Resenha

Raw Material

Álbum de Raw Material

1970

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

16/04/2021



Uma banda com habilidades instrumentais e composicionais consistentes e fortes

Me lembro quando ouvi falar da Raw Material pela primeira vez e algumas pessoas mencionavam que no seu som continha algumas referências a Van der Graaf Generator. Sinceramente, nunca consegui entender muito bem a cabeça daqueles que faziam essa ligação, pois tirando o fato de a Raw Misterial também ter um saxofonista e alguns vocais em falsete em certos momentos, não consigo ver mais nada que ligue as duas de forma mais forte. Mesmo que algumas vozes soem angustiantes e teatrais, ainda passam bem longe de Peter Hammill. Ainda que seja uma banda em que não há foco na guitarra – assim como a VDGG - é impossível ligar os dois tipos de som – eles não soam tão complexos como Peter Hammill e companhia. Inclusive acho uma comparação mais válida com bandas como Beggars Opera, Rare Bird ou até um pouco de Birth Control.  

A banda gravou dois álbuns no início dos anos setenta, sendo este o primeiro deles e autointitulado. O som oferecido é uma mistura muito boa de um rock and roll enérgico do final dos anos sessenta e início dos anos setenta com traços de psicodelia, blues, folk e elementos de jazz, tendo em alguns momentos longas passagens instrumentais de fortes melodias.  

“Time And Illusion” é a faixa de abertura, também sendo a melhor delas e a mais longa. Após uma breve introdução vocal e um “refrão”, a banda se lança em uma sequência instrumental extensa e vibrante de bateria com sonoridade vigorosa, órgão Hammond arrasador e um teclado brilhante emulando o som de um vibrafone – na verdade eu imagino ser isso, pois no encarte não é mencionado vibrafone como um dos instrumentos usados no disco -, além de um baixo sombrio, e a maneira como a peça segue maliciosamente no ritmo com uma breve pincelada de saxofone. “I'd Be Delighted” começa através de uma flauta bem acentuada que vai fazer várias incursões durante toda a faixa. Os vocais estão extremamente parecidos com Mike Jagger – timbre e até mesmo a forma de cantar. É a faixa mais fraca do disco, mesmo tendo uma seção rítmica muito boa. Também acho o refrão meio irritante.  

“Fighting Cock” é mais uma faixa que começa com flauta, sendo seguida por alguns lamentos tristes ao melhor estilo King Crimson. Então que a banda muda completamente a direção da faixa através de uma explosão instrumental e vocais mais fortes. Órgão e saxofone são os instrumentos dominantes. “Pear On An Apple Tree”, assim como aconteceu com, “I'd Be Delighted”, também possui um som mais comercial. Um rock blues com algumas execuções enérgicas de guitarra e boas linhas de piano. Uma faixa ok.  

“Future Recollection” é uma faixa mais relaxante e que carrega uma certa aura encontrada no Moody Blues. Bateria e baixo fazem uma boa seção rítmicas, sendo auxiliado em pontos específicos por leves toques de vibrafone – que novamente imagino ser feito no teclado. Apesar de não empolgar pelo sua cadencia leve e quase mística, no fim ela ainda consegue cativar pela sua beleza. “Traveller Man” é de fato o outro grande destaque do disco. Dificilmente o ouvinte não vai se lembrar de Jethro Tull após os primeiros vocais – inclusive, aqui são muito mais parecidos que com o vocal do Mick Jagger em relação a  “I'd Be Delighted”. Por volta dos dois minutos os vocais se afastam e entra a guitarra com um solo cheio de vigor. A gaita que parece sempre ao fundo então emerge para também deixar a sua marca na faixa, a guitarra regressa e permanece até o fim da música. “Destruction Of America” encerra o disco através de uma passagem falada – talvez um poema - com uma paisagem de mellotron ao seu redor.  

Esse é daqueles discos em que a sua audição é muito boa e pouco exigente, do tipo que rapidamente revela uma banda com habilidades instrumentais e composicionais consistentes e fortes. Se você gosta do som do final dos anos 60 e começo dos anos 70, não há motivo algum para deixar de se aventurar nesse disco subestimado. Não é chique, mas imagine aquele seu jeans velho e surrado que você considera confortável e pronto para todas as ocasiões, então, esse é o tipo de som encontrado aqui.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Raw Material

Álbum disponível na discografia de: Raw Material

Ano: 1970

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,5 - 1 voto

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