Resenha

Vespertine

Álbum de Björk

2001

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

19/04/2021



Vespertine é uma trilha sonora linda, mágica e mística

Eu já vi muitas vezes em muitos lugares a descrição da música da Bjork como, “mágica”, fazendo deixar inclusive essa descrição como algo meio clichê para anexar o tipo de música feito pela cantora. Mas para Vespertine eu realmente tenho que admitir que essa palavra é bastante apropriada. Os elementos percussivos são tão frágeis quanto flocos de neve e muitas das canções são acompanhadas por coros que aumentam as belas melodias que Bjork escreveu para o álbum, adicionando uma leveza angelical em praticamente todas as melodias do disco. Desde que escrevi a minha única resenha - até hoje – da cantora aqui no site, eu conheci melhor os seus trabalhos, e vejo em Vespertine, um registro mais contido em relação aos demais, porém, passando longe de soar enfadonho.  

“Hidden Place” é a faixa que começa o disco e a que seria o single do álbum. Logo de cara o ouvinte é atingido por um loop eletrônico de uma batida digital junto com os vocais suaves e harmônicos de Bjork. Alguns outros loops de uma sonoridade orquestral muito agradável cria uma atmosfera bastante agradável. A faixa fala sobre o relacionamento de duas pessoas que parece que ainda não estão muito confiantes em relação aos seus sentimentos.  

“Cocoon” direciona o disco para um mergulho em um som mais minimalista. A percussão é criada com um sintetizador que soa semelhante a um vinil quando a agulha toca no disco. As letras aqui são mais sensuais e eróticas, sendo que o sentimento dos vocais refletem isso muito bem. " It's Not Up To You” tem a mesma sensação minimalista em relação aos vocais, porém, tem um refrão bem orquestrado que utiliza muito bem um coro ao fundo que dá uma sensação mais intensa à faixa. “Udo” utiliza de harpa e também de instrumentos de corda para criar uma atmosfera brilhante e boa dinâmica que ajuda para que a peça seja impulsionada a uma melodia não tradicional.  

“Pagan Poetry” é uma faixa belíssima que também usa do bom uso de harpa, além de uma caixa de música e um baixo bastante regular para criar uma base forte. Essa música foi o segundo single do disco, mas pelo que sei, acabou não sendo muito tocada por conta da sensualidade de suas letras. “Frosti” é apenas um interlúdio criado por uma caixa de música.  

“Aurora” é uma faixa em que Bjork recria um incidente que lhe aconteceu, onde ela estava correndo em uma geleira e caiu. Ela se machucou e colocou neve na boca para aliviar a dor – mas também há um contexto sexual nisso. O trabalho de harpa é belíssimo e o arranho coral excelente, além de mais uma vez o uso de uma caixa de música ser de muito bom gosto. “An Echo, A Stain” direciona o disco para um território mais experimental, pois carrega um ar muito mais minimalista. As letras são baseadas na obra Crave de Sarah Krane - dramaturga britânica que se suicidou aos 28 anos em 1999, onde sua obra se caracterizava pela profundidade psicológica dos personagens e pelas imagens agressivas e chocantes. A base musical é principalmente movida por cordas, uma batida mínima e um coro farto. 

“Sun In My Mouth” tem as letras baseadas em um poema de E.E. Cummings chamado I Will Wade Out. Possui um arranjo de corda muito delicado, além de uma harpa reconfortante. O alcance vocal de Bjork nessa peça é bastante eficaz. “Heirloom” tem em seus primeiros segundos algo que me faz lembrar de Peter Gabriel. O tema aqui é forte, trata-se do amor familiar e de como cuidam de uma pessoa quando ela está doente. Assim como ocorre mais com a segunda parte do álbum, também carrega certo minimalismo. Musicalmente o clima é leve, as batidas eletrônicas constantes e de ritmo médio ditam a peça sob a voz doce de Bjork.  

“Harm Of Will” é a primeira parceria entre Bjork e Harmony Korine – que co-escreveu a letra com a cantora – que mais tarde se tornaria regular na carreira dela. Uma peça de orquestração linda, os vocais nessa peça são um dos mais lindos do álbum. A forma como ela canta sobre uma execução contínua de cordas é quase que hipnotizante. “Unison” é a faixa que finaliza o disco e que lentamente sai da sensação minimalista que vinha existindo nas músicas anteriores, sendo uma composição mais tradicional – mas mesmo assim, longe de soar como um pop tradicional. Possui uma melodia otimista e até mesmo infantil, além de bastante charmosa. O refrão é cativante e ganha mais força ainda com as cordas que o acompanham ao fundo. Um final bonito e eficaz para um disco sensual e de muito vigor.  

Existe algo que não há como negar em relação a Bjork, que é o fato de sua música, sua voz, suas letras, enfim, tudo é diferente de qualquer outro artista. E se pararmos pra pensar, poucos são os artistas assim. Vespertine é aquele tipo de disco que quanto mais você o ouve, mais ele fica bonito e significativo. É bastante original e mostra muito bem o lado experimental e artístico da cantora. Até mesmo as faixas mais tradicionais não soam dentro dos limites de uma música popular. Resumindo: Vespertine é uma trilha sonora linda, mágica e mística.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Vespertine

Álbum disponível na discografia de: Björk

Ano: 2001

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,17 - 3 votos

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