Resenha

Lateralus

Álbum de Tool

2001

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

15/04/2021



Uma obra essencial de temas abrangentes e uma enorme parede de metal

Quando falamos de Tool e de Lateralus, falamos do magnum opus da banda e que dificilmente perderá esse posto algum dia. Uma verdadeira gama completa de texturas e sons. Do seu primeiro ao último segundo – ou quase isso, já que a última faixa não diz muita coisa - o que vimos aqui é uma maturidade e complexidade – e até estranhamente excelente – musical que o coloca entre os grandes lançamentos desse século. Lateralus retrata a banda em uma performance para ser lembrada e ouvida continuamente, tendo em cada uma delas uma nova experiência e descoberta.  

O melhor estilo da marca registrada do som da banda é encontrado aqui, suas sonoridades ambientais originais, algumas estranhezas e momentos de introspecção, além de partes sombrias e assustadoras. As guitarras muitas vezes soam barulhentas e sujas – quase grunge. Sendo esse o motivo de muitos fãs de grunge também ter um apreço pela banda, seria como se eles estivessem ouvindo uma espécie de “banda grunge progressiva evoluída”. A seção rítmica do álbum também é muito bem elaborada.  

“The Grudge” é onde o álbum se inicia. Um baixo e bateria ponderado, com toques pesados, mas contidos de guitarra ao fundo. Após os primeiros versos a banda explode em uma sonoridade furiosa – que dura somente alguns pouco segundos. A peça possui uma textura bastante intrigante. Mais à frente tudo começa a se cadenciar em um ritmo bem mais lento, quase hipnótico até que em determinado ponto tudo explodo em uma fúria total. “Eon Blue Apocalypse” possui pouco mais de um minuto. Atmosférica e melódica, serve muito bem como ponta entre a faixa anterior e a próxima.  

“The Patient” começa lenta e possui um processo de construção muito gradual. Essa lentidão se acumula até atingir um clímax tremendo. Os refrãos aqui apresentam uma excelente harmonia entre os instrumentos e os múltiplos vocais. A faixa eventualmente explode e um final falso traz um seguimento que é totalmente enérgico. Então que os elementos de abertura voltam para finalizar a peça. “Mantra” é apenas mais uma ponte de sonoridade atmosférica - inclusive aqui eu vejo um aceno ao Hawkwind.  

“Schism” é uma música classicamente Tool, simplesmente perfeita do começo ao fim. Possui uma linha de baixo poderosa e um gacho vocal muito cativante. Ao mesmo tempo que é menos agressiva que as faixas anteriores - não contando com as duas pontes – aqui encontramos algo muito mais intenso e emocional.  Há uma ruptura instrumental que serve como uma reconstrução dos temas centrais e que soa bastante eficaz. A sua parte mais impressionante fica por conta da sua seção intermediária. “Parabol” é mais um interlúdio atmosférico, mas dessa vez maior – mais de três minutos –, a primeira também dessas peças mais temperamentais a possuir vocais. Um som assustador e forte que emenda muito bem na próxima faixa.  “Parabola” se inicia através de um riff explosivo de guitarra, mas em seguida cai para um tipo de arranjo mais esparso. Apesar de possuir um refrão quase pop, a faixa não perde a sua veia pesada. Se trata de uma música muito energética e possivelmente está entre um dos momentos que soam mais positivos no álbum.  

“Ticks & Leeches”, uma bateria bem ritmada inicia a faixa, então algumas linhas de baixo se junta a ela fazendo a seção rítmica, a guitarra também vai surgindo ao fundo antes da explosão vocal – a única vez em que Maynard grita dessa forma. É uma das partes mais dinâmicas do disco, mas acaba saindo um pouco de direção em alguns pontos – não comprometendo propriamente dito a música, mas pode demorar um pouco para ser entendida por um ouvido mais desavisado em relação a banda. Há ainda uma seção suave conduzida pelo baixo que apesar de repetitiva, está cheia de um suspense que só favorece a peça.  

“Lateralus” começa de forma muito suave através de um riff lento de baixo e guitarra. A faixa então explode em uma sonoridade mais pesada, mas que logo regressa para uma linha mais calma em que inicialmente a bateria é o instrumento dominante. A peça a partir desse momento começa a crescer. Ao mesmo tempo em que a banda soa de forma aventureira, ela também consegue se manter próximo das suas raízes. Sem dúvida alguma uma das composições mais brilhantes da banda. “Disposition” é uma peça acústica de muita calma e serenidade. É suave e bonita, mas ao mesmo tempo também é sombria. As linhas de baixo são criativas e cativantes, enquanto que a bateria é em uma linha tribal rítmica. Entram também na peça algumas pinceladas de guitarra bem padronizadas e de tom elegante. Mesmo soando um pouco repetitiva no final, continua fantástica.  

“Reflection” não é apenas a melhor música do disco, mas certamente a melhor composição de todo o catálogo da banda até hoje. Começa com um trabalho suave de bateria, além de algumas texturas influenciadas por Hawkind e música do Oriente Médio. Possui também alguns elementos tribais e é construída de uma forma muito lenta e metódica. Além disso, essa música também é bastante hipnótica, experimental e progressiva. Mais próximo do fim a música se transforma em um rock mais pesado, mas isso não dura muito tempo e a peça chega ao fim. São onze minutos de uma verdadeira perfeição.  

“Triad” se inicia através de um fade-in que vai criando uma certa tensão até o momento em que tudo fica musicalmente violento, frenético e furioso – algo que acontece somente por volta dos três minutos. Possui uma grande adrenalina, riffs pesados de guitarra por toda a parte e uma seção rítmica muito bem construída. Uma peça completamente instrumental e pesada, mas que encontra a oportunidade de relaxar e ficar mais calma em determinado ponto. Assim como começou gradativamente em fade-in, ela vai desaparecendo em fade-out. “Faaip De Oiad”, sinceramente, eu acho uma faixa desnecessária e o disco teria um final perfeito se ela não existisse. São apenas alguns ruídos assustadores enquanto que um homem fala sobre seres extra dimensionais que estão lhe perseguindo. Isso soa completamente fora do lugar - mas também não acho que o disco perde o valor de obra-prima por isso.   

Lataralus mostra uma banda atingindo o seu ápice criativo e técnico. Um disco muito bem produzido e arranjado, peso na medida certa e vocais excelentes, além de altamente experimental. Daqueles álbuns que não importa quantas escutas são feitas, ele sempre vai ter o poder de crescer um pouco mais no ouvinte devido a sua complexidade.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Lateralus

Álbum disponível na discografia de: Tool

Ano: 2001

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,67 - 6 votos

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