Resenha

Si, Partie II - L'Homme Idéal

Álbum de Nemo

2007

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

17/04/2021



Um contraste coerente entre passagens suaves e explosões musicais repentinas

Si, Part II - L'Homme Idéal é o segundo disco e a segunda parte do conceito sobre engenharia genética em humanos – e o quinto da discografia do grupo -, uma continuação bastante digna, mesmo que inferior ao trabalho feito na primeira parte. Uma coisa que já se deve deixar claro é que não se trata de um clone no seu antecessor. O álbum é composto por dez atos e deve fluir como se fosse uma peça só, algo que inclusive é conseguido em boa parte com excelentes ligações entre muitas das faixas. As faixas individuais estão todas muito bem escritas e a musicalidade é excelente como sempre, entregando ao ouvinte uma viagem musical extremamente agradável.  

Mais uma vez a banda conseguiu apresentar um conglomerado de tudo aquilo que um fã de rock progressivo pode querer. Eles conseguem fazer um som aventureiro sem necessariamente ser vanguardistas, talentosos sem serem presunçosos e lançam uma enxurrada de melodias cativantes sem serem simples. Em Si, Part II - L'Homme Idéal a banda digere uma variedade de estilos para criar sua música que passeia entre outros, pelo jazz, grandiosidade sinfônica e rock pesado. Enquanto que a união de estilos tão díspares muitas vezes possa resultar em um som desconexo ou desagradavelmente eclético, a banda consegue misturar tudo perfeitamente.  

“Introduction À La Différence” começa com um fade-in a partir de onde o disco anterior havia acabado, mas a continuação sonora por sua vez logo desaparecerá novamente e o álbum de fato começa através de um diálogo que parece estar acontecendo dentro de um bar. A banda então entra toda junta com uma sonoridade pesada, uma espécie de hard rock lúdico com inserções melancólicas. Seu interlúdio central mostra o lado mais progressivo através de alguns teclados/pianos atmosféricos e linhas suaves de guitarra. Os vocais só aparecem mais para o final da faixa.  

“Les Enfants Rois” é uma faixa que já começa a todo vapor. Também foi lançada como single – o que de fato é compreensível, pois é a mais simples e direta entre as faixas do disco. Apresenta um trabalho de muitos sintetizadores. Não é exatamente um momento brilhante do disco, mas mesmo assim funciona bem. “Même Peau, Même Destin” vai surgindo aos poucos e criando uma cama de melancolia. Primeiros são sintetizadores e depois as guitarras ingressam à faixa e a partir disso “Même Peau, Même Destin” passa a seguir em um ritmo médio e de sonoridade variando entre pesada e suave. Por volta dos seis minutos a faixa sofre uma mudança, e a ênfase maior está na bateria/percussão, mas depois com o acréscimo de uma boa seção rítmica, teclado atmosférico e guitarra “suingada”.  

“L'Homme Idéal (1)” já pega o gancho deixado pela faixa anterior. A seção rítmica inicial é excelente, principalmente por conta do baixo. A guitarra suingada aparece novamente, mas agora todos os instrumentos estão em uma mistura de funk e jazz. Possui alguns solos melódicos extremamente precisos que combinam perfeitamente com uma construção musical brilhante. Uma das melhores interações da banda no disco.  

“Reflets”, com mais de dez minutos, é a faixa mais longa do disco. Começa finalizando a “explosão instrumental” que encerra a anterior. Alguns barulhos de chuvas e trovões, leves toques de guitarra e sintetizadores, além de uma voz vão surgindo e criando uma tensão antes que os primeiros versos apareçam na faixa. Aqui a banda conta com a participação da vocalista Sylvia Krauss que adiciona um canto mais colorido em determinados pontos. Depois de uma cadencia em ritmo médio e suave, a guitarra assume a superfície e cria uma sonoridade pesada com teclados ao fundo que vão dando um clima sinfônico. Após um solo de guitarra carregado de wah-wah, a música sossega entrando em um clima quase de final falso, porém, o coração da faixa permanece pulsante em uma instrumentação que vai crescendo novamente, atingindo o pico através de um bonito solo de guitarra e vocalizações de Krauss ao fundo antes que os versos regressem. Um épico maravilhoso e o grande destaque do disco.  

“Décadanse” é uma faixa mais curta – com pouco mais de dois minutos. Apresenta alguns trabalhos de teclados excitantes em meio a alguns riffs de guitarra mais vigorosos. “Une Question De Prix” começa com uma harmonia agradável e otimista e vai se cadenciando como uma bela balada. A música então silencia, teclados uivantes antecipam uma guitarra sensível e alguns toques espaçados de piano. Toda a banda regressa e a guitarra aplaca o ouvinte com um excelente solo. Os vocais em coro e o teclado sinfônico dão a faixa um final épico.  

“Une Question De Temps”, apesar de emendadas, o começo dessa peça em nada tem a ver com o clima que a faixa passada terminou. Uma faixa instrumental que mostra alguns violentos trabalhos de guitarra – mas com espaço para umas passagens funkeadas mais para o fim - e linhas enérgicas de órgão, além de uma seção rítmica efervescente. L'Homme Idéal (2) inicia-se com um piano alegre e marcações do bumbo da bateria. Então toda a banda se junta para criar uma melodia muito agradável, com guitarras jazzísticas, ótimo solo de sintetizador e baixo e bateria novamente fazendo uma cozinha incrível. Eu a vejo como uma peça que também poderia ter sido lançada como single. “Les Visages Du Monde” é onde o disco chega ao fim. Começa atmosférica com os teclados criando o plano de fundo antes que bateria e baixo também façam uma marcação até os primeiros versos aparecerem. A faixa segue lenta, silenciando-se em um momento que a guitarra muda a melodia de direção, primeiramente de forma solo e depois com a incursão dos demais instrumentos. A peça vai ganhando em intensidade e soando um pouco mais sombria em determinadas mudanças de notas. A maneira como ela termina fica parecendo que vai haver uma faixa logo em seguida, fazendo com que com isso os fãs imaginassem uma parte 3 de Si, porém, 14 anos e cinco discos se passaram e isso nunca aconteceu.  

Não tem muito o que dizer sobre o que a banda entrega nesse álbum. Um feito para qualquer fã de rock progressivo moderno, mas que não quer abrir mão completamente da escola clássica. Poucas bandas no cenário progressivo atual conseguem preencher tão bem a lacuna entre essas duas gerações de admiradores do mesmo tipo de som. Não se trata apenas de mais um álbum de uma banda qualquer, mas sim, um dos melhores esforços de um representante sólido e extremamente confiável do novo movimento progressivo.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Si, Partie II - L'Homme Idéal

Álbum disponível na discografia de: Nemo

Ano: 2007

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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