Resenha

A Love Supreme

Álbum de John Coltrane

1965

CD/LP

Por: Tarcisio Lucas

Colaborador

06/03/2018



Uma obra divinamente inspirada!

John Coltrane é, sem sombra de dúvida, um dos maiores fenômenos musicais de todos os tempos. 
Sua música é atemporal e capaz de romper qualquer barreira geográfica, indo desde melodias sublimes de delicadeza e ternura até momentos ásperos, melodias que não seguem qualquer escala tradicional, ritmo solto, ás vezes inexistente (no sentido ocidental da palavra), de uma complexidade quase absurda.
Juntamente com o grande Miles Davis - com o qual tocou, tendo gravado junto a esse outra obra prima, o álbum "Kind of Blue" - Coltrane é provavelmente o nome mais significativo e importante do Jazz. E olha que o Jazz tem nomes de peso planetário, como Duke Ellington, Monk, Chet Baker, entre muitos e muitos outros.
"A Love Supreme" é um disco diferenciado, por vários motivos.
Antes de tudo, trata-se de um disco com profunda inspiração na espiritualidade do músico, que nessa época era um inquieto ser humano que se interessava por variadas formas de expressão da religiosidade, como as religiões de origem africana, as religiões dos afro-descendentes (o qual ele se incluí-a), as religiões asiáticas, como o budismo e principalmente o hinduísmo. Além , claro, do próprio cristianismo.
Essa busca de Coltrane estará presente em outras de suas obras, especialmente aquelas mais próximas de seu fim de carreira.
Mas em nenhuma delas a mensagem foi tão clara e profunda quanto nesse registro.
Religioso ou não, de forma geral a maior parte dos entusiastas do jazz e do musico apontam esse como sendo a grande obra prima do compositor. Eu já não sei se sigo essa corrente - "Olé Coltrane" e "Blue Train" sempre terão para mim um gosto bastante próprio - mas não posso deixar de concordar com o fato de que isso aqui é sim, acima de qualquer suspeita, uma obra prima.
O álbum é dividido em 4  partes. A proposta de Coltrane foi transformar em sons e musica o que seria os passos de uma caminhada espiritual em busca do Absoluto, uma caminhada feita de etapas, começando com um "reconhecimento ("Aknowledgement") e que termina em uma prece, um agradecimento ("Psalm").
Ao contrário da maior parte das músicas de Coltrane, que apresentam variações em cima de variações, improvisos em cima de improvisos, as 4 composições aqui apresentadas trabalham imensamente com o conceito de repetição, de "looping", tendo uma relação estreita com o conceito de "mantra", algo que declaradamente estava na mente do instrumentista ao realizar essas gravações.
Claro, os improvisos estão todos lá, com o selo "Coltrane" de qualidade; basta ver a música "Resolution" para perceber isso. Mas até mesmo aqui percebemos os ritmos que vão e vem, as melodias que se repetem, como se o musico quisesse criar algo onde começo e fim se mesclassem, assim como o Absoluto que ele tentava traduzir em música.
O que mais me chama a atenção quanto a execução, além do saxofone de Coltrane, é o trabalho de bateria realizado pelo grande Elvin Jones. De uma complexidade que beira o impossível, ainda assim soando suave e sem de forma alguma conflitar com o restante do instrumental. Vale ressaltar que Elvin Jones tem em seu currículo trabalhos ao lado de Charles Mingus, Miles Davis, Bud Powell...o cara era uma máquina de precisão e feeling!
No piano Mccoy Tyner, e no baixo Jimmi Garrison completavam o line-up.
É um tipo de jazz que não funciona como música de elevador (aliás, dentre todos os termos musicais que já foram criados, "música de elevador" me parece ser o mais estúpido deles). É um disco que exige uma atenção atenta, onde cada segundo representa um passo nessa caminhada. Muito mais que disco, é um convite à uma viagem musical por territórios distantes.
Indispensável, qualquer um ao menos uma vez na vida deveria separar 33 minutos - o tempo de duração do álbum completo -  para ouvir essa obra definitiva!


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Sobre o álbum

A Love Supreme

Álbum disponível na discografia de: John Coltrane

Ano: 1965

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 3 votos

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