Resenha

LTE3

Álbum de Liquid Tension Experiment

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

07/04/2021



Após 22 anos, 4 estrelas se alinham novamente e entregam um disco de excelência

O que eu percebi nos últimos meses foi algo que me chamou bastante atenção, pois sentia que eu estava mais ansioso em relação LTE3 do que em relação ao novo do Transatlantic, sendo que sempre preferi mais essa segunda banda do que a primeira. O fato de eu tratar o Transatlantic apenas como uma banda em hiato, enquanto o LTE como uma banda extinta possa ser algo que tenha pesado bastante nessa minha maneira de pensar. Se eu recebesse esse disco pra ouvir um dia antes do lançamento oficial já seria ótimo, faltando uma semana então, me poupou muita ansiedade.  

Mesmo que eu tenha cantado a pedra de um novo álbum da Liquid Tension Experiment no mesmo momento em que fiquei sabendo que Portnoy e Petrucci estariam juntos novamente em um lançamento oficial – Terminal Velocity do Petrucci -, não tem como negar que recebi a notícia dessa reunião com uma quase paralisação cerebral devido não parecer acreditar naquilo que estava lendo. Liquid Tension Experiment 3 é composto por oito faixas que criam um disco eletrizante praticamente do começo ao fim. Sete dessas faixas são originais da banda e “Rhapsody in Blue”, um “cover” de Gershwin que a banda toca com tanta habilidade que parece querer pegar a obra para ela.  

Quantas coisas aconteceram desde que LTE2 foi lançado, afinal, falamos mais de duas décadas. Passaram-se cinco Copas do Mundo de Futebol, cinco Olimpíadas, muitas das pessoas que esperavam este terceiro disco ser realidade sequer haviam nascido – ou não passavam de crianças que nem ligavam pra música -, Jordan Rudess era um cabeludo recém chegado ao Dream Theater, tanto Petrucci quanto Portnoy, pais de crianças e bebês, hoje são pais de adultos e Tony Levin, uma verdadeira lenda do baixo estava com apenas cinquenta e poucos anos. Uma grande diferença na comparação de fotos de cada época. Mas e em relação a música, o que mudou? Talvez isso seja o mais intacto, seguem massacrando o ouvinte com uma musicalidade poderosa, enérgica e impressionante.  

“Hypersonic” já começa o disco de uma maneira frenética. Uma bateria de notas simplesmente maravilhosa dá lugar a um riff introdutório matador. É possível notar ainda por volta de um minuto e quinze o que eu acredito ser uma homenagem – mais perceptível nos teclados - à passagem “Habanera” da “Opera Carmem” de Bizet – mas talvez seja apenas coincidência ou só eu vi semelhança. A banda parece já querer deixar claro o seu som inconfundível logo na primeira faixa do disco através de uma peça arrasa quarteirão, feroz e que consegue encapsular todas as facetas que fazem com que os fãs amem a banda. Uma introdução perfeita para o álbum.  

“Beating the Odds” não é novidade pois foi a música com o segundo vídeo lançado pelo grupo para dar aquele gostinho do que viria por aí. As mesmas melodias fortes mencionadas na faixa anterior seguem aqui em plena floração do começo ao fim. Possui uma atmosfera bastante otimista e capaz de fazer o ouvinte desfrutar dela com um belo sorriso no rosco.  

“Liquid Evolution” traz o disco para um clima mais intimista e menos bombástico. A cozinha de Portnoy e Levin se cadenciam com bastante sutileza enquanto que guitarra e teclado se alteram em belíssimas linhas que os colocam em protagonismo – sendo as de teclado até com influências tribais em determinados momentos. É a faixa mais curta do disco com menos de três minutos e meio, mas bastante interessante.  

“The Passage of Time” não é nenhuma novidade, pois foi a escolhida para anunciar oficialmente o retorno do quarteto e já estava no ar nas plataformas digitais a cerca de três meses antes do lançamento do álbum. Tem uma abordagem pesada, agressiva e até mesmo um pouco sombria, porém, sem perder o foco de melodias fortes. Mas em meio a tanta velocidade e agressividade a música ainda arruma espaço para um momento de “paz” em duas oportunidades.  

“Chris & Kevin’s Amazing Odyssey” possui um nome que vai fazer o ouvinte lembrar de “Chris and Kevin's Excellent Adventure” do primeiro disco da banda. O que as duas têm em comum? Bom, são faixas experimentais e baseadas apenas em baixo e bateria. Considero inclusive, “Chris & Kevin’s Amazing Odyssey”, a mais experimental das duas ou mesmo de todas as músicas do catálogo da banda. O baixo é direto e de uma linha bastante obscura, enquanto que a bateria toca de maneira esparsa, com padrões agressivos. Vai ganhando velocidade lentamente. Vale mencionar que a faixa remete ao King Crimson – fase Thrak – de Levin e aos improvisos que a banda costumava tocar ao vivo na época.  

“Rhapsody in Blue” é uma versão progressiva para a obra de Gershwin, uma verdadeira surpresa e deleita de mais de treze minutos. A melodia como é de se imaginar, trata de um padrão de jazz de sua era antiga. Foi durante a turnê de 2008 que a banda fez um arranjo para a música, e a tocava durante os seus shows, mas eles acharam que seria uma boa ideia gravá-la adequadamente para aqueles que não puderam vê-los – no caso, a maioria das pessoas. Para fãs mais puristas de jazz, podem achar que Gershwin esteja até se revirando em seu túmulo, mas eu acho que não, afinal o jazzista sempre passou a ideia de entender que os tempos mudam e ver a sua obra tão diferente não iria incomodá-lo tanto. A faixa captura muito bem a melodia principal e até mesmo o clima encontrado na peça, ao mesmo tempo em que ela é fragmentada em mil pedaços e, tecnicamente, avassaladora. Acho que o resultado ficou bastante divertido e muitos músicos de jazz a achariam até interessante por conta de sua abordagem única, sendo apenas isso já um motivo para admirar o que a banda fez.  

“Shades Of Hope” é o outro dueto encontrado no álbum, mas agora é de guitarra e teclado. Ela segue o oposto da faixa de Portnoy e Levin, sendo assim, é o momento mais simples do disco. A considero uma balada lenta e triste, aquele tipo de música que toca durante um filme em que os heróis dão os seus últimos suspiros enquanto a chuva cai sobre eles. Não deixa de ser uma boa peça, mas certamente a menos marcante do álbum.  

“Key To The Imagination” é a última faixa do disco e também a outra que passa dos treze minutos de duração. Um final extremamente digno, atingindo uma grande variedade de ritmos desde o seu início bastante lento e sereno até o final agressivo e fervoroso. Os riffs encontrados aqui podem ser considerados dos mais elegantes de todo o álbum. O baixo de Levin em alguns momentos é “cruel” com o ouvinte, tamanha a força com que ele bate em sua cabeça. Há em sua seção intermediária uma passagem melódica e jazzística até que tudo volta ao normal trazendo novamente os riffs principais para que o álbum termine com uma conclusão emocionante.  

Quando falamos de um grupo como Liquid Tension Experiment, falamos de músicos que a muito tempo podem ser considerados verdadeiros mestres em seus ofícios e instrumentos. Não há motivo para achar que o tempo tenha entorpecido suas criatividades e por isso não fosse possível fazer algo tão bom como foi feito mais de vinte anos atrás. O que acontece é que mesmo depois de duas décadas, quando são colocados juntos os músicos certos dentro de uma sala, algo grande pode acontecer. O terceiro capítulo dessa história é mais uma onda de adrenalina que nenhum fã de metal progressivo instrumental vai deixar passar.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

LTE3

Álbum disponível na discografia de: Liquid Tension Experiment

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,25 - 2 votos

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