Resenha

A Day At The Beach

Álbum de Airbag

2020

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

26/03/2021



Um ótimo disco de rock progressivo atmosférico mesclado a camadas eletrônicas

Há um certo tempo que aprecio muito o som dos noruegueses do Airbag, uma espécie de A-ha do rock progressivo (brincadeirinha!). Na verdade, a única ligação neste caso, além da verve gélida, é o fato de serem conterrâneos dos rapazes da famosa banda oitentista. Bem, mas falando sério, o fato é que “A Day at the Beach” já é o quinto álbum de estúdio desde a estreia em 2009 com o honesto “Identity”, disco que, inclusive, já tive a oportunidade de analisar aqui no 80 Minutos. Mesmo que “All Rights Removed” (2011) ainda seja considerada a obra-prima dos escandinavos, está longe de ser um exagero dizer que esse lançamento de 2020 manteve com sobras o bom nível do catálogo do grupo.

Apesar de estarem na estrada há bastante tempo, mais precisamente nos idos dos anos 90, pode-se dizer que os alicerces da sonoridade do Airbag parecem permanecer idênticos aos do início da carreira, ou seja, as performances vocais melancólicas e arrebatadoras de Asle Tostrup e os acordes hipnóticos da guitarra de Bjørn Riis destacam-se em meio ao restante. A propósito, nessa empreitada o competente Henrik Fossum continua nas baquetas e o músico convidado Kristian Karl Hultgren segura as pontas nas quatro cordas em substituição a Anders Hovdan, que havia tocado no antecessor “Disconnected” (2016), outro excelente disco. 

A verdade é que a banda vem construindo uma ótima reputação na cena do rock progressivo em virtude de trabalhos consistentes e sólidos, como é o caso da presente obra. Estamos diante de um disco que não precisa de muito tempo para cair no gosto. Ainda que o ouvinte não esteja familiarizado com as extensas atmosferas viajantes criadas pelo Airbag, rapidamente ele se verá envolto numa redoma magnética que prende a atenção e que permite sentimentos de aconchego e êxtase notáveis.  

Não é novidade alguma que o som do grupo busque inspiração flagrantemente no Pink Floyd e seja bastante assemelhado ao de outra banda que tem os ingleses como maior referência, o RPWL. Ainda que a programação e os recursos eletrônicos não sejam necessariamente protagonistas, o Airbag usa com maestria nesse disco matizes mecanizados que remetem a Tangerine Dream, Kraftwerk e afins, por mais surpreendente que isso possa parecer. Como era de se esperar, em “A Day at the Beach” os vocais de Asle estão normalmente à frente, mas também há longas passagens em que a sonoridade progride majoritariamente instrumental, muitas vezes passeando por trilhas ambientais. Em síntese, o álbum consegue erigir componentes emocionais e momentos introspectivos na forma de um crossover progressivo de camadas eletrônicas.
 
Com a sua intrigante arte de capa, que exibe uma foto de vários ursos de pelúcia com as cabeças enterradas na areia da praia, eis aqui um daqueles discos em que o uso de fones na audição é altamente recomendável, permitindo que se ouça e, sobretudo, se sinta de maneira plena tudo que a música tem a oferecer. 

Os trabalhos abrem em grande estilo com um épico de cerca de 11 minutos, “Machines and Men”, uma das melhores faixas na minha opinião. Canção estelar que faz uso de programação, de teclados climáticos e riffs hipnóticos de guitarra que ora assumem uma feição mais branda ora uma textura mais pesada. O mais interessante é que embora permaneça quase o tempo todo numa mesma base rítmica, essa canção não padece de monotonia, tendo como ponto alto um solo longo de guitarra bem ao estilo David Gilmour do Floyd. Resumindo: rock psicodélico moderno da melhor estirpe. 

“A Day at the Beach (Part 1)” assenta numa paisagem tranquila levada por teclados espaciais, linha de baixo minimalista e, ao mesmo tempo, elegante, com os licks esparsos de guitarra e a voz de Asle criando um compasso lento e deleitoso nessa faixa.  

“Into the Unknown” é outro épico excelente com introdução baseada em programação e teclados etéreos, a voz de Asle é pura melancolia. Essa canção cumpre um roteiro comportado sem maior atividade da bateria, que vai crescendo junto com a música, mas sem pressa alguma, até que, quando tudo indica que haverá ume explosão, eis que repousa num clima soturno, como se fosse encerrar, mas não sem antes a guitarra de Bjørn iniciar uma seção gilmouriana melódica belíssima. Em “Sunsets”, que é outra música relativamente grande, o temperamento afável dá espaço a uma maior tensão, cadenciada principalmente pelo baixo de Kristian Karl e pela guitarra um tanto abrasiva de Bjørn. Destaque para o trabalho deste último, que mescla partes vigorosas a instantes mais arrojados, com os teclados também fazendo boas camas. 

A faceta eletrônica de “A Day at the Beach (Part 2)” mostra-se bem evidente, fazendo essa faixa transitar numa zona contemplativa de paisagens floydianas arquitetadas esplendidamente pelo guitarrista Bjørn. Recomendo apenas fechar os olhos e sentir toda pulsação e tramas dessa incrível peça instrumental.     

O adeus é dado pela emocional Megalomaniac, são quase 10 minutos de rock de inclinação mais ambiental, mas que se permite intempéries. Asle assume o comando com seu vocais abatidos e mais uma vez é impossível não falar em Bjørn, que lança licks no ar acompanhado de perto da bateria e baixo. As passagens mais lentas são geralmente preenchidas pelos teclados e programação. Quase no meio da música aparece uma surpresa inacreditável (quase deslocada): uma enxurrada de acordes irados e riffs de guitarra. Como queria um pouco mais disso!! Bjørn espanca o seu instrumento de trabalho e o faz sem dó nem piedade.  

O multi-instrumentista e produtor Steven Wilson (Porcupine Tree, Blackfield...) disse recentemente numa entrevista que a tendência é que a música moderna abandone gradativamente as guitarras. Apesar de ser um fã de Wilson, sou forçado a discordar veementemente de tal afirmação, talvez mais por vontade e menos por reconhecer a realidade dos fatos, uma vez que guitarras vorazes ou melódicas nunca serão demais (pelo menos não para mim!). E é justamente nesse item que o álbum derrapa, ou seja, não ter apostado mais fortemente nas seções “guitarrísticas”, ainda que no geral isto não o torne desinteressante. No frigir dos ovos, é bem verdade que “A Day at the Beach” pode ser considerado um ótimo disco e provavelmente agradará muito aos amantes de um rock progressivo climático.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

A Day At The Beach

Álbum disponível na discografia de: Airbag

Ano: 2020

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 1 voto

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