Resenha

The Mothers Of Invention: We're Only In It For The Money

Álbum de Frank Zappa

1968

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

13/04/2021



Não é apenas música, mas uma sofisticada viagem mental sônica

Ao longo de sua carreira de tantas nuances, sempre foi mais fácil classificar Frank Zappa como algo de gênero próprio. Através de discos que vão desde o jazz ao hard rock, clássico, música de vanguarda e até mesmo momentos de comédia de stand-up, sempre ficou difícil de classificar o músico em apenas um gênero.  

We're Only In It For The Money é mais um dos discos que certamente pode figurar como uma das suas melhores gravações. Para criar esse disco, Zappa usou tudo o que havia aprendido até então em termos de escrever grandes melodias e utilização de técnicas de produção, além de algumas combinações de sons esquisitos. As mensagens de Zappa nunca foram tão fortes, assim como suas estranhezas nunca foram tão fartas.  

 Se você espera solos de guitarras no álbum, não precisa nem perder o seu tempo, pois o disco se concentra mais na mensagem e histórias combinadas com uma dissonância bizarra e instrumentos reais tocados, com efeitos em camadas por toda a parte. Eu particularmente me dou bem com alguns dos ditos “problemas” do disco por algumas pessoas, que é o fato de que muitos dos efeitos podem ser intrigantes, e isso acabar por interromper o que se chamaria de uma audição sólida de um álbum orientado para a música. 

“Are You Hung Up?” é uma pequena introdução através de vozes e alguns sussurros bizarros. “Who Needs The Peace Corps?” é onde podemos dizer que o disco começou de verdade. Aqueles que não são muito familiarizados com o início da carreira de Zappa podem se surpreender. Possui uma atmosfera bastante cativante com algumas boas – e contidas – invertidas de guitarra e saxofone. “Concentration Moon” começa com uma espécie de valsa meio boba e depois segue em uma linha clássica 4/4 que traz uma boa mudança melódica. Tudo é repetido mais uma vez antes que a faixa termine.  

“Mom and Dad” é certamente a faixa mais sombria do disco. É uma bela canção que se relaciona com o incidente da Kent State University, no qual manifestantes (hippies) tentavam impedir a Guerra do Vietnã e foram mortos a tiros pela polícia. “Telephone Conversation”, são menos de cinquenta segundos do que parece ser apenas uma conversa telefônica - como o nome da música já deixa claro. “Bow Tie Daddy” possui menos de quarenta segundos. Tem uma sonoridade de divertida, mas nada demais. Nunca foi tocada ao vivo.  

“Harry, You're A Beast” é um tiro certeiro no estilo de vida suburbano, a abertura é agradável e animada o suficiente para que a ideia de "American Womanhood" seja totalmente distorcida. Começando com um pouco de piano, Zappa canta em uma voz estridente que a atitude de "feminilidade americana" "fede" e que suas vidas são "completamente vazias". “What's The Ugliest Part Of Your Body?”, para responder qual é a parte mais feia o seu corpo, Zappa diz que não é o nariz e nem os dedos ou os pés, mas sim, sua mente. Após este aviso, Zappa informa a todas as crianças que estão ouvindo que elas não estão seguras perto de seus pais – inclusive, talvez isso seja até um pouco pesado demais.  

“Absolutley Free” começa com um piano bastante adorável de Ian Underwood, a música então muda para uma direção de valsa. Continua com o estilo normal do álbum, ainda que apresente um refrão mais bem definido. O cravo que é adicionado coloca um toque agradável à canção, assim como umas boas e rápidas mudanças. “Flower Punk”, o nome da peça é o de um cara jovem e inexperiente que não tem nenhum senso de direção. Essa música é cheia de turbulências e todos parecem pirar em determinado ponto. Em meio ao barulho, dois homens começam a falar em canais separados, escolha um deles e ouça a sátira impassível em meio ao barulho.  

“Hot Poop” são menos de trinta segundos de alguns sussurros estranhos de Gary Kellgren, seguido com algo que parece ser um disco sendo girado ao contrário. “Nasal Retentive Calliope Music” é uma homenagem a Edgard Varese. Uma coleção de sons estranhos e até mesmo perturbadores, tendo espaço para um pequeno momento de surf music no seu final. “Let's Make The Water Turn Black” imortaliza dois primos de um membro da banda. Uma canção bastante cativante sobre Ronnie e Kenny, de uma letra que me constrange um pouco, então não vou falar sobre ela. Eu acho muito curioso como Zappa gosta de fazer músicas de sonoridade leve por cima de letras que se encontram em territórios mais do que estranhos. As versões posteriores dessa faixa são instrumentais.  

“The Idiot Bastard Son” é uma peça que pode ser vista como uma continuação da faixa anterior. O personagem aqui é uma criança abandonada criada por Ronnie e Kenny. A música explica como a criança crescerá em um mundo de caos. Os refrãos da faixa são meio assustadores. Zappa coloca alguns vocais desconexos no meio da peça antes de pegar a faixa novamente. Suas versões posteriores também são instrumentais. A melodia termina com um sussurro assustador de Gary Kellgren falando colado ao microfone sobre sua falta de royalties de dois discos de sucesso que ele teve nas paradas. 

“Lonely Little Girl” é uma faixa com pouco mais de um minuto, onde a banda retorna com o conceito já abordado sobre a falta de amor entre pais e filhos. Há uma revisitada em “What's The Ugliest Part Of Your Body?”, dessa vez com um pequeno floreio de guitarra. “Take Your Clothes Off When You Dance” é uma música de vocais estúpidos e letras estranhas, algo que poderia ser considerado como um defeito, mas quando falamos isso em relação a Zappa, falamos de uma de suas características marcantes, fazendo com que a faixa soe cativante e brilhante.  

“What's The Ugliest Part Of Your Body? (Reprise)”, como o nome já diz, se trata de uma reprise, mas sinceramente, não consigo vê-la como algo que agregue algo ao disco - não atrapalha, mas é um momento opaco e meio a tantas cores. “Mother People” é uma faixa bastante cativante e alegre. Sua letra é um protesto pelo direito de ser livre e como os hippies podem ser iguais a todos. Próximo do seu final há uma passagem orquestral surpreendente.  

“The Chrome Plated Megaphone Of Destiny” é a faixa que encerra o disco, sendo bem mais longa que as demais peças apresentadas até aqui, passando dois seis minutos de duração. Muito assustadora e influenciada por Franz Kafka. A única palavra mencionada na faixa é “arbitrary”. Com alguns risos maníacos e sons musicais de vanguarda, a princípio eu achei um final meio deslocado para o disco, mas depois passei ver como o fim perfeito. Uma música capaz de causar arrepios pesadelos.  

Mesmo para os padrões de hoje, mais de cinquenta anos desde o seu lançamento, We’re Only in it For the Money ainda soa tão novo e relevante como na época que surgiu – lembrando que deve ser encarado além da música, suas letras são importantes para apreciá-lo de forma plena. Embora a The Mothers tenha forjado com sucesso a sua excentricidade única nos discos anteriores, foi aqui onde tudo se juntou em uma espécie de esfera brilhante, onde todos os aspectos das ideias musicais unidas se incorporaram umas nas outras perfeitamente para cuspir na cara de uma cultura sem alma enlouquecida. Ao ouvir algo como We’re Only in it For the Money, fica mais fácil de entender por que Frank Zappa é considerado um dos maiores gênios musicais de todo o século XX e o quão difícil é refutar essa ideia.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

The Mothers Of Invention: We're Only In It For The Money

Álbum disponível na discografia de: Frank Zappa

Ano: 1968

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

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