Resenha

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Álbum de Neal Morse

2005

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

10/04/2021



Uma das marcas que faz de Neal Morse um mestre do rock progressivo moderno

Question Mark é sem sombra de dúvida uma das obras-primas de Neal Morse. Já ouvi falarem muito sobre o músico, coisas como o fato dele soar muito repetitivo. Eu concordo que realmente Morse sempre pareceu mais confortável em sua zona de conforte do que tentando arriscar novas ideias, como se ele levasse para a sua música a máxima de que time que está ganhando não se mexe. Eu particularmente, como grande admirador de um progressivo de excelente musicalidade que sou, nunca vi motivo algum para reclamar e continuarei a consumir sempre a sua música. Inclusive, eu acho isso uma grande virtude, pois Morse encontrou um estilo que lhe cai bem e o explora da melhor maneira possível, melhor que muitos músicos que passam os anos e parecem perdidos sem saber exatamente o que tipo de som querem fazer.  

Também tem aqueles que reclamam das letras, embora eu não acredite que uma música de letra cristã seja a pior coisa que você tenha que suportar na vida, principalmente se ela estiver envolta de instrumentais tão bem acabado e desenvolvidos. Tudo em Question Mark é bastante impressionante, tendo uma música que flui muito bem do início ao fim. O álbum em si na verdade se trata de uma longa peça com doze segmentos distintos, se desenvolvendo muito bem sem parar, em uma unidade coesa, tornando-se uma peça conceitual notável.  

"The Temple of the Living God" começa com alguns sussurros e uma leve brisa. Este começo se encontra entre Testimony e Snow - porém, acho uma introdução melhor do que a de ambos os casos. A música então se fortalece com uma passagem instrumental influenciada principalmente por Genesis através de um duelo muito bom de teclado e guitarra, tendo mais à frente a companhia do saxofone que se junta a eles e completam toda a fusão. Mesmo que a faixa não tenha a mesma força em toda a sua duração, considero um excelente começo de disco. Morse estabelece a base lírica para o álbum ao declarar que um sacrifício é necessário para encontrar com sucesso o templo do Deus vivo. 

"Another World" é a primeira de uma sequência de canções curtas com menos de três minutos, mas que funciona muito bem. Possui uma vibe bastante otimista e passagens instrumentais únicas, seguindo muito bem a escola sinfônica clássica e as características já conhecidas de Morse desde a Spock’s Beard.  

“The Outsider" é uma faixa mais calma e suave que as anteriores. Uma boa combinação de Testimony e Light que resulta em melodias excelentes. Morse tem uma característica muito boa na sua maneira de cantar, tendo se tornado um bom contador de história sem que prejudique a música com isso. Morse pega elementos do final triste do primeiro lado de Testimony e os combina com a introdução edificante encontrada no segundo. O violão que carrega a música é muito bom. Alguns toques de sinos também edificam o som na primeira metade da faixa.  

"Sweet Elation", a transição entre a faixa anterior e essa é perfeita. E possível ouvir "Duel with the Devil" e "All of the Above" do Transatlantic nos instrumentais. Novamente, Neal e banda entregam ao ouvinte através de excelentes fragmentos instrumentais, seções de acordes que causam calafrios. Vale ressaltar que se trata de umas das melhores acentuações de Jordan Rudess no disco. O disco segue impecável.  

"In the Fire" é aquele tipo de música que começa um pouco fraca, mas vai crescendo mais a cada instante. O baixo de Randy na música é bastante selvagem e ultrajante, exatamente o que uma peça como essa pede. Portnoy como sempre se mostra um baterista excelente em adicionar variações de alto padrão e com isso criando uma seção rítmica maravilhosa ao lado de Randy. Os vocais em um formato no estilo coros gospel também acrescentam algo especial à música. Destaque também tanto para o solo de sintetizador – creio eu feito pelo Rudess – quanto para o de órgão - esse certamente feito por Morse. Em meio a esses portais sinfônicos tem espaço até mesmo para uma entrada de saxofone.  

"Solid as the Sun" começa já no seu ritmo central. O trabalho de baixo é notável. Um pequeno problema é a falta de peso na voz de Morse, não é exatamente o tipo de vocal que uma faixa como essa precisa, mas também não vou chegar a exagerar a ponto de dizer que a música estragou por isso. O maior destaque com certeza fica por conta do solo de saxofone que deixaria orgulhosos grandes mestres do instrumento dentro do progressivo como David Jackson e Theo Travis.  

"The Glory of the Lord", essa música foi uma grande decepção dentro do álbum, mas não pelos motivos óbvios. Essa faixa é simplesmente incrível, uma peça de pura luminosidade e emoção. Possui tudo o que é necessário para ser um épico, mas infelizmente com menos de dois minutos ela chega ao fim, pois é, a minha decepção com ela é somente o seu tamanho curto. Uma música que poderia ter uma participação muito maior no disco, mas acabou sendo servida apenas como uma introdução para a faixa seguinte – que inclusive é inferior e ela.  

"Outside Looking In" é uma faixa bastante triste e taciturna. Eu me lembro que quando ouvi ela pela primeira vez, assim que Morse começou a cantar, me veio o Bryam Adams em mente – e isso acontece até hoje. A música é uma balada lindíssima, além de ser muito bem cantada e instrumentalmente sutil e elegante.  

"12" começa com a mesma serenidade deixada pelo fim da faixa anterior. O trabalho de guitarra nessa música é lindíssimo - cortesia do mestre Steve Hackett. Os vocais só vão até pouco antes dos dois minutos, a partir disso o que o ouvinte recebe é uma verdadeira aula instrumental que começa com uma linha tímida de piano. Os demais instrumentos vão se intensificando. Equilíbrio e graça diante de muita técnica desempenhada em movimentos refinados e muito bem sincronizados de uma banda poderosa. Possui até algumas influências na música do Oriente Médio. Se for ver a quão tímida a peça começa, fica difícil de acreditar que ela mais a frente teria também uma das passagens instrumentais mais incríveis da carreira de Morse – seja em qual projeto for.  

"Entrance" diminui o êxtase deixado pela faixa anterior através de uma excelente introdução de piano e voz. A princípio parece ser apenas uma canção emocional e simples, mas ela cresce, além de reviver temas anteriores de "The Temple of the Living God e “Dream Elation”. Eu como um amante de refrãos, acho o dessa música muito bom – que não sei se são exatamente refrãos, mas acho que posso chamá-los assim.  

"Inside His Presence" é uma faixa que soa quase como um hino de alguma igreja, começando bem fraquinho com leves toques ao piano de Jordan Rudess e um vocal profundo de Morse. Conforme vai se desenvolvendo, também vai chegando em seu ponto culminante – mas não de forma progressiva e sim como uma simples balada. Até mesmo uma gaita de foles aparece para se juntar à banda em determinado ponto, seguida por uma guitarra melódica. Tudo soa como se estivéssemos no fim do álbum, porém, Question Mark ainda não acabou.  

"The Temple of the Living God", depois de muitos momentos entre exaltados e amenos, o álbum direciona o ouvinte para onde tudo começou. Musicalmente não há o que dizer muito nesse encerramento, mas vale a observação de que em vez de começar com vozes que ouvimos quando este foguete musical decolou, ele inverteu o formato, terminando o disco com alguns sussurros.  

No fim das contas, Question Mark é um disco sem erro, e como sempre em se tratando de trabalhos de Neal Morse, faz com que o ouvinte corra o risco de violar um dos dez mandamentos. Você deve se perguntar qual deles, né? Bom, digo que é o “Não usar o Santo Nome de Deus em vão”. Neal Morse é um artista que expressa a sua emoção como poucos, e prova isso em um registro sincero e que não se torna menos atrativo devido as suas anedotas míticas e citações irreversível, além de marcas bíblicas.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

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Álbum disponível na discografia de: Neal Morse

Ano: 2005

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 3 votos

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