Resenha

All Rights Removed

Álbum de Airbag

2011

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

12/04/2021



Alcançando a excelência num rock progressivo altamente viajante

Esta é a terceira resenha que faço do Airbag, antes dirigi a atenção sobre a estreia dos nórdicos em “Identity” (2009), assim como sobre o último de estúdio, lançado o ano passado, “A Day at the Beach”, dois bons discos por sinal. Mas agora venho analisar o segundo desses noruegueses que representam a nova safra de bandas de rock progressivo. Como não sou muito de esconder o jogo, vou logo cravando que estamos diante do melhor dos caras (na minha humilde opinião, obviamente!). E o mais surpreendente é que em “All Rights Removed” o som estelar do Airbag apresenta uma qualidade ainda maior que a presente em seu debut. 

Apesar de continuarem fortemente fincados nas influências do Pink Floyd, vale dizer que os noruegueses são muito mais que uma mera caricatura dos dinossauros britânicos, ora visitando praias neoprog estilo Marillion e IQ, ora criando fluxos sonoros que remetem, às vezes, a Porcupine Tree, RPWL e Radiohead, porém, nunca é demais ressaltar, tudo isso sem perder a própria identidade. Inquestionavelmente, os faróis da banda são as performances meio blasé do vocalista Asle Tostrup, com seu canto frágil que parece se dissipar no ar, lembrando a delicadeza encapsulada na voz de Robert Smith do The Cure (esse aqui eu sou suspeito para falar!), bem como as guitarras siderais de Bjørn Riis, músico hábil tanto na emulação daquelas formidáveis seções gilmourianas quanto na transição para estações roqueiras  eletrificadas e pujantes, extraindo a todo momento das suas cordas timbres melódicos encantadores.   
	
A faixa-título abre o álbum e já mostra o que o Airbag é capaz de fazer. A propósito, não haveria abertura mais majestosa. Uma canção mid-tempo que segue um roteiro extremamente fascinante em todos os seus detalhes, com os riffs constantes da guitarra de Bjørn e a voz suave de Asle fazendo a canção fluir perfeitamente. É incrível como as progressões vão dando espaço a melodias bombásticas adornadas por licks e solos tirados do instrumento afiado de Bjørn. Após um interlúdio que mescla passagens vigorosas de guitarra e atmosferas espaciais, ela retoma o seu arcabouço instrumental básico encharcado naquela melodia intensa e charmosa do começo. Importante mencionar que o teclado desempenha uma função primordial aqui, construindo telas de fundo imprescindíveis à melodia da música. Só uma palavra: magnífica!

O clima de leveza tem sequência em “White Walls”, com os vocais delicados de Asle acompanhados dos acordes da guitarra de Bjørn, que rapidamente dá início a uma seção que deixaria Mr. Gilmour orgulhoso. A surpresa aqui é o baixo de Anders Hovdan que abre as portas para um solo estupendo de Bjørn. O clima emocional está por todos os lados. Na verdade, esse exemplar combina certo sentimentalismo instrumental/vocal ao entusiasmo do rock clássico. Mais um trabalho irrepreensível de Asle e cia.    

Quando se tem a impressão de que a faixa anterior está terminando, o fato é que já estamos diante de outra preciosidade, “The Bridge”, uma canção admirável que mais parece uma continuação de “White Walls”. Começa em cima de lentas palhetas de guitarras meio acústicas até dar espaço a acordes mais fortes e ganhar corpo na bateria de Henrik Fossum, com direito a passagens mais dinâmicas e performance vocal excelente de Asle. Há também um leve swingado guitarrístico que aparece sorrateiramente. O solo valente de Bjørn é a cereja que o bolo merecia. Destaque também para os trabalhos percussivos feitos pelo convidado Vegard Sleipnes e os de baixo, nesse cruzamento de Radiohead/Pink Floyd. Eles encontram uma via de acesso transversal entre todas as influências (progressivas/rock alternativo) e costuram tudo com muito cuidado de forma que nada fica fora do lugar, alcançando êxito tanto nos passeios instrumentais quanto nas trilhas vocalizadas.        

A longa “Never Coming Home”, com seus exatos 9 minutos, vem a seguir e traz junto toda aura hipnótica do Airbag. O fraseado inicial em tom mais fleumático de Asle é uma mostra da textura tranquilizante que permeia essa canção. A deliciosa atmosfera floydiana inclui solos arrebatadores à "Division Bell" e aquelas reverberações matadoras de acordes presentes em “Dark Side of The Moon”. As mudanças de humor da guitarra (melódica/aguerrida) são o que chamam a atenção aqui. A passagem de teclados da metade é nada menos que extraordinária. Enfim, uma incursão progressiva absolutamente perfeita, sem uma gordura sequer e repleta de arranjos primorosos e mudanças de andamento triunfantes. 

Considero a nebulosa “Light Them all Up” um interlúdio ou até mesmo uma ponte para a faixa seguinte. Contém alguns elementos de programação e teclado, mas os violinos trágicos de Karl Joakim Wisloff são o ponto alto dessa peça instrumental.   

Até aqui tudo caminha muito bem, sem dúvida “um discaço”! Mas o melhor ficou reservado para o final. “Homesick” é um épico de impressionantes 17 minutos dividido em 3 segmentos, onde é possível captar momentos complexos, desafiadores e magnéticos. Introduz com violões acústicos e o canto mais uma vez afetuoso de Asle, evoluindo para seções mais aventureiras e paisagens sonoras diversificadas. Sabe aquela faceta viajante do rock progressivo?? É isto que há aos montes nessa canção, além de texturas ambientais relaxantes misturadas a verves roqueiras contundentes calibradas eventualmente por meio do efeito wah-wah. Se você achar que a linha de teclados etéreos que tem início logo após os 8 minutos lembra “Shine On You Crazy Diamond” do Floyd eu vou entender perfeitamente, mas note também que o baixo de Hovdan é espetacular e que o solo de guitarra que aparece logo depois tem lá as suas idiossincrasias. Esse tour instrumental perde a sua intensidade perto de chegar aos 11 minutos, já que a partir daí as coisas retomam ares mais contemplativos, amparados principalmente em teclados sinestésicos e numa guitarra floydiana mágica, restando apenas fechar os olhos e curtir cada segundo até ser acordado por riffs mais abrasivos e depois voltar à sonolência novamente pelas inserções discretas de guitarra e teclado luxuoso. Bravo! 
     
Em que pese já ter entregado logo no início desta análise a minha opinião sobre “All Rights Removed”, volto a dizer, mesmo correndo o risco de ser repetitivo: “estamos diante de um excelente disco do Airbag”, quiçá o melhor deles (às vezes sou um tanto volúvel nessas avaliações comparativas!). Um trabalho consistente e repleto de ótimas composições que vai crescendo a cada audição. Quer um fim de noite relaxante e introspectivo? no qual seja possível sonhar acordado? Não pense duas vezes, coloque o som do Airbag para rodar e tenha certeza de que a jornada será muito deleitosa.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

All Rights Removed

Álbum disponível na discografia de: Airbag

Ano: 2011

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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