Resenha

The Yes Album

Álbum de Yes

1971

CD/LP

Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

19/03/2021



O inicio da era progressiva

Para falarmos deste disco, temos que voltar alguns meses no tempo, quando o baixista Chris Squire demitiu o guitarrista Peter Banks ao final das gravações do disco “Time and Word”. Seu estilo demasiadamente cru e rocker estava longe da sonoridade melódica buscada pela banda. 

Então Squire e Jon Anderson começaram a procurar por um novo guitarrista, alguém que atendesse as expectativas do grupo.
Em meio a várias audições, o baixista se lembrou de Steve Howe, guitarrista da banda “Tomorrow” que havia feito algumas apresentações  ao lado do “The Syn”, grupo anterior de Squire. Anderson também o conhecia há tempos, então resolveram marcar uma audição. 

As influências de Howe divergiam muito da maioria dos guitarristas de rock progressivo. O músico era apaixonado por musica clássica renascentista, chegando a estudar alguns instrumentos típicos da época. Era entusiasta do jazz americanos, principalmente dos guitarristas Barney Kessel e Wes Montgomery. Ele também possuía paixão pela técnica de Chet Atkins, famoso guitarrista americano de country, utilizando técnicas oriundas deste estilo em sua música. Pessoalmente acho que os integrantes do Yes foram corajosos ao escolher um guitarrista com técnica tão exótica, mas segundo Anderson, seu estilo se encaixou perfeitamente com a cozinha extremamente técnica formada por Squire e Bruford, razão pela qual foi efetivado.

Com a formação completa, a banda começou a ensaiar na região de Devon, a sudoeste da Inglaterra, com o intuito de se isolar e criar novas canções. Posteriormente, o grupo voltou a Londres onde se instalou no “Advision studios” e começou uma das parcerias mais prolíficas do rock progressivo com o produtor  Eddie Oxford, considerado na época um sexto membro, sendo responsável pela gravação e produção dos maiores clássicos do grupo.

Todos estavam entusiasmados com a nova sonoridade conseguida. Diferente de Banks que era limitado apenas a sua guitarra elétrica, Howe levou para o estúdio uma gama enorme de instrumentos, como guitarras semi acústicas, violões, dobro e até uma guitarra portuguesa, mostrando que poderia elevar o som do Yes a um outro patamar tanto melódico quanto harmônico.

O álbum continha seis musicas, três de cada lado e apesar de não apresentarem nenhuma longa suíte característica dos álbuns seguintes, o disco apresenta vários clássicos, imprescindíveis até os dias de hoje em qualquer apresentação da banda, como ‘Yours is Not Disgrace”, cujo refrão de guitarra foi criado sozinho por Howe enquanto o grupo descansava. A letra foi inspirada no seriado “Bonanza” que criticava a sociedade pós-guerra e seu jeito fútil de encarar os problemas. O grupo utiliza metáforas para apresentar sua dura crítica. “Caesar´s Palace, por exemplo, é um suntuoso resort e cassino em Las Vegas;

A faixa “The Clap” é um momento solo de Howe, que apresenta uma pequena peça acústica e instrumental em homenagem ao seu filho Dylan, nascido dois anos antes. É fortemente influenciado pela country music e foi gravada ao vivo no “Lyceum Theatre” em Londres;

“Starship Trooper”, com sua letra de ficção cientifica baseado no livro homônimo de Robert A. Heinlein, teve sua letra totalmente escrita por Anderson. A canção se divide em três partes, compostas respectivamente por Anderson, Squire e Howe. É facilmente perceptível que a guitarra do “novato” Steve se encaixa perfeitamente na base da canção. O famoso solo do final foi inspirado em uma canção do “Bodast”, primeiro grupo do guitarrista;

O lado “B” do antigo vinil começa com “ I've Seen All Good People”, uma das minhas canções favoritas do grupo. Ela é divida em duas partes: A primeira acústica, onde Howe utiliza a guitarra portuguesa, creditada como “Vachalia” para realizar a base para o complexo jogo de vocais utilizados por todo o grupo. E a segunda parte essencialmente elétrica, com seu refrão sendo repetido incansavelmente em meio a solos da Gibson semi acústica de Howe. A letra foi inspirada no romance chamado "Through the Looking-Glass" do escritor inglês Lewis Carroll;

“Venture” é uma boa canção. Foi escrita por Anderson dentro do estúdio e apresenta uma das poucas performances inspiradas do tecladista Tony Kaye. Apesar da qualidade da canção, ela foi esquecida por estar espremida no meio de dois grandes sucessos do grupo;

O álbum encerra com “Perpetual Change”, uma canção polirrítmica, com estruturas complexas, jogo de vozes  e mudanças de andamento. A letra é mais uma daquelas divagações de Anderson sobre mudanças em relação ao mundo e ao universo. Apesar de soar demasiadamente psicodélica, a letra se encaixa bem na estrutura da musica encerrando o álbum de maneira primorosa;

Não é preciso ser gênio para perceber que “The Yes Album” foi um salto evolutivo na sonoridade do grupo. Pela primeira vez a banda apresentava um trabalho completamente autoral, com grande diversidade de estilos que se complementavam e uma riqueza harmônica cada vez mais rebuscada. 

A capa foi feita pelo fotógrafo Phil Franks de  improviso, uma vez que o profissional havia ficado insatisfeito com as fotos tiradas durante as apresentações do grupo. E pra piorar o grupo tinha sofrido um acidente automobilístico. A saída foi levar a banda toda para o seu apartamento e tirar uma foto na cozinha, utilizando uma cabeça de manequim e uma lâmpada de 1.000 watts. Kaye aparece com o pé engessado devido ao fatídico acidente.

Lançado em fevereiro de 1971, o álbum completa 50 anos de idade e ainda é um grande clássico da discografia do grupo.


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Sobre o álbum

The Yes Album

Álbum disponível na discografia de: Yes

Ano: 1971

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,75 - 20 votos

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