Resenha

Jar Of Flies

Álbum de Alice In Chains

1994

EP/Single

Por: Expedito Santana

Colaborador

03/04/2021



Um EP com cara de um grande disco

Não é todo EP que consegue o reconhecimento de “Jar of Flies” do Alice in Chains (AIC), esse disco foi lançado quase dois anos após o primeiro extended play, “SAP”, e sucedeu a obra-prima a ser batida, “Dirt”, de 1992, que projetou de uma vez por todas o grupo ao mainstream nas asas do fenômeno grunge, e graças, principalmente, aos singles de sucesso "Would?", "Them Bones", "Angry Chair", "Rooster" e "Down in a Hole". Mas isso é outra história, pois o objetivo do momento consiste em avaliar a relevância de “Jar of Flies” tanto para a carreira do AIC quanto para o mundo do rock.   

Voltando a falar desse EP, vale lembrar que ele faturou o Disco de Platina triplo e também foi o primeiro EP a chegar à primeira posição na parada de álbuns Billboard 200. Além disso, possui grandes hits da banda: "Don't Follow", "No Excuses", "I Stay Away" e “Nutshell”, sendo que as três primeiras foram lançadas como singles promocionais à epoca, e, recentemente, as duas últimas foram incluídas numa lista do jornalista Sam Law, da revista britânica Kerrang!, que elegeu subjetivamente os 20 maiores sucessos do Alice In Chains. 

O curioso título do álbum, segundo o falecido vocalista Layne Staley, foi inspirado num experimento que o guitarrista Jerry Cantrell conduziu quando ainda era estudante envolvendo dois jarros cheios de moscas, as quais terminaram sendo alimentadas de maneira desigual intencionalmente para se avaliar os resultados. 

Em “Jar of Flies” os temas líricos incluem uso de drogas, relacionamentos e amor. A maioria das composições é assinada por Staley e Cantrell. Não se deve esquecer ainda que foi o primeiro disco oficial com a participação do baixista Mike Inez. São ao todo 7 músicas inéditas à epoca, que mostram um AIC bem mais consistente que no EP “SAP”, destilando um rock alternativo (chame de grunge se quiser) que gira em torno da conhecida vocação mais arrastada e melódica do grupo, com inserções eventuais de solos de guitarras elétricas e bases vigorosas, mas a maior parte do tempo proporcionando canções palatáveis, de vocação acústica e pautadas por momentos menos melancólicos que os de costume.    
  
O disco abre com "Rotten Apple", uma faixa que transcorre em ritmo bem lento guiada por guitarras amigáveis em licks discretos e aconchegantes, com Layne Staley às vezes assumindo tonalidades tão suaves que beiram sussurros. 

Logo em seguida vem uma das minhas preferidas, a fantástica "Nutshell", um folk-rock de textura delicada e acústica, com vocais esplêndidos de Staley, principalmente na parte dos gritinhos melódicos, trabalho elegante de percussão de Sean Kinney e guitarras fantásticas, tanto a rítmica quanto a solo de Cantrell. Jamais escuto-a sem repetir. Uma perfeição de música! 

"I Stay Away" é outro grande momento do disco, transita por uma base light intercalada por riffs abrasivos, contando com arranjos pré-refrão belíssimos. Por falar em refrão, a forma como Staley pronuncia-o de maneira estendida é outro detalhe admirável. 

"No Excuses" é uma das canções mais alegres do AIC na minha opinião. Foi a primeira canção da banda a alcançar a primeira posição da parada Mainstream Rock Tracks da Billboard. Poderia ser incluída, sem nenhum esforço adicional, numa trilha surf music ensolarada qualquer junto a canções de Ben Harper e afins. Baixo e bateria são os protagonistas aqui, mas as inserções macias de guitarra e o excelente solo de Cantrell a tornam uma pérola.    

Para não perder o hábito de introspecção, o AIC nos brinda com a instrumental "Whale & Wasp", uma viagem um tanto experimental e relaxante, explorando o conhecido feedback distorcido e meio choroso da guitarra, mas sem criar maiores tensões. 

“Don't Follow" apresenta a faceta country-rock da banda, uma delícia de canção que tem uma gaita maravilhosa, a guitarra acústica de Cantrell e a voz doce de Staley laborando em sinergia perfeita. 

O fechamento fica por conta da jazzy "Swing on This", que tem guitarras mais abrasivas intercaladas às seções em que o baixo se torna proeminente, e contando com uma presença um pouco mais vigorosa da voz de Staley.  

“Jar of Flies” foi indicado a dois prêmios Grammy em 1995, a saber: Melhor Capa de Disco e Melhor Performance Hard Rock para "I Stay Away". No entanto, mais importante que isso, foi constatar que o sucesso de “Dirt” não foi um mero acidente, uma vez que por trás daqueles trabalhos de uma incipiente carreira já havia uma banda extremamente competente e que aprendeu rapidamente o caminho a seguir. A propósito, saber sempre para onde ir e não se deixar levar por distrações talvez sejam as maiores virtudes do Alice In Chains.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Jar Of Flies

Álbum disponível na discografia de: Alice In Chains

Ano: 1994

Tipo: EP/Single

Avaliação geral: 4 - 4 votos

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