peça bem arquitetada, cuja execução é irretocável. Vale o ingresso! 

O adeus é dado pela bela e progressiva “Summer's Lease”, que começa suavemente ao som do violão eletroacústico e dos vocais plácidos de Sean, e vai caminhando serenamente a maior parte do tempo com o sax ornamentando-a. Eis que o peso das guitarras e bateria adentram a paisagem quebrando a melancolia. Mas logo a tristeza volta adornada na viola, teclado e sax. E a canção desaparece em teclados de notas lentas e repetidas. Magnífica!

O saldo final do álbum, portanto, é bastante positivo. Retomando aquela tese do início desta análise, creio que a presença dos ilustres músicos convidados trouxe à época ricas e novas influências ao som do Big Big Train, a exemplo da própria banda de Nick D'Virgilio, Spock's Beard. O fato é que são apresentados, coincidentemente, alguns elementos musicais interessantíssimos e ousados que geralmente não eram tão comuns, até aquele momento, ao repertório BBT, tais como peças de natureza mais experimental repletas de sons e harmonias meio lúdicas, sem falar na proeminência de recortes estilísticos. Enfim, para aqueles que não se acomodam ao estado de êxtase dos discos mais clássicos do Big Big Train, recomendo dar uma boa olhada (quer dizer, escutada) nisso aqui.


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Sobre Expedito Santana

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

The Difference Machine

Álbum disponível na discografia de: Big Big Train

Ano: 2007

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,25 - 2 votos

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